Perguntas e Respostas sobre a Bíblia – 1 A pergunta tem muita razão de ser. Na verdade, se Deus é bom, como pode permitir ou até incentivar as crueldades narradas pela Bíblia, sobretudo ações de guerra?
Para entender isto, é necessário ter em conta alguns aspetos. Algumas vezes a Bíblia descreve simplesmente o que aconteceu, exprimindo a reprovação do autor ou com palavras explícitas ou pelo contexto. Em tais casos não há dificuldade contra a inerrância da Bíblia em questões morais. Cf. por exemplo a narração da morte da concubina do levita em Gabaa (Jz 19,22-30).
A dificuldade existe sobretudo quando na descrição de cruéis métodos de guerra se atribui a Deus o impulso ou a ordem. Assim, por exemplo, a destruição total de Jericó é apresentada como um holocausto a Deus. Acan, que tinha reservado qualquer coisa para si, foi morto à pedrada. O mesmo anátema (em hebraico, “herem”) que comportava a destruição total de todo o ser vivo é aplicado à cidade de Ai, a Maqueda, a Libna, que foi passada a fio de espada com tudo o que nela havia, sem deixar escapar ninguém, etc. É preciso, porém, afastar uma falsa impressão que se poderia tirar destes textos, isto é, a ideia que todos os cananeus foram assim destruídos. Pelos livros seguintes (Juízes, etc.) vê-se que na Palestina permaneceram centros cananeus até data muito tardia e que tiveram notável influência sobre o povo de Israel. Todavia, permanece o facto de pelo menos em alguns casos a Bíblia parece fazer recair sobre Deus a responsabilidade do interdito.
A dificuldade não diminui pelo facto de a história dos povos vizinhos de Israel conhecer exemplos ainda mais graves de crueldades cometidas por ocasião de guerras, referidas a uma ordem dos deuses do povo vencedor. Na estela de Mesha, rei de Moab (séc. IX a.C.), o rei vangloria-se de ter morto o povo da cidade de Ataroth e apresenta isso como “espetáculo agradável” ao deus Kamosh. Na mesma estela, Mesha diz ter morto todos os sete mil habitantes de Nebo, porque tinha votado a cidade a Kamosh. Este facto induz-nos a considerar o fenómeno também no seu aspeto religioso e a ver a possibilidade duma ulterior solução.
A ideia religiosa que inspirava o interdito era, na linha de princípio, exata. O dever de fidelidade a Yahweh e à sua aliança exigiam da parte de Israel a abstenção de todo o culto idolátrico, a eliminação de todo o contacto perigoso com os pagãos. Tal exigência traduzia-se, na situação do tempo, numa necessidade de aplicar um direito de guerra, de per si ilícito, mas considerado legítimo na mentalidade da época.
É importante recordar sobretudo que a revelação de Deus a Israel foi progressiva e que Deus não manifestou senão a pouco e pouco ao seu povo todas as consequências derivadas duma conceção universalista da aliança, educando-o lentamente para o preparar para a revelação evangélica.
Outra forma de perceber é analisar os nossos pensamentos atuais em relação a tantas situações ou pessoas más deste mundo. Deus devia intervir, ou seja, eliminar, dar cabo de todas as pessoas más. Este pensamento «piedoso» não está nada longe da mentalidade do Antigo Testamento que achamos condenável.
J. Franclim Pacheco
Espaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro
