Audiência-geral: «Deus luta por nós, não contra nós»

Francisco afirma que o Deus Cristão “não é igual aos deuses da antiguidade,” mas” um Pai que nos acompanha” em todos os momentos da vida” e que é capaz de estar connosco “e tomar sobre si a nossa cruz”.

Leia na íntegra a catequese do Papa Francisco sobre o «Pai-Nosso»

Catequese sobre o “Pai Nosso”: 14. «Não nos deixeis cair em tentação»

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Continuamos hoje as catequeses sobre o “Pai Nosso”, e chegamos à penúltima invocação: «Não nos abandones à tentação» (Mt 6, 13). Uma outra versão diz: “Não nos deixes cair em tentação”. O “Pai Nosso” começa de maneira serena: faz-nos desejar que o grande projeto de Deus possa ser realizado entre nós. Depois lança um olhar sobre a vida, e faz-nos pedir sobre aquilo que precisamos todos os dias: o “pão de cada dia”. A oração volta-se então para as nossas relações interpessoais, muitas vezes poluídas pelo egoísmo: pedimos perdão e comprometemo-nos a dá-lo. Mas é com esta penúltima invocação que o nosso diálogo com o Pai celeste entra, por assim dizer, no âmago do drama, isto é, no terreno do confronto entre a nossa liberdade e as armadilhas do maligno.

Como é bem sabido, a expressão grega original contida nos Evangelhos é difícil de ser traduzida com exatidão, e todas as traduções modernas ficam um pouco ‘coxas’. Num elemento, no entanto, podemos unanimemente convergir: por mais diferente que se compreenda o texto devemos sempre excluir que é Deus o protagonista das tentações que pairam sobre o caminho do homem. Como se Deus estivesse à espreita para colocar armadilhas e insidias aos seus filhos. Uma interpretação deste tipo contrasta, acima de tudo, com o próprio texto, e está longe da imagem de Deus que Jesus nos revelou. Não nos esqueçamos: o “Pai Nosso” começa com “Pai”. E um pai não cria armadilhas para os seus filhos. Os cristãos não têm nada a ver com um Deus invejoso, em competição com o homem, ou que gosta de colocá-lo à prova. Estas são as imagens de muitas divindades pagãs. Lemos na Carta de Tiago, o Apóstolo: «Ninguém, quando tentado, deverá dizer: “Eu sou tentado por Deus”; porque Deus não pode ser tentado ao mal e ele não tenta ninguém» (1,13). É ao contrário: o Pai não é o autor do mal, nenhum filho que pede um peixe se lhe dá uma cobra (cf. Lc 11,11) – como Jesus ensina – e quando o mal aparece na vida do homem, ele luta a seu lado, para que ele possa ser libertado. Um Deus que luta sempre por nós, não contra nós. Ele é o pai! É neste sentido que rezamos o “Pai Nosso”.

Estes dois momentos – o julgamento e a tentação – estão misteriosamente presentes na vida do próprio Jesus. Nesta experiência, o Filho de Deus fez-se completamente nosso irmão, de uma maneira que quase toca o escândalo. E são precisamente estas passagens do Evangelho que nos mostram que as mais difíceis invocações do “Pai Nosso”, aquelas que fecham o texto, já foram respondidas: Deus não nos deixou sozinhos, mas em Jesus ele manifesta-se como o “Deus-connosco” até às consequências mais extremas. Ele está connosco quando nos dá a vida, está connosco durante a vida, está connosco na alegria, está connosco nas provações, está connosco na tristeza, está connosco nas derrotas, quando pecamos, mas sempre está connosco, porque ele é um pai e não pode abandonar-nos.

Se somos tentados a fazer o mal, negando a fraternidade com os outros e desejando poder absoluto sobre tudo e todos, Jesus já lutou contra esta tentação por nós: atestam-no as primeiras páginas dos evangelhos. Imediatamente depois de receber o batismo de João, no meio da multidão de pecadores, Jesus retira-se para o deserto e é tentado por Satanás. Assim começa a vida pública de Jesus, com a tentação que vem de Satanás. Satanás estava presente. Muitas pessoas dizem: “Mas porquê falar sobre o diabo se é uma coisa antiga? O diabo não existe”. Mas vejamos o que o Evangelho nos ensina: Jesus confrontou o diabo, ele foi tentado por Satanás. Mas Jesus rejeita todas as tentações e sai vitorioso. O Evangelho de Mateus tem uma nota interessante que encerra o duelo entre Jesus e o Inimigo: «Então o diabo deixou-o, e eis que os anjos vieram ter com ele e serviram-no» (4,11).

Mas mesmo no tempo do julgamento supremo, Deus não nos deixa sós. Quando Jesus se retira para rezar no Getsémani, o seu coração é invadido por uma angústia indescritível – diz ele a seus discípulos – e experimenta solidão e o abandono. Sozinho, com a responsabilidade de todos os pecados do mundo nos seus ombros; sozinho, com uma angústia indescritível. A prova é tão lacerante que acontece algo inesperado. Jesus nunca pede amor para si mesmo, mas, naquela noite, sente a alma triste até à morte e pede a proximidade dos seus amigos: «Ficai aqui e vigiai comigo» (Mt 26, 38). Como sabemos, os discípulos, oprimidos por um entorpecimento causado pelo medo, adormeceram. No tempo da agonia, Deus pede ao homem que não o abandone, e o homem dorme. No tempo em que o homem conhece a sua provação, Deus ao invés disso vigia. Nos piores momentos das nossas vidas, nos momentos de maior sofrimento, nos momentos mais angustiantes, Deus vela connosco, Deus luta connosco, está sempre perto de nós. Porquê? Porque ele é pai. É deste modo que começamos a oração: “Pai Nosso”. E um pai não abandona os seus filhos. Aquela noite de dor de Jesus, de luta, é o último sinal da Encarnação: Deus desce para nos encontrar nos nossos abismos e nos trabalhos que marcam a história.

É Ele o nosso conforto na hora da provação: saber que aquele vale, desde que Jesus o atravessou, não está mais desolado, mas é abençoado pela presença do Filho de Deus, Ele nunca nos abandonará!

Por isso, retira de nós, ó Deus, o tempo de provação e tentação. Mas quando chegar a nós este tempo, Pai nosso, mostra-nos que não estamos sozinhos. Tu és Pai. Mostra-nos que Cristo já tomou sobre si o peso daquela cruz. Mostra-nos que Jesus nos chama para carregá-la com ele, abandonando-se confiadamente ao teu amor de Pai. Obrigado.

Tradução Educris a partir do original em italiano

Educris|01.05.2019

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