A fome no mundo e a fome em Aveiro. Esse “desconforto por não ingestão de alimentos”, que, felizmente, em princípio, nenhum dos leitores experimenta por mais do que umas horas, mas que para milhões de pessoas é a realidade de cada dia, até que a morte chega. E nas duas horas que durou a sessão do Fórum::Universal, na noite do dia 2 de Maio, no Centro Universitário Fé e Cultura, como lembrou Hélder Castanheira, que moderou o encontro, terão morrido mais 800 pessoas devido ao tal desconforto permanente. Outros números apresentados na sessão revelam uma realidade ainda mais dura. Se a cada três segundos morre uma pessoa devido à fome, durante o Fórum, terão morrido mais de duas mil pessoas. Todos os dias a fome mata muito mais do que o 11 de Setembro. A mudança pode começar por nós. Num novo estilo de consumo, por exemplo. J.P.F.
BANCO ALIMENTAR
Martinho Pereira invocou a sua infância numa aldeia perto de Tondela, para justificar a sua sensibilidade para este drama. “Os meus pais ensinaram-me o que é matar a fome e a alegria de matar a fome a alguém”, disse, referindo-se ao acolhimento que os pedintes tinham em sua casa. O presidente do Banco Alimentar Contra a Fome / Aveiro (BA) apresentou dados do Banco Mundial sobre a fome no mundo e sublinhou a facilidade de resolver o problema: “Uma refeição escolar pode custar 16 cêntimos por dia”. O grosso da sua intervenção foi, como seria de esperar, para a instituição que dirige. Visto que o BA foi alvo da atenção deste jornal numa edição anterior, transcrevem-se aqui apenas algumas frases mais fortes.
Tudo para dar
O BA, para si, quer zero. Tudo o que tem é para distribuir o mais rectamente possível, o mais rapidamente possível, o mais justamente possível.
Capital Social
O voluntário é o grande capital do BA. As pessoas não têm preço. O BA é o banco com maior capital social.
Duzentas mil pessoas apoiadas
A nível nacional, os 13 BA portugueses distribuem 71 toneladas de alimentos por dia. São apoiadas 216 mil pessoas através de cerca de um milhar de instituições.
Pouca publicidade
O BA, través da Federação de Bancos Alimentares, apenas publicita a sua acção por ocasião das duas grandes campanhas anuais, na Primavera (Maio) e no Outono (Novembro). De resto, a projecção do BA deve-se às instituições apoiadas e aos voluntários. Os 12 mil, a nível nacional, são o grande veículo de divulgação. Trata-se de uma informação credenciada.
OIKOS
João Fernandes, director-executivo da Oikos, antes de falar da acção da sua organização, apresentou os 8 objectivos da “Declaração do Milénio”, um projecto assinado em 2000 por 189 países, para cumprir até 2015. O primeiro dos objectivos é acabar com a fome. Ora, segundo um estudo em que a sua organização participou, esse objectivo, ao ritmo actual, só será alcançado em África no séc. XXIII, enquanto a Índia e a China (os países que em números absolutos mais esfomeados tinham) estão efectivamente a reduzir a subnutrição. Aqui ficam os principais destaques da intervenção do presidente executivo da OIKOS.
Objectivos de desenvolvimento do Milénio
1. Reduzir para metade a pobreza extrema e a fome; 2. Alcançar o ensino primário universal; 3. Promover a igualdade entre os sexos; 4. Reduzir em dois terços a mortalidade infantil; 5. Reduzir em três quartos a taxa de mortalidade materna; 6. Combater o VIH/SIDA, a malária e outras doenças graves; 7. Garantir a sustentabilidade ambiental; 8. Criar uma parceria mundial para o desenvolvimento.
O maior dos problemas
A fome é causa e efeito da pobreza. Está na origem de todos os outros problemas: subaproveitamento escolar, que, por sua vez, leva a um incorrecto aproveitamento dos recursos, que leva a mais fome.
O outro lado: obesidade
Há disponibilidade de alimentos no mercado, mas o acesso não é garantido a todos de igual forma: uns estão obesos; outros subsistem mal.
Efeito CNN
Quando uma catástrofe humanitária chega à cadeia de televisão CNN, há a seguir uma resposta eficiente da comunidade internacional, o chamado “efeito CNN”.
Prioridade
O factor que mais contribui para acabar com a fome é a alfabetização das mulheres. Usam melhor os bens e educam os filhos.
A cana e o peixe
O problema da fome é complexo. Não basta dar o peixe, mas é preciso dar o peixe. É preciso ensinar a pescar e a fazer a cana de pesca. É preciso haver acesso ao mar ou ao rio e estes não estarem poluídos. É preciso ter acesso ao mercado para vender o peixe e o preço não ser injusto…
Armas ou arados
Não há quem se aproveite da fome. A fome existe mais por inércia. Mas lucra-se mais com a guerra do que com a paz, condenando-se países à fome. Ganha-se mais vendendo armas do que vendendo ferramentas agrícolas.
Cooperação e desenvolvimento
A Oikos promove projectos locais de desenvolvimento económico e de conhecimento, sem perder de vista a influência das políticas públicas. A ONG para o desenvolvimento tem 198 colaboradores (20 em Portugal e os restantes em 11 países) e 106 voluntários.
Três dimensões da Oikos
A palavra grega “oikos” quer dizer “casa” e está na origem de três palavras identitárias da organização: ecumenismo (a Oikos é constituída por pessoas de várias religiões e de vários quadrantes políticos), economia (de rosto humano) e ecologia (respeitando o ambiente). A Oikos dedica-se à acção humanitária, à vida sustentável e à cidadania global.
Sector social e cooperativo
Ignorar o terceiro sector, o social e cooperativo, tudo deixando para o Estado e o mercado, é uma miopia e é perigoso. É miopia, porque a prática no terreno contradiz os documentos. Se o sector social e cooperativo fizesse greve, em Portugal, 10 por cento da população era gravemente afectada. É perigoso, porque é ideia que vai fazendo doutrina, graças aos lobbies das empresas de consultoria.
Novo estilo de consumo
É necessário alterar os padrões de comércio (justo) e de consumo (responsável). Demora gerações, mas as alterações climáticas vão apressar essa mudança. As novas gerações têm educação ambiental. Mas é necessário educar os adultos, para reduzir as emissões de carbono. Não podemos esperar mais 30 anos! É necessário mudar o estilo de vida, valorizar os direitos laborais, produzir e consumir produtos amigos do ambiente.
Finança ética
Pergunte ao seu banco onde aplica o dinheiro que lá deposita. Pode estar a ser aplicado na indústria do armamento (mas talvez o bancário não saiba a resposta). Devia exigir transparência do seu banco e que ele colocasse o seu dinheiro onde estão as suas preocupações éticas.
Dinheiro recusado
A Oikos rejeitou dinheiro de algumas indústrias e do Parlamento português. Não é fácil, porque os recursos são escassos, mas o risco de aceitar seria maior. A Oikos exige que as empresas e organizações que contribuem se envolvam igualmente de outras formas. Voluntariado, por exemplo.
Para saber mais
sobre o Banco Alimentar:
www.bancoalimentar.pt
Para saber mais
sobre a Oikos:
www.oikos.pt
