Teresa de Saldanha, uma mulher de “ambições maiores”

A Irmã Rita Maria Nicolau é superiora-geral das Dominicanas de Santa Catarina de Sena, congregação fundada por Teresa de Saldanha (1837-1916). No dia 23 de maio, pelas 21h, serão apresentados no Centro Universitário Fé e Cultura dois volumes de cartas da fundadora. A Irmã Rita Maria, que também preparou o processo para a canonização (em curso) de Teresa de Saldanha, fala-nos da fundadora, que tinha como objetivo “restituir Deus aos portugueses”, e da congregação, que tem comunidades, na Diocese de Aveiro, em Avanca e na Glória. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

Correio do Vouga – Na próxima quarta-feira, no Centro Universitário, serão lançados dois volumes das cartas de Teresa de Saldanha, o que quer dizer que escreveu muito…

Rita Maria Nicolau – Sim. Cada volume tem cerca de 360 páginas. O primeiro volume é de cartas escritas à família e aos amigos, à mãe, sobrinhos, à cunhada. Escreve a Maria Augusta Campos, ecónoma da associação protetora de meninas pobres, fala muito do problema vocacional, além de economia e da gestão da associação. Fala da vocação como dom, alegria, felicidade. O segundo volume é de cartas a eclesiásticos, aos papas, aos cardeais, bispos, núncios apostólicos, diretores espirituais, às irmãs da nossa congregação e a outras.

Quais as cartas que gostou mais de ler, as eclesiásticas ou as dirigidas à família e amigos?

Gosto de as ler todas. Já as li todas várias vezes, até porque preparei o processo de canonização dela. Ficámos com uma visão da vida dela e do seu tempo. Há cartas mais espirituais, mesmo místicas, aos diretores espirituais – padres Wiseman e Russell, dominicanos irlandeses. Temos um retrato muito vivo da espiritualidade do séc. XIX, mas também das suas férias, das festas, das passagens bíblicas que lê, do tempo para rezar…

Porquê editar esses livros, nos tempos de hoje, para o público em geral?

Estamos a celebrar os 175 anos do seu nascimento, em 1837. Achamos que é uma homenagem. Por outro lado, é um tesouro que está ali. Ela não fala só de questões espirituais, fala de política, da sociedade, da vida dos jovens. Há dados do séc. XIX que estão ali e que não estão noutros documentos. Ela fala da inauguração da iluminação de Lisboa, da inauguração da estátua de D. Pedro IV, do Teatro D. Maria II, do casamento do rei, das óperas a que ia, dos cantores e atrizes.

Era uma pessoa culta, de origens nobres, na alta sociedade?

Sim. Ela vivia no coração de Lisboa e dava-se conta de tudo. “Morreu a D. Maria II e o rei passou aqui muito triste com os infantes”, conta ela. A mãe dela fora dama da rainha. A cunhada também. O pai estava muito ligado à corte. Tudo perpassa nas suas cartas.

São muito interessantes, também, as que escreveu aos irmãos, que estudaram em Coimbra. Ela, porque era menina, foi educada em casa. Os irmãos iam de cavalo para Coimbra e só regressavam nas férias. Viviam numa casa com criado. Ela conta tudo aos irmãos, até os bailes que frequenta.

Além do interesse espiritual, há nestas cartas um interesse sociológico e cultural?

Considero que é um tesouro que está escondido. Há sempre pessoas de fora que gostam. Mas as irmãs da congregação têm de conhecer a madre fundadora por ela própria e não só pelos livros que estão publicados. Como não havia telemóveis, está tudo escrito nas cartas.

Organizou o processo de canonização de Teresa de Saldanha. Em que ponto está?

Está em Roma. Para a beatificação, estamos à espera de um milagre. Foi um processo muito longo. Ela tem muitos escritos. Tivemos de passar tudo a computador e traduzir muitas cartas, porque escreve muito em inglês, aos padres irlandeses, e em francês. Está tudo em Roma desde 2001. Eu fui vice-postuladora. O postulador era um padre dominicano de Roma, uma vez que temos um postulador único para as causas dos dominicanos.

O que considera verdadeiramente admirável na vida de Teresa de Saldanha?

O amor pela causa dos pobres. Ela tinha uma mãe muito boa que a iniciou nas obras de misericórdia. Teresa tinha tudo para ser feliz, segundo certos critérios. Tinha uma grande educação, pintava…

Ainda existem esses quadros?

Sim, alguns estão na família, outros estão no Museu da Madre Teresa (Lisboa). Temos originais e réplicas.

