Painel
“Silêncio e Palavra: caminho da evangelização” – Mensagem do Papa para o Dia Mundial das Comunicaões Sociais José Tolentino Mendonça
Padre e poeta
Quando penso no contributo que a experiência religiosa pode dar num futuro próximo à cultura, ao tempo e ao modo da existência humana, penso que mais até do que a palavra será a partilha desse património imenso que é o silêncio. Já a bíblica narrativa de Babel ponha a nu os limites do impulso totalitário da palavra. Mesmo que construamos a palavra como uma torre, temos de aceitar que ela não só não toca cabalmente o mistério dos céus, como muitas vezes nos incapacita para a comunicação e a compreensão terrenas. Precisamos do auxílio de outra ciência, a do silêncio. Já Isaac de Nínive, lá pelos finais do século VII, ensinava: «A palavra é o órgão do mundo presente. O silêncio é o mistério do mundo que está a chegar».
Na diversidade das tradições religiosas e espirituais da humanidade, o silêncio é um traço de união extraordinariamente fecundo.
Alexandra Serôdio
Jornalista do “Jornal de Notícias”
Adepta da palavra e da escrita, há muito que descobri que são os silêncios que transmitem a verdadeira realidade das coisas e da vida. Decifrar esses silêncios e interpretar os gestos que os acompanham, tem sido um desafio constante para mim, jornalista, que faz da escrita o seu modo de vida. Aprendi com Maria a decifrar os silêncios… a deter-me em olhares, rostos e mãos… e “reinventar” uma forma diferente de escrever as histórias. E são as que mais gosto de escrever.
Detenho-me com frequência, perante uma multidão silenciosa que enche o recinto do santuário de Fátima, nos dias 12 e 13 de maio. Olho os rostos e os olhos e compreendo a emoção de se estar, ali, devido a variadíssimas razões pessoais, mas a principal é a procura de algo maior, que torne a vida mais fácil de viver. Traduzir estas emoções para o papel é sempre um desafio para quem, ano após ano, está no mesmo local e quase incompreensivelmente sente as mesmas emoções.
José António Santos
Secretário-geral da Agência Lusa
13 de maio de 1991, na Cova da Iria. O Papa João Paulo II tinha-se desparamentado. Um séquito reduzido preparava-se para o conduzir à Casa de Nossa Senhora do Carmo, onde os bispos portugueses o aguardavam para o almoço. Entre o “papamóvel” que os seus colaboradores lhe indicavam e o genuflexório aos pés da imagem de Nossa Senhora de Fátima, o Papa Wojtyla escolheu o genuflexório, onde se prostrou em longa contemplação silenciosa. (…) Um manto de sossego envolveu a Capelinha e demais espaço envolvente. (…) Ainda hoje sinto dificuldade em explicar aquele silêncio do Papa. Foi um momento mágico que tocou a sensibilidade do cristão, afagou o ego do repórter e lhe proporcionou esse apontamento suplementar de reportagem. Um apontamento que, na altura, associei à emoção de todos perante a vivência de momentos únicos de proximidade com o Papa e dos gestos imprevistos/proféticos. Mas, 21 anos depois, ao recordar aqui esses momentos, parece-me que, em meus ouvidos, ainda ressoa aquele silêncio através do qual o Papa João Paulo II tocantemente falou.
* Excertos de depoimentos do dossier da Agência Ecclesia sobre a mensagem papal
