Liliana Segre

Poço de Jacob – 101 Uma vida é como um livro único, escrito pela sábia, amorosa, providente e delicada mão de Deus. Claro que com a nossa colaboração. Todas as vidas, se quisermos, para Deus, são como os contos de fadas. Terminam sempre assim: Foram felizes para sempre! Pode aparecer a bruxa má, o veneno que mata, a doença, a velhice, o erro, o pecado, a desilusão… Cada vida é tecida dessa matéria, também de atos heróicos de amor, fidelidade, fé, dor, generosidade. Ora repleta de alegria, ora de tristeza. Ora de sorrisos, ora de lágrimas, ora de vida, ora de morte. Nisso, o livro de Coelet ou Eclesiastes é uma joia de sabedoria e de deliciosas palavras.

Cada pessoa poderia escrever o livro da sua vida. Ou alguém poderia escrever sobre nós depois que partirmos. Todas são admiráveis, ainda que marcadas pelo ódio. Só Deus sabe o que se passa no coração dos homens.

Quando presido a um funeral, vejo ali, naquele corpo morto, uma história admirável que teve o seu ponto final. Às vezes conseguimos sublinhar um capítulo para edificação da comunidade. Outras vezes, sem nada para contar, deixamos tudo na leitura de Deus. Também se dizia de santa Teresinha que não havia nada para contar dela e, no entanto, em cada ano que passa, são publicados livros sobre ela, de modo inesgotável. “História de uma alma” é dos livros mais lidos no mundo…

Há folhas que só Deus pode ler. Há capítulos que poderiam não estar no guião original, mas o uso da nossa liberdade, bem ou mal, deu-lhes a orientação e o sentido que Deus ousou. Ele escreve direito por linhas tortas.

“A minha vida dava um romance”. Ouço isso várias vezes por ano. É verdade. A vida de cada um de nós dava um romance, porque é uma história de amor. Uma delas é a de Liliana Segre. O livro está por aí à venda. Delicioso, na dor.

Sobrevivente de Auschwitz, viveu lá precisamente no último ano da guerra. Ali perdeu o seu pai. A sua mãe já tinha falecido antes da guerra. Tinha só 13 anos quando foi deportada desde Milão. Judia, mas sem fé ainda hoje, como ela diz. Conta-nos a experiencia da prisão, o horror da viagem de seis dias num vagão de gado, sem comer nem beber, a chegada, a seleção repetida várias vezes para ver quem morria ou quem ficava mais uns dias vivo, a fome, o mau cheiro, o egoísmo para sobreviver, a generosidade quando possível, o desfile interminável de pessoas para serem gazeadas, os insultos, as reações dos guardas, o trabalho na fábrica e a única refeição diária, o desprezo da população, a libertação do campo e a caminhada da morte, o estar livre e ninguém acreditar nela, o bicho raro em que se transformou no pós-guerra… Enfim, uma vida que, saboreada, nos leva a dar graças a Deus pela que temos. E nós que nos queixamos tanto!

Mas, entre muitas coisas que ela ainda hoje conta por todo o mundo, numa humildade imensa, na alegria de ter a sua família constituída, há um momento da sua vida que comove profundamente, também revolta e nos obriga a pensar no que faríamos naquele momento: Ao fugir do campo, vê ao seu lado um guarda-chefe tenebroso e cruel do campo para onde lhe levou a caminhada da morte, na Alemanha, e repara que ele despe a sua farda porque quer ir ter com a sua família, pelo que deita fora tudo quanto o possa comprometer perante as tropas russas e americanas. Nesse entretanto, deixa cair a sua arma aos pés de Liliana. Ouçam: “Quando atirou a pistola aos meus pés, com todo o ódio que tinha dentro de mim, e a violência sofrida que me invadia o corpo, pensei: «No meio desta confusão, pego na pistola e mato este homem!» Seria a ação mais justa. Foi um instante importantíssimo na minha vida, que me fez compreender que, por motivo nenhum do mundo, eu poderia ter matado. Que na fraqueza extrema em que me encontrava, a minha ética e o amor recebido em criança, me impediam de me tornar igual a esse homem. Nunca poderia apanhar a pistola para o matar! Eu sempre, no campo, escolhi a vida. Quando se escolhe a vida, não se pode tirar a vida a ninguém. E desde aquele momento, passei a ser livre”. Sem mais palavras.

Vitor Espadilha