Continuando…

Ela era bonita, muito talentosa. Mas isso não preenchia o seu sonho de felicidade e por isso dizia: “Deus pôs no meu coração ambições maiores”. Tinha o desejo de ser toda de Deus e a sensibilidade aos problemas dos outros, num tempo em que dois terços da população feminina não sabia ler nem escrever. “Como posso ser feliz no meu palácio, se os outros vivem assim?”, interrogava-se. Conseguiu ultrapassar a barreira. A mãe ajudava-a, mas o pai opunha-se. Preferia que ela fosse a festas e tivesse um noivo rico.

Admiro muito a sua coragem, a ousadia evangélica. D. Manuel de Bastos Pina, que era Bispo de Coimbra (incluía a cidade de Aveiro), dizia que “devem muito a vossa excelência os ministros da religião, porque fez mais que eles pela evangelização do país”. Na altura, os bispos andavam algo temerosos. O de Coimbra era dos mais ousados.

Teresa de Saldanha não foi para a Irlanda. Queria ir, mas o pai não a deixou. Se fosse, seria um escândalo e deitaria tudo a perder. Na obra que funda, não é a primeira religiosa. Esse papel cabe a uma portuguesa e uma inglesa que foram para a Irlanda, para um convento de monjas contemplativas. Quando vieram, fundaram a primeira casa em Alfama (Lisboa).

Foi uma mulher de grande coragem, grande confiança, sem medo, sem tristezas. Nós hoje estamos num tempo de crise, mas o tempo dela foi muito pior do que nosso. Crise de valores, económica, política… Conseguiu superar com muita coragem e ânimo essas dificuldades. Dizia como Paulo e acrescentava: “Já não sou eu que vivo é Cristo que vive e age em mim. Isto é muito bom para me dar humildade porque no fundo a obra não é minha, eu sou apenas um instrumento de Deus”. Ela queria regenerar Portugal, “restituir Deus aos portugueses”. Não foi a única, nem podia fazer tudo, mas deu o seu contributo com a congregação e a associação protetora de meninas pobres.

Na origem, qual é o carisma da congregação?

Desde o início, dedicam-se à promoção das crianças através da educação. Teresa percebia que sem educação a sociedade não progride e considerava que educar a mulher era educar a família, visto que a mãe educa os filhos. Vivia muito preocupada com a educação e a evangelização. Recebia crianças que não sabiam ler nem tinham educação religiosa. O grande objetivo era a evangelização do país.

Hoje continua a ser o esse o objetivo da congregação?

Sim, a evangelização.

Onde estão presentes, em Portugal?

Estamos em Braga, Coimbra, Castro d’Aire, Guarda, Pinheiro da Bemposta, Avanca, Aveiro, Leiria, Fátima, Lisboa, com várias casas (sede em S. Domingos de Benfica, onde temos um lar de meninas com problemas sociais e uma creche, um lar nos Cardais para portadores de deficiência, Hospital da Parede, Colégio de S. José do Restelo, Colégio do Ramalhão de Sintra, comunidade nas Furnas, um bairro pobre), Estremoz e Portimão. Somos umas 380 religiosas no mundo.

Estão presentes noutros países?

Com a República, em 1910, as irmãs foram expulsas e foram para o Brasil, Bélgica, Espanha e Estados Unidos. As do Brasil continuaram ligadas a nós. As da Bélgica e Espanha voltaram. As dos EUA fundaram outra congregação. Estamos, então, no Brasil, Angola, Moçambique, Timor, Albânia e Paraguai.

Como todas as outras, a congregação sofreu com a implantação da República, em 1910…

Foi um período difícil conturbado. Perdeu todos os bens. A casa de Benfica estava em nome próprio, mas eles foram lá, viram as irmãs e ficaram com os bens.

Teresa de Saldanha sofreu mais por causa da ligação à monarquia ou por motivos religiosos?

Sofreu por ter fundado uma congregação e ser religiosa. Foi viver para um hotel e depois para uma casa, tendo morrido em 1916. Antes disso, desafiou o regime com uma casa na Gomes Freire e fundou um noviciado em Salamanca, para onde enviava as irmãs. Ainda em 1910, assumiu o Hospital da Parede, onde as irmãs estavam clandestinas, sem hábito, sem poderem rezar alto. E lá estão há mais de cem anos.

Há descendentes da família de Teresa de Saldanha? Qual a relação da congregação com eles?

Há descendentes, sim, os marqueses de Rio Maior e do Lavradio. Há sobrinhos. Temos boas relações com eles. Alguns deram testemunho no processo. Falam de Teresa como “a tia santa nasceu ali” (referindo-se à Anunciada, Portas de Santo Antão, perto do Coliseu de Lisboa). A família interessa-se. Dizem: “Se precisas de algo, pede à tia santa”.