
Festa de São Sebastião
No dia 20 de janeiro, a vila de Aljustrel reúne‑se na Igreja Matriz do Santíssimo Salvador para viver uma tradição singular na Diocese de Beja: o “cumprimento” ou “pagamento” das promessas a São Sebastião. Nesta celebração simples e profundamente enraizada, o povo aproxima‑se do Mártir Santo para agradecer graças recebidas e saldar promessas feitas em tempos de aflição, confiando a Deus a sua vida e o futuro da comunidade.
Segundo testemunhos antigos, os fiéis deslocavam‑se neste dia à igreja para oferecer azeite e esmola à imagem de São Sebastião, venerada na Matriz. Este gesto, repetido durante três anos consecutivos, era entendido como cumprimento completo da promessa, sobretudo quando ela tinha sido “lembrada e esquecida”, isto é, feita em momento de dificuldade e depois relegada para segundo plano no corre‑corre do quotidiano. Assim, o rito recorda que Deus não esquece o que lhe confiamos e convida‑nos a ser fiéis à palavra dada.
Com o passar das gerações, e com o desaparecimento de muitos dos mais idosos, esta prática foi perdendo algum do brilho exterior de outros tempos, mas permanece viva, ainda que de forma mais singela. O pároco continua a incentivar a comunidade a não deixar cair no esquecimento este costume, que é ao mesmo tempo memória religiosa e património cultural de Aljustrel, sinal de um povo que reconhece em São Sebastião um intercessor junto de Deus nas horas de prova.
A devoção ao Mártir remonta a tempos antigos. A Monografia de Aljustrel, do Pe. João Rodrigues Lobato, lembra que já em 1510 uma visitação eclesiástica menciona a ermida de São Sebastião, com uma simples capela de taipa, altar pintado na parede e a imagem do santo acima do altar, em paredes forradas de cortiça e decoradas com folhagens. Em 1533, regista‑se que o altar possuía um retábulo de duas peças, com as imagens de São Sebastião e São Roque, oferecido por Martim Vaz, Comendador, mostrando como esta devoção se ligava também à tradição de pedir proteção contra doenças e epidemias.
Hoje, o centro da festa não é o arraial, mas o gesto de fé: entrar na Igreja Matriz, parar diante da imagem de São Sebastião e ali deixar azeite, esmola, oração e silêncio. O azeite fala da luz que se quer acender no meio das trevas, a esmola lembra o cuidado pelos mais pobres, e a promessa cumprida traduz uma fé adulta, que não fica apenas nas palavras, mas desce ao concreto da vida.
Assim, a Festa de São Sebastião em Aljustrel continua a ser um dia de memória e de conversão: memória de séculos de devoção ao Mártir que guardou esta terra das pestes e desgraças; conversão, porque chama cada cristão a renovar o seu “sim” a Deus, pagando o que prometeu e confiando novamente a sua vida à misericórdia do Senhor.


