À Luz da Palavra – XXXI Domingo Comum – Ano C A liturgia deste domingo convida-nos a contemplar o amor de Deus. Apresenta-nos um Deus que ama a todos, sem excluir ninguém, nem sequer os pecadores, os maus, os marginais, os “impuros”. Revela-nos que só o amor é capaz de transformar. O Senhor de todos se compadece, porque é omnipotente no amor e não olha para os nossos pecados, até que deles nos arrependamos.
A primeira leitura apresenta-nos a imagem de um Deus condescendente, cheio de bondade e misericórdia, que não quer a morte do pecador, mas a sua conversão. É esta a imagem de Deus que nós conhecemos e amamos? Já a interiorizámos? Interiorizar esta imagem de Deus significa impregnar-nos da lógica do amor e da misericórdia e deixar que ela transpareça em gestos concretos para com os nossos irmãos e irmãs. Ás vezes, pensamos que certos males que nos incomodam são castigos de Deus pelo nosso mau proceder. No entanto, este texto deixa claro que Deus não está interessado em nos castigar, mas procura fazer-nos perceber, com a pedagogia de um pai/mãe cheio de amor, a falta de sentido de algumas opções que fazemos.
O evangelho apresenta a história de um homem pecador, marginalizado e desprezado pelos seus concidadãos, que se encontrou com Jesus e descobriu nele o rosto do Deus que ama. Jesus convidou-o a sentar-se à mesa com Ele. Aí, esse homem, egoísta e pecador, deixou-se transformar pelo amor de Deus e tornou-se um homem generoso, capaz de partilhar os seus bens e de se compadecer com a sorte dos pobres. “Hoje entrou a salvação nesta casa”, disse Jesus a Zaqueu, depois deste lhe ter manifestado sentimentos e propósitos de uma verdadeira conversão. É bem claro que este “hoje” acontece no tempo e na história de cada um e do povo. Mas ele não se refere apenas a uma temporalidade cronológica, pois está para além e para aquém da história. É a temporalidade humana, onde Deus actua. Em linguagem teológica, chamamos-lhe “kairós”, palavra grega que significa o tempo de Deus, o tempo da salvação, o “aqui e agora”, o “hoje” de cada pessoa que acolhe esse tempo no seu coração. Como acolhemos e tratamos os que têm comportamentos socialmente inaceitáveis? Percebemos que Deus tem um “tempo” certo para salvar essas pessoas e que nós podemos ser ou não veículo dessa salvação?
Na segunda leitura, Paulo exorta-nos a que permaneçamos dignos deste amor criador de Deus, deste chamamento que Ele faz à salvação, pelo conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para tanto, é necessário ter bons propósitos e trabalhar na fé. Fazê-la crescer e desenvolver pelo estudo, oração e perseverança nas boas obras. O cristão e a cristã, assim fortificados, não temem os anúncios proféticos falsos de um fim de mundo iminente, de uma catástrofe mundial, como se fossem as pessoas deste mundo que comandassem a história. A palavra de hoje apela-nos à confiança e segurança em Deus, que é poderoso no amor e ama a obra das suas mãos. Tenho consciência de que a salvação não é uma conquista minha, mas um dom de Deus?
XXXI Domingo Comum: Sab 11,22-12,3; Sl 145 (144); 2 Ts 1,11-2,1; Lc 19,1-10
Deolinda Serralheiro
