Super-remunerações

Questões Sociais Ciclicamente, fala-se das super-remunerações dos titulares de órgãos de admnistração de grandes empresas, tanto do sector privado como do público. A Comissão Nacional de Valores Imobiliários difundiu, no início de Maio, um estudo bastante oportuno a este propósito.

De acordo com as notícias publicadas, tais remunerações, relativas a 48 empresas cotadas na Bolsa de Lisboa, duplicaram nos últimos cinco anos. Os respectivos montantes, por mês e por administrador, atingiam as dezenas de milhar de euros. E, como é natural, registavam-se acentuadas desigualdades entre empresas, e dentro de cada uma delas; no sector financeiro, os valores remuneratórios eram, em geral, bastante superiores.

Quais as razões explicativas deste fenómeno, que parece inevitável e irreversível, à escala nacional e internacional? – Cinco grupos de factores (reais ou supostos) podem ajudar a explicá-lo. São eles: a competência; a responsabilidade; as relações pessoais; a imitação; e a suposta irrelevância destas remunerações nas despesas globais das empresas.

A competência inclui aspectos técnicos e de gestão em geral e, em particular, as capacidade de decisão correcta e de congregação de esforços. A responsabilidade tem a ver com os montantes e a relevância estratégica dos negócios, das actividades e dos bens em causa. As relações pessoais e a respectiva influência, junto de entidades públicas ou privadas, constitui uma espécie de «activo», inerente a muitos administradores, que pode beneficiar consideravelmente as actividades empresariais. A imitação, associada à emulação, é uma prática frequente neste domínio, tal como em toda a sociedade; trata-se da reprodução dos «exemplos» nacionais e estrangeiros de altas remunerações. A suposta irrevelância das super-remunerações, nas despesas globais das empresas, traduz-se no facto de um aumento milionário da alta direcção empresarial, bem como dos altos quadros técnicos e científicos, ascender a montantes financeiros muito inferiores a um pequeno aumento da generalidade dos trabalhadores. Tanto mais inferior quanto maior for o número de trabalhadores.

Os factores acabados de referir tornam justas as super-remunerações? – Abordaremos o tema em próximo artigo. Deve salientar-se, entretanto, que muitos gestores, proprietários ou não, de grandes empresas (tal como noutros casos) auferem remunerações relativamente modestas, dando até um edificante exemplo de austeridade e de respeito da igual dignidade de todas as pessoas.