A proposta de Linhas de Orientação, que se segue a esta introdução, pretende animar a vida e ação do Movimento nos próximos três anos, apoiada no slogan “Sociedade justa e sustentável, com trabalho para todos”. Foi elaborada a partir dos contributos das Revisões de Vida Operárias enviadas pelas Equipas de Base e Diocesanas.

Reflete por isso mesmo um olhar atento e conhecedor de quem vive e sente solidariamente as angústias e as esperanças destes tempos difíceis. Está fundamentada na Palavra de Deus e no Ensino Social da Igreja que nos impele a ser apóstolos e profetas no mundo do trabalho, com a firme convicção de que é pelo testemunho de vida e pelo envolvimento cívico nas organizações culturais, sociais, sindicais e eclesiais que materializamos a vocação laical de evangelizadores no mundo do trabalho. A desvalorização do trabalho humano e a consequente destruição de tantos postos de trabalho fizeram aumentar compulsivamente a precarização laboral e o desemprego estrutural com um efeito devastador na vida de tantos homens e mulheres e das suas famílias. Na perspetiva cristã, o ser humano sem trabalho digno não se realiza, não tem independência económica, não contribui para o desenvolvimento social, sente-se excluído por não ter oportunidade de participar da obra do Criador. O trabalho digno e justamente remunerado é pilar fundamental do progresso, centrado no homem e na mulher, que prioriza a justiça social, a distribuição da riqueza e respeita a sustentabilidade dos recursos naturais. Estas são as linhas sugeridas como prioritárias para a vida e ação do Movimento para o próximo triénio e que passamos a desenvolver.

 

VER

– Desvalorização do trabalho

 

O ser humano sem trabalho digno não se realiza, não contribui para o desenvolvimento social nem para a riqueza do país e fica à margem da sociedade. Com o pretexto de resolver parte do desemprego, os direitos dos trabalhadores, conseguidos com muito esforço, estão a ser retirados, tornando as relações laborais muito fragilizadas para quem trabalha. Há claramente uma desvalorização do trabalho, a qual leva à destruição de postos de trabalho e consequentemente à pobreza. A classe trabalhadora está cada vez mais pobre, esmagada e sem condições de vida digna. O sistema económico atual não respeita o/a trabalhador/a como pessoa com outras necessidades (culturais, afetivas…), tratando-o/a como objeto. A conjuntura económica, que tem estado a ser criada, tipo casino, onde os especuladores saem sempre a ganhar e as opções políticas têm levado a uma acentuada desregulamentação das leis do trabalho, parecem ser propositadas. Este sistema económico não tem em conta os trabalhadores e as suas famílias. Crescem as depressões; aumenta a fome, a miséria e o número de pessoas a viverem