O pensamento não é novo. Muitos o têm repetido insistentemente. A crise é o momento oportuno para procurarmos um novo paradigma de vida, para nos convertermos a hábitos de consumo mais sóbrios, para sacudirmos a praga social da subsidiodependência enveredando por um esforço de criatividade e autonomia…
E muitos o têm vindo a fazer. Com substanciais cortes nos seus proveitos mensais, equacionaram atividades complementares, racionalizaram consumos, ensaiaram prioridades, passaram a abster-se de supérfluos que lhes pareciam necessários. E, no meio de tanta austeridade imposta, reequilibraram a sua vida, sem sobressaltos de maior.
Paradoxalmente, muitos de nós resistimos a perceber que a vida não vai ser mais como até aqui, que o desenvolvimento sustentado e a vida digna nada têm a ver com luxos e desperdícios, muito menos com a permanente muleta do Estado a suportar a nossa negligência e mesmo preguiça.
Não se compreende, por exemplo, que os excessos das festas universitárias levem milhões, com reflexos nos custos da saúde, com inegável incómodo para quem precisa de descansar para trabalhar, enquanto estudantes abandonam as escolas por incapacidade de pagarem propinas ou se tornam “sem abrigo” porque não conseguem pagar o alojamento. Tais gastos anunciados dariam para sustentar a escolaridade obrigatória de milhares de alunos durante um ano, em cada ano!… Será que as Academias não poderiam tornar-se escolas de solidariedade, em vez de prosseguirem o rumo que levam?
É claro que os paradoxos mais graves não serão esses. Todos os dias os jornais noticiam o escândalo de reformas milionárias intocáveis, ao lado de mínimos indignos que continuam a ser penalizados para salvar o país (ou este estado de coisas?!). Fica-nos a impressão da existência de uma teia subtil, que amarra os movimentos do governo. E os privilégios continuam, as situações de exceção multiplicam-se, sobrando umas migalhas para atacar a fundo os problemas sociais graves, que acabam por não usufruir senão de péssimos cuidados paliativos.
Sempre foi difícil deitar mão aos poderosos, fazê-los descer dos seus pedestais e perceberem que, por muito sábios e importantes que sejam, são mortais como os demais. O poder económico de há muito, desde sempre, condicionou e dominou o poder político. Mas todos sabemos que os estômagos vazios, os sonhos frustrados, os futuros hipotecados podem gerar tsunamis sociais incontroláveis. Talvez valha a pena tomar a peito as palavras do poeta popular: “Vós, que lá do vosso império prometeis um mundo novo… Cuidado! Que pode o povo querer um mundo novo a sério!”
Temos condições para pensar serenamente e agir com firmeza, devolvendo às pessoas a sua dignidade. Mas é necessária, de facto, a firmeza. Alguns só aprendem mesmo com um murro na mesa!
