Já vimos como o Concílio nos trouxe reflexão teológica e orientação para que se possa perceber o sentido da hierarquia na Igreja. Sempre um ministério de serviço ao Povo de Deus, fora de categorias de poder ou de grandeza, social ou humana. O que então se disse no capítulo III da Constituição sobre a Igreja é agora concretizado no decreto sobre o “Munus Pastoral dos Bispos”. O tema toca a todos os cristãos, que têm, ao seu serviço, o bispo que preside, em nome do Senhor e a seu exemplo, à porção do Povo de Deus que foi lhe confiada, a sua diocese.
O decreto, depois de sublinhar a ligação profunda do bispo a Jesus Cristo, o Senhor comprometido, por inteiro, na sua Obra do Pai, como Mestre da fé, Pontífice e Pastor, não o deixa encerrado na sua Igreja particular, mas, como membro do Colégio Apostólico, presidido pelo Papa, projeta-o, desde logo, para a solicitude com todas as Igrejas do mundo. O bispo é chamado para servir toda a Igreja, servindo, no dia a dia, a sua diocese e fazendo-a abrir, sempre mais, à comunhão corresponsável com a Igreja Universal. Não se trata de uma mera comunhão afetiva, mas efetiva e consequente. Os cristãos sentir-se-ão, assim, mais envolvidos nas alegrias e preocupações do seu bispo.
Há causas permanentes, que movem o bispo com a sua diocese, à partilha de pessoas e de bens, mormente no campo da evangelização, das situações dolorosas provocadas por causas naturais, das perseguições frequentes na história da Igreja. Com tal responsabilidade do bispo, uma diocese que se fecha sobre si própria não é Igreja de Jesus Cristo. Uma paróquia, com muros tão altos que a impedem de comunicar e de partilhar e se fecha sobre os seus projetos, é uma comunidade sem qualquer dimensão evangélica e eclesial. Espiritual e pastoralmente, dioceses e paróquias não abertas à Igreja Universal e aos seus problemas são corpos mortos, mesmo que promovam grandes e vistosas iniciativas no seu seio.
Em comunhão com o Papa, cada bispo integra o Colégio Apostólico e serve toda a Igreja, de modo visível e solene, num Concílio Ecuménico. Um concílio é o encontro do Papa com todos os bispos do mundo, a fim de se tomarem decisões para toda a Igreja, elaboradas em comunhão apostólica e sempre a partir da unidade da fé.
Paulo VI, logo a seguir ao Vaticano II, constituiu os Sínodos dos Bispos, com bispos delegados das Conferências Episcopais. Aí se realiza com o Papa, uma missão de serviço à Igreja Universal. Estes Sínodos nunca mais deixaram de se reunir. De cada um sai depois, sob a autoridade do Papa, uma exortação apostólica, documento de grande valor pastoral, que não envelhece nunca. Assim acontece com a exortação sobre a “Evangelização no mundo contemporâneo”, EN (1975), que vai continuar a ser luzeiro no trabalho pastoral requerido pelo Ano da Fé, no propósito da Nova Evangelização.
Os bispos, como sucessores dos Apóstolos, têm, nas suas dioceses, o “poder ordinário, próprio e imediato” em tudo o necessário para orientar o Povo de Deus, respeitando os poucos casos que o Papa reservou a si próprio, mas podendo dispensar de leis da Igreja universal, sempre que assim o exija o maior bem espiritual dos cristãos da sua diocese.
Os serviços da Cúria Romana, apoio normal do Papa, não podem perder, nem esquecer esta dimensão de universalidade, considerando-se serviços às Igrejas diocesanas, presididas por membros do Colégio Apostólico. A Igreja está onde estão os cristãos com o seu bispo. Estes não são servidores do Papa, mas de Cristo, em comunhão com o Papa. Os bispos não têm os cardeais da Cúria como seus superiores, mas como seus irmãos, e, nos campos de ação que lhes foram cometidos, como servidores da Igreja universal e de cada Igreja particular, em ordem à construção do Reino de Deus.
Esta parte do decreto termina com uma recomendação só possível depois do Concílio: “A Cúria Romana ouça com frequência os leigos que se distinguem pela sua virtude, ciência e experiência, para que também eles tenham a participação que compete nas coisas da Igreja”. É mais extenso e de grande interesse o que o decreto reserva para os bispos, na relação com as suas dioceses. Isso o veremos em artigos seguintes.
