No dia 9 de setembro foi inaugurada na Diocese de Karaganda, no Cazaquistão, a primeira catedral dedicada a Nossa Senhora de Fátima. O bispo auxiliar de Karaganda, D. Athanasius Schneider, explica nesta entrevista concedida à agência de notícias católica Zenit a importância da construção católica num país maioritariamente muçulmano e de pessoas “em busca de Deus”. À Rádio Renascença, D. Schneider agradeceu aos portugueses que “acolheram, conservaram e difundiram pelo mundo” a mensagem de Fátima.
Qual é o significado histórico e espiritual da construção desta catedral em Karaganda?
A primeira razão é esta: termos uma catedral num local mais digno e visível. Na verdade, a Diocese de Karaganda utilizava até aos dias de hoje um edifício que tinha sido construído ainda durante os tempos da perseguição, encontrando-se este edifício nos arredores da cidade, além de não se reconhecer exteriormente que é uma igreja.
Uma catedral situada num local mais central e construída num estilo de tradição inconfundivelmente católica, isto é, o estilo neogótico, vai ser um sinal silencioso mas poderoso, e um meio de evangelização, num mundo em que os católicos são cerca de 1 ou 2% da população, e em que a maioria da população é muçulmana, com uma minoria forte de ortodoxos. Quanto ao resto, uma parte considerável da população não pertence a qualquer religião, são pessoas em busca de Deus.
A arquitetura da catedral, e o mesmo se diga dos objetos no seu interior, tudo foi feito com o maior cuidado possível, para que expressem uma verdadeira beleza artística, e ao mesmo tempo a sacralidade e o sentido do sobrenatural. Tudo isto é adequado, tanto para incitar o sentimento religioso e da fé nos fiéis e em todos quantos a visitem, como para exprimir o ato de adoração da Santíssima Trindade. E, por conseguinte, tudo se torna assim adequado para vir facilitar a execução do primeiro mandamento, que é a finalidade última da criação: a adoração e glorificação de Deus.
Mas o significado histórico e espiritual tem ainda esta outra dimensão: a nova catedral é um lugar sagrado em memória das inúmeras vítimas do regime comunista, já que perto de Karaganda existia um dos maiores e mais terríveis campos de concentração – chamados Gulag –, no qual sofreram pessoas pertencentes a mais de 100 etnias diferentes. Assim, a nova catedral será ao mesmo tempo um santuário para orações de expiação pelos crimes do regime ateísta e comunista.
A beleza arquitetónica, as obras de arte, o órgão desta nova catedral são também um meio de promoção cultural.
Como foi acolhida esta iniciativa católica por parte das autoridades políticas da comunidade islâmica?
Foi acolhida com um sentimento de respeito para com a Igreja Católica. As autoridades civis e a população sentem-se honradas por poderem ter na sua cidade esta construção, de extraordinária beleza arquitetónica e de alto significado cultural. As autoridades civis consideram a nova catedral como um gesto da Igreja Católica em favor da promoção da cultura.
Temos uma pequena comunidade católica que se mostra capaz de construir uma catedral em terra de missão: poderemos dizer que se trata de um modelo capaz de instigar o renascimento da fé na velha Europa?
A pequena comunidade católica estava em condições de dar um contributo sobretudo espiritual para a construção. Já o maior contributo material veio dos nossos irmãos e irmãs da velha Europa. E isto é algo de muito belo, pois manifesta a solidariedade fraterna, manifesta um intercâmbio fraterno de dons, semelhante ao que acontecia nos primeiros tempos da Igreja, quando as comunidades mais ricas ajudavam as comunidades mais necessitadas.
A fé há de renascer também na velha Europa, quando, cada vez mais e em todas as coisas, o primeiro lugar for dado a Jesus, quando a vida de fé se tornar cada vez mais concreta, visível e mais “encarnada”.
Quais são os problemas que a comunidade católica enfrenta quotidianamente no Cazaquistão?
Os problemas quotidianos são a falta de sacerdotes, as enormes distâncias entre as comunidades paroquiais, a insuficiência dos meios materiais para as obras de construção de igrejas e para as obras sociais e educativas, a emigração dos jovens para o estrangeiro, além de alguns impedimentos de carácter burocrático.
Como são as relações com as outras confissões cristãs?
As relações com as outras confissões cristãs são boas. De quando em vez há encontros com bispos e sacerdotes da Igreja Russa Ortodoxa e com representantes das comunidades protestantes. Temos, por assim dizer, um ecumenismo de vida, em que as relações humanas são mais importantes do que as discussões teóricas e doutrinais. E há atividades comuns com os irmãos ortodoxos e protestantes no âmbito da defesa da vida.
A arte é seguramente um instrumento de evangelização eficaz, como nos recorda o Magistério, e o Santo Padre insta-nos e encoraja-nos para que a usemos. Pode contar-nos a sua experiência de promotor de obras, que tanta arte e tanta beleza quis na sua diocese como sinal do testemunho da fé católica?
A construção de uma nova catedral com uma estética verdadeiramente sacra e recheada com obras de arte é também uma proclamação daquele que é o primeiro dever da Igreja: dar a Deus, a Deus encarnado, o primeiro lugar, um lugar visível, pois Deus fez-se visível com a Encarnação e na Eucaristia; dar a Deus o primeiro lugar também no sentido de oferecer a beleza artística em sua honra, pois é Deus o autor de toda a beleza e merece receber em sua honra, da parte dos fiéis, obras verdadeiramente belas. (…)
Já visitaram a nova catedral muitas pessoas. Na maioria foram pessoas não católicas, e até mesmo não cristãs. Foram atraídas pela beleza e exprimiram de modo claro a sua admiração. Houve mesmo algumas mulheres não cristãs que até choraram de comoção à minha frente. Uma vez, durante meia hora, mostrei e expliquei a catedral a um jovem casal não cristão, com todos os pormenores da arte e das coisas sacras. Quando terminei e depois de sairmos da catedral, esta mulher não cristã disse-me: «Nesta meia hora purifiquei a minha ama. Posso vir cá outra vez sozinha? É que quero admirar no silêncio estas coisas belas?» Ao que eu respondi: «Certamente. Pode voltar todas as vezes que quiser.» Nessa meia hora, com a minha explicação de uma arte que é sacra e bela, consegui dar uma lição sobre a verdade da fé católica. A reação de quase todas as pessoas que até agora visitaram a catedral, e especialmente das pessoas não cristãs, foi espontânea e neste sentido: admiração, silêncio, abertura ao sobrenatural.
“Lugar de oração, de memória
e de expiação”
Em entrevista à Renascença, o bispo do Cazaquistão afirmou que “construir uma catedral em honra da nossa senhora de Fátima num sítio que era dominado pelo regime ateísta-comunista e ainda mais num lugar como Karaganda – capital da rede de campos de concentração-, tem um grande significado espiritual para a Igreja desta região”. “Espero que também seja um lugar de oração, de memória e de expiação por estes crimes que foram feitos contra Deus”, disse.
D. Athanasius Schneider, através da jornalista Aura Miguel, que acompanhou a inauguração no Cazaquistão, dirigiu uma mensagem a Portugal: “Quero agradecer aos portugueses que acolheram, conservaram e difundiram pelo mundo [a mensagem de Fátima]. Mas, também, incentivar os portugueses a cultivarem esta devoção a Nossa Senhora de Fátima e a fé católica”.
