Jubileu 2025: Encontro do Papa Leão XIV com os educadores

Disponibilizamos, na íntegra, o texto proferido pelo Papa Leão XIV no encontro que manteve hoje com mais de 15 mil educadores que participam no Jubileu do Mundo Educativo, em Roma

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

A paz esteja convosco.

Queridos irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!

Estou muito contente por poder encontrar-me convosco, educadores provenientes de todo o mundo e comprometidos em todos os níveis, desde a escola primária até à universidade.

Como sabemos, a Igreja é Mãe e Mestra (cf. S. João XXIII, Encíclica Mater et magistra, 15 de maio de 1961, 1), e vós contribuís para encarnar o seu rosto para tantos alunos e estudantes à cuja educação vos dedicais. Graças à luminosa constelação de carismas, metodologias, pedagogias e experiências que representais, e graças ao vosso compromisso “polifónico” na Igreja, nas dioceses, em congregações, institutos religiosos, associações e movimentos, garantis a milhões de jovens uma formação adequada, mantendo sempre no centro, na transmissão do saber humanístico e científico, o bem da pessoa.

Também eu fui docente em instituições educativas da Ordem de Santo Agostinho e, por isso, gostaria de partilhar convosco a minha experiência, retomando quatro aspetos da doutrina do Doctor Gratiae que considero fundamentais para a educação cristã: a interioridade, a unidade, o amor e a alegria. São princípios que desejo que se tornem pilares de um caminho a percorrer juntos, fazendo deste encontro o início de um processo comum de crescimento e enriquecimento mútuo.

Quanto à interioridade, Santo Agostinho diz: “o som das nossas palavras atinge os ouvidos, mas o verdadeiro Mestre está dentro” (In Epistolam Ioannis ad Parthos Tractatus 3,13), e acrescenta: “Aqueles a quem o Espírito Santo não ensina interiormente regressam com a mesma ignorância” (ibid.). Recorda-nos assim que é um erro pensar que, para ensinar, bastam belas palavras ou salas de aula bem equipadas, laboratórios ou bibliotecas. Estes são apenas meios e espaços físicos, certamente úteis, mas o Mestre está dentro. A verdade não circula através de sons, muros e corredores, mas no encontro profundo entre pessoas, sem o qual qualquer proposta educativa está destinada ao fracasso.

Vivemos num mundo dominado por ecrãs e filtros tecnológicos, muitas vezes superficiais, no qual os estudantes, para entrar em contacto com a sua interioridade, precisam de ajuda. E não só eles. Também os educadores, frequentemente cansados e sobrecarregados com tarefas burocráticas, correm o risco real de esquecer o que São John Henry Newman sintetizou na expressão cor ad cor loquitur — “o coração fala ao coração” —, e que Santo Agostinho recomendava dizendo: “Não queiras derramar-te para fora; entra dentro de ti próprio, porque no homem interior reside a verdade” (De vera religione, 39, 72). São expressões que convidam a considerar a formação como uma estrada em que mestres e discípulos caminham juntos (cf. S. João Paulo II, Constituição Apostólica Ex corde Ecclesiae, 15 agosto 1990, 1), conscientes de que não procuram em vão, mas sabendo também que devem continuar a procurar mesmo depois de terem encontrado. Só este esforço humilde e partilhado — que nos contextos escolares se configura como projeto educativo — pode aproximar alunos e docentes da verdade.

Chegamos assim à segunda palavra: unidade. Como talvez saibais, o meu “lema” é In Illo uno unum. Também esta é uma expressão agostiniana (cf. Ennaratio in Psalmum 127, 3), que recorda que só em Cristo encontramos verdadeiramente a unidade, como membros unidos à Cabeça e como companheiros de caminho no processo contínuo de aprendizagem da vida.

Esta dimensão do “com”, constantemente presente nos escritos de Santo Agostinho, é fundamental nos contextos educativos, como desafio para “sair de si mesmo” e como estímulo para crescer. Por isso decidi retomar e atualizar o projeto do Pacto Educativo Global, que foi uma das intuições proféticas do meu venerado predecessor, o Papa Francisco. Além disso, como ensina o Mestre de Hipona, o nosso ser não nos pertence: “A tua alma — diz ele — não é tua, mas de todos os teus irmãos” (Ep. 243, 4, 6). E se isto é verdade em sentido geral, com maior razão o é na reciprocidade própria dos processos educativos, nos quais o partilhar do saber não pode assumir outra forma senão a de um grande ato de amor.

Precisamente, a terceira palavra é amor. Muito esclarecedor, a este respeito, é um dístico agostiniano que afirma: “O amor a Deus é primeiro na ordem do preceito; o amor ao próximo, porém, é primeiro na ordem da ação” (In Evangelium Ioannis Tractatus 17, 8). No âmbito formativo, então, cada um poderia perguntar-se qual é o seu empenho para captar as necessidades mais urgentes, que esforço realiza para construir pontes de diálogo e de paz, mesmo dentro das comunidades docentes; qual é a sua capacidade para superar preconceitos ou visões limitadas; qual a sua abertura nos processos de co aprendizagem; e que esforço põe em responder às necessidades dos mais frágeis, pobres e excluídos. Partilhar o conhecimento não basta para ensinar: é preciso amor. Só assim o conhecimento será proveitoso para quem o recebe, em si mesmo e, sobretudo, pela caridade que comunica. O ensino nunca pode separar-se do amor, e uma das dificuldades atuais das nossas sociedades é não saber valorizar suficientemente o grande contributo que os professores e educadores oferecem à comunidade. Mas estejamos atentos: danificar o papel social e cultural dos formadores é hipotecar o próprio futuro, e uma crise na transmissão do saber conduz a uma crise de esperança.

E chegamos assim à última palavra-chave: alegria. Os verdadeiros mestres educam com um sorriso, e o seu desafio é conseguir despertar sorrisos no mais profundo da alma dos seus discípulos. Hoje, nos nossos contextos educativos, preocupa ver crescer os sinais de uma fragilidade interior generalizada, em todas as idades. Não podemos fechar os olhos perante estes pedidos silenciosos de ajuda; pelo contrário, devemos esforçar-nos por identificar as suas causas profundas. A inteligência artificial, em particular, com o seu conhecimento técnico, frio e padronizado, pode isolar ainda mais estudantes já isolados, dando-lhes a ilusão de não precisarem dos outros ou, pior ainda, a sensação de não serem dignos deles. O papel dos educadores, pelo contrário, é um compromisso humano, e a própria alegria do processo educativo é plenamente humana, uma chama que “funde as almas e de muitas faz uma só” (S. Agostinho, Confissões, IV, 8,13).

Por isso, queridos amigos, quero convidar-vos a fazer destes valores — interioridade, unidade, amor e alegria — os “pontos cardeais” da vossa missão para com os vossos alunos, recordando as palavras de Jesus: “Sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt 25, 40). Irmãos e irmãs, agradeço-vos o valioso trabalho que realizais. Abençoo-vos de coração e rezo por vós.

Tradução Educris a partir do original em italiano

Imagem: Vatican Media

Educris|31.10.2025

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