
Responsável maltês afirmou hoje que a fé deve ser transmitida “do coração para o coração”, e não através de doutrinas abstratas
O padre Carl-Mario Sultana, da Arquidiocese de Malta e presidente da Equipa Europeia de Catequese, defendeu este sábado, em Fátima, que a Igreja precisa de “mudar de paradigma” na evangelização e na catequese, aproximando-as mais da experiência concreta das pessoas.
“Não estamos apenas numa época de mudanças, mas numa mudança de época”, afirmou, citando o Papa Francisco, ao intervir nas Jornadas Nacionais de Catequistas 2025, que decorrem até este domingo.
O encontro, que reúne 1100 catequistas das 20 dioceses portuguesas, decorre sob o tema «CREDO: A fé celebrada e testemunhada».
Na conferência intitulada «CREDO: A fé em cada encruzilhada», o sacerdote de Malta afirmou que “a fé não pode ser reduzida a fórmulas ou doutrinas”, devendo antes ser “vivida e testemunhada nas escolhas quotidianas”.
“A catequese de hoje deve falar ao coração das pessoas, não apenas à mente”, sublinhou.
Aos participantes o sacerdote explicou que o conceito teológico de fé possui duas dimensões inseparáveis: o conteúdo da fé (fides quae) e a forma pessoal de acreditar e viver essa fé (fides qua).
“As nossas posições perante decisões difíceis revelam aquilo em que realmente acreditamos”, disse.
O responsável recordou que, ao longo da história, a Igreja enfrentou desafios que obrigaram a repensar a transmissão da fé. Entre eles, destacou o papel dos Concílios de Niceia, Constantinopla, Éfeso e Calcedónia, que definiram os fundamentos doutrinais do cristianismo, e a mudança que se seguiu: “Passámos de uma fé proclamada na experiência viva da comunidade para uma fé expressa sobretudo através do Magistério e das fórmulas oficiais”.
O padre Sultana observou que essa transição, embora necessária, “empobreceu a dimensão vivencial da fé”, criando um desequilíbrio entre o conhecimento doutrinal e a prática cristã.
“Durante séculos, a Igreja enfatizou o conteúdo da fé, mas esqueceu a dimensão existencial: como viver o que se acredita”, afirmou.
Referindo-se ao Concílio Vaticano II, o teólogo sublinhou que a grande reunião da Igreja “representou um renascimento da evangelização e da catequese”, ao colocar a Igreja “ao serviço dos fiéis e não de si própria”. Citou ainda as exortações apostólicas Evangelii nuntiandi (1975) e Catechesi tradendae (1979) como marcos na recuperação do equilíbrio entre as duas dimensões da fé.
Para o presidente da Equipa Europeia de Catequese, o desafio atual consiste em “purificar a fé dos pesos supérfluos e regressar ao essencial”.
“Devemos falar do ‘deserto contemporâneo’ em que as pessoas vivem e ajudá-las a regressar da dispersão moderna à terra prometida da fé”, afirmou, defendendo uma linguagem “clara, simples e próxima da experiência humana”.
O sacerdote recorreu ao exemplo dos profetas do Antigo Testamento e dos místicos cristãos, que “falavam ao coração das pessoas e as acompanhavam na transformação interior”. Essa atitude, sublinhou, deve inspirar a missão dos catequistas atuais.
“O verdadeiro anúncio cristão não é um discurso intelectual, mas uma palavra que desperta a espiritualidade e transforma a vida”, disse.
Defendendo uma catequese “centrada no acompanhamento”, Sultana destacou a necessidade de formar evangelizadores “na arte de caminhar ao lado dos fiéis”. Citando a exortação Evangelii gaudium, do Papa Francisco, afirmou que essa arte exige “proximidade, compaixão e paciência”.
Na parte final da conferência, o teólogo evocou o pensamento de Karl Rahner e Avery Dulles, recordando que a revelação de Deus “não é um evento do passado, mas uma auto-revelação contínua na história e na experiência humana”. “A catequese deve ligar-se à vida real e às libertações concretas que Deus continua a operar hoje”, concluiu.
As Jornadas Nacionais de Catequistas 2025 decorrem até domingo, em Fátima, sob a organização do Secretariado Nacional da Educação Cristã, reunindo 1100 participantes de todas as dioceses do país.
Imagem: Pedro Luz
Educris|18.10.2025




