A imagem é dramática, talvez trágica! Mas é aquela que se me apresenta como a mais realista, para falar daquilo que sentimos muitos de nós portugueses.
Como os mineiros mexicanos, estamos no fundo de um poço. Escasseia já o próprio ar para respirar, são racionados os alimentos… E não sabemos quando vai ser possível libertarmo-nos deste pesadelo! Pior que isso: Não temos a certeza de que, em pleno ar livre e com a comida à mão, esteja alguém interessado em libertar-nos. Ou se, ao contrário, não estaremos definitivamente reféns dos caprichos de quem joga com a nossa vida.
Imaginemos que, nestas circunstâncias dramáticas, o contacto com o exterior permite irem saindo alguns e alimentar os que vão ficando. Que diríamos nós se os mais fortes, mais vigorosos, se impusessem na prioridade de saída, deixando para trás os cada vez mais debilitados, se os alimentos chegados fossem consumidos pelos mais nutridos, lançando na agonia da fome aqueles que tinham menos esperança de vida?…
A austeridade é um modo de vida saudável e necessário para a boa convivência social. Creio mesmo que é imperiosa a conversão a esse estilo de vida, que aposta no fundamental, considerando, cada vez mais, o supérfluo como o grave pecado pessoal e social.
Mas, admirando embora a coragem dos decisores que parecem querer levar-nos ao bom caminho, não nos podemos dispensar de clamar: Não se enganem, senhores governantes, massacrando a multidão daqueles que estão no limite, para manter no fausto e na escandalosa abundância as mordomias políticas, ideológicas, de interesses financeiros.
A “revolta dos escravos” é sempre possível! Temos a consciência de que a equidade e a justiça se podem alcançar por meios pacíficos, sejam eles proactivos sejam eles reativos. Só que a paciência das multidões também se esgota, a capacidade de resistência tem o seu termo, nem tudo o que é carência é fruto de desleixo ou preguiça. Há muito trabalho honesto que não consegue responder às exigências mínimas de uma vida digna, por causa desse massacre de medidas de austeridade que não têm gerado equidade.
É urgente alterar os caminhos dessa austeridade. Eduquem para a sobriedade aqueles que continuam alheios ao grito e aflição dos pobres, acumulando lucros incontroláveis. Cortem onde há abundância para cortar. Não continuem a descarnar aqueles que já não conseguem manter-se de pé!
