O sentido último das coisas é condição fundamental para as vivermos de forma convicta e libertadora. Também assim é com o jejum e a abstinência, a oração e o silêncio, a que são chamados os cristãos neste tempo de Quaresma.
Vamos percebendo que estamos em momento difícil. Muitos de nós reconhecemos que estamos viciados num estilo de vida acima das nossas possibilidades, cativos de hábitos consumistas. Mas o certo é que fazemos pouco treino efectivo de sobriedade, de austeridade. A renúncia a bens e satisfações, supérfluas ou mesmo legítimas, gera em nós espaços de libertação interior, predisposição para o sentido da comunidade.
Entretanto, embalados pela conveniente “cantilena socialmente revolucionária” de que não é a “caridadezinha” que resolve os problemas, não nos habituamos a privar-nos do que quer que seja, para treinarmos a solidariedade efectiva com os pobres, com as vítimas de injustiças – esse, sim, o sinal verdadeiro que denuncia de que lado estamos.
Sobriedade, renúncia e partilha, libertam o nosso coração para uma maior abertura a Deus, para um mais profundo conhecimento e reconhecimentos dos outros no rosto dos carenciados de qualquer bem fundamental que alimente o corpo e o espírito.
No turbilhão da vida em que vivemos, a urgência de momentos de paragem e reflexão, a importância de espaços de intimidade com o divino, tornam-se condições necessárias para nos encontrarmos a nós próprios, para descobrirmos o sentido do caminho que trilhamos e aferirmos se, em verdade, fazemos escolhas que nos realizem plenamente e que sejam atitudes na senda de uma felicidade solidária.
Oração e silêncio não são rituais inócuos, muito menos alienantes. São as pausas indispensáveis na partitura da vida, para que ela se torne melodiosa sinfonia do eu, do tu e dos nós, com Ele!
Longe de ser um convite a uma repetição do passado, sem incidência no presente e ignorante do futuro de esperança que temos de recriar, a Quaresma é a oportunidade de educarmos pensamentos, de mudarmos atitudes, de recriarmos linguagens de fraternidade, de alegria, de diálogo, de paz, que nos conferem um “rosto de gente salva”, transformador do clima social pessimista e depressivo que nos envolve.
“Convertei-vos e acreditai no Evangelho” – exclama Jesus Cristo. É o grito que nos desperta da letargia das rotinas, nos infunde o dinamismo da permanente novidade que é o Reino de Deus no coração das pessoas, no seio da famílias e das sociedades. “Eu vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer. Não o vedes?” – são as palavras de Isaías que nos projetam para uma Quaresma de renovação e esperança! Muito distintas de qualquer sentido sado-masoquista de uma “penitência” sem sentido!
