JOÃO GAMBOA
1. “A Igreja não existe para si mesma, não é o ponto de chegada, mas deve apontar para além de si, para o alto, acima de nós”. Isto disse o Papa Bento XVI na homilia da Missa de 18 de fevereiro de 2012, em que nomeou novos cardeais, entre eles o português D. Manuel Monteiro de Castro.
Também a música na celebração litúrgica é serva – serva da Palavra, serva da Liturgia, serva da Assembleia, serva da Igreja. E como o fim da Liturgia é o louvor de Deus e a santificação dos fiéis, a música litúrgica é o meio mais adequado e perfeito, é o meio mais eficaz para a assembleia celebrante bendizer o seu Deus e Senhor, e, na medida em que o faz, alcançar a sua santificação e salvação.
O canto litúrgico, portanto, não é ponto de chegada e não existe para si mesmo; a sua função é ministerial, é de serviço à oração da Igreja, à expressão e vivência da fé do Povo de Deus. A sua vocação é exprimir e dar forma à atitude interior de cada crente e de toda a assembleia, no sentido de expressar a Deus a adoração, a conversão, a fé, o louvor, a ação de graças, a súplica, a meditação, a comunhão…
O mesmo acontece com os ministros do canto: o coro, o organista, o salmista, os cantores, o diretor do canto. Apagando-se e abstraindo totalmente de si, mas cantando, tocando e dirigindo com arte e com alma, eles estão a servir, a despertar, a apoiar e a guiar a assembleia no seu louvor a Deus, na sua festa da fé, na sua festa de Jesus Cristo.
É grande e bela, é santa, portanto, a função de cantar na Liturgia. Por isso o diretor do coro escolhe, com outros, e prepara os cânticos antecipadamente e ensaia o coro com entusiasmo e competência. Por isso os cantores são assíduos e pontuais, no ensaio e na celebração, e assumem e vivem o ministério do canto com fé e com alegria, sabendo que este trabalho é indispensável e é sagrado. Por isso todos cuidam da sua formação bíblica, espiritual e técnica, para que o seu desempenho seja mais consciente e consistente, para que seja mais seguro.
A música na Liturgia não é um fim em si mesma; bem escolhida e bem executada, ela eleva e leva o coração de todos até Deus, num louvor e ação de graças que salvam.
E tudo isto acontecerá tanto mais quanto o cantor for um homem e uma mulher de fé, de fé incarnada e autêntica, a fé da Igreja; quanto a sua atitude religiosa for de constante busca de Deus, com seriedade e humildade. Então o canto é oração e expressão de fé. Então o cantor canta com o coração cheio de Deus; e canta bem, não só com a voz, mas também e sobretudo com o coração, pois é o coração que confere valor ao louvor que brota dos lábios, e só partindo do coração o canto poderá subir até Deus, como digna expressão do culto que Lhe é devido (Paulo VI).
Se os cantores estiverem cheios de Deus e o coro cantar assim, a assembleia só beneficia e entra também, naturalmente, nessa grande atitude de oração e de louvor em festa ao Senhor. De facto, “nada mais festivo e mais desejável nas ações sagradas do que uma assembleia, que, toda inteira, expressa a sua fé e a sua piedade por meio do canto” (MS, 19).
2. É extraordinária a influência do bom canto sacro e litúrgico na alma daqueles que o escutam e sentem. Só dois exemplos.
O primeiro é o de Santo Agostinho, que viveu entre o ano 354 e 430, e foi bispo. No processo da sua conversão (ele fora um grande dissoluto na juventude), reconhece a boa influência do canto sagrado. Diz ele, nas suas Confissões: “Quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos da Vossa Igreja – está a dirigir-se a Deus – nos primórdios da minha conversão à fé (…), reconheço de novo a grande utilidade deste costume” – o costume de cantar na ação litúrgica. Salienta, porém, que para isso é preciso que os cânticos sejam “entoados com suavidade e arte”, “com voz límpida e modulação apropriada”. Confessa ainda: “Quando oiço cantar (…) as santas palavras com mais piedade e ardor, sinto que o meu espírito também vibra com devoção mais religiosa e ardente do que se fossem cantadas de outro modo”.
O outro testemunho é de Paul Claudel, dramaturgo, poeta e diplomata francês, que morreu em 1955. Na noite de Natal de 1886, com 18 anos, entrou na Basílica de Notre Dame, em Paris, não por motivos de fé mas para procurar argumentos contra os cristãos. Era a Missa da Noite de Natal. E, ao ouvir cantar o Magnificat, sofreu “un soulèvement de tout son être”, uma iluminação divina semelhante à que fulminou Paulo de Tarso no caminho de Damasco. Deus atuou no seu coração e, pela graça, conduziu-o à conversão. A partir de então, dedicou toda a sua vida e sobretudo a sua obra literária à maior glória de Deus. E Deus está presente nela, de uma maneira ou de outra.
Já não dão o mesmo testemunho dois escritores dos nossos dias. A brasileira Adélia Prado comenta que, em algumas celebrações, sai-se da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar. Diz ela: “O canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilitam a oração, mas impedem o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa”. E o portuense Mário Cláudio, por seu lado (Correio do Vouga, n.º 4014, 22 de fevereiro de 2012, p. 3), diz que “Nos tempos recentes, entrou a música de péssima qualidade na Igreja Católica, que era a Igreja da grande música europeia. Consequência do Vaticano II? Dizem-me que não. Há, é certo, uma tentação do facilitismo, do feio, do grotesco. (…) Se é para chamar os jovens, estes jovens não prestam para nada. (Eu acrescentaria: e quem os entretém e engana assim ainda presta para menos!). Prefiro uma celebração sem música a ter que sofrer aquela tortura”. E remata: “Se eu fosse mais novo, pela música e pelos textos, convertia-me aos ortodoxos”.
