
No Jubileu dos Catequistas, em Roma, Paulo Agostinho Matica, da Diocese de Pemba, partilhou o seu testemunho diante de milhares de catequistas, descrevendo a coragem e a esperança dos leigos que mantêm viva a fé no Norte de Moçambique, apesar da guerra e da violência
Foi a primeira de três partilhas, de outras tantas latitudes, e colocou em silêncio emocionado os mais de vinte mil catequistas, de 115 países do mundo, que se reuniram na Basílica de São Pedro, no Vaticano, para a vigília do «Jubileu dos Catequistas».
Tímido no trato Paulo Agostinho Matica, catequista moçambicano da Diocese de Pemba, subiu ao púlpito para dar o seu testemunho durante a Vigília do Jubileu dos Catequistas. Com voz firme, relatou a realidade de Cabo Delgado, uma das regiões mais atingidas pela violência armada em Moçambique, e a missão quase heroica de quem mantém viva a fé em tempos de perseguição.
“Imaginem que estão em vossas casas com a família e, de repente, entram homens armados, incendeiam os vossos bens, matam os vossos filhos e vocês têm de fugir pela mata com fome e sede. É isso que tem acontecido na nossa província há quase oito anos”, contou.
A Diocese de Pemba, explicou Matica, cobre mais de 82 mil quilómetros quadrados e reúne cerca de 850 mil católicos. Apesar dessa vastidão, conta apenas com 41 sacerdotes e um bispo.
“Por isso, o ministério da evangelização é levado a cabo principalmente por nós, os catequistas e animadores”, afirmou.
Atualmente, são mais de 2250 catequistas leigos que asseguram as celebrações e a catequese nas comunidades espalhadas pela província.
Desde 2017, Cabo Delgado vive sob o terror de ataques armados que já provocaram milhares de mortos e deslocados. Matica relatou que, em muitas paróquias, os sacerdotes e religiosas tiveram de fugir para zonas seguras.
“Esse é o caso da minha paróquia, São Bento de Palma. O padre teve de sair em 2020, quando o conflito estava no auge. Desde então, sou o responsável por todo o processo de evangelização, pela manutenção da paróquia e pelo alento da fé das pessoas.”
Com simplicidade o catequista descreveu a rotina de quem serve comunidades isoladas e vulneráveis.
“Por vezes, temos de percorrer até 160 quilómetros para ir buscar a Eucaristia para as celebrações”, contou, acrescentando que, muitas vezes, apenas têm Missa “uma vez por ano”.
Com a voz embargada, e o rosto comovido de muitos, o catequista recordou a Semana Santa de 2021, durante um dos ataques mais violentos à vila de Palma.
“No meio do fogo das armas e em fuga, entrei na capela para levar comigo o que havia de mais sagrado: os livros de registos. Depois de andar três dias pela mata, celebrámos o Domingo de Ramos com um pequeno grupo de cristãos, escondendo-nos do grupo terrorista que poderia alcançar-nos a qualquer momento.”
Ao fim de uma longa viagem, Matica conseguiu chegar à sede da Diocese de Pemba, a mais de 400 quilómetros de distância, entregando os livros ao bispo e recebendo dele a bênção para continuar a sua missão.
“O maior sinal de esperança é a certeza de que Deus nos sustenta”, afirmou. “É Ele que nos dá força para não nos deixarmos vencer pelo medo e continuar a anunciar a Palavra, mesmo nas situações mais difíceis.”
O catequista sublinhou que essa fé se manifesta com alegria nas celebrações, onde “os cantos e as danças ecoam mais alto do que qualquer medo ou perseguição”.
Perante o Papa e milhares de participantes vindos de todos os continentes, Paulo Agostinho Matica destacou o significado de ser instituído catequista pelo Santo Padre:
“Quem poderia imaginar que sairíamos de tão longe para viver estes dias, encontrar-nos com o Papa e, ainda mais, receber dele este ministério?”
Para a Igreja em Moçambique, disse, este momento representa “um reconhecimento da importância de tantos catequistas leigos que, ao longo da história, foram e continuam a ser responsáveis pela manutenção da fé em locais onde os padres não conseguem chegar”.
Matica concluiu o seu testemunho com um apelo simples e profundo:
“Agradeço por estar aqui, por me ouvirem e por partilharem comigo este momento tão especial do meu ministério. Peçamos sempre pela paz”.
Imagem: Paulo Matica foi um dos quatro catequistas do norte de Moçambique que foram instituidos pelo Papa Leão XIV
Educris|15.10.2025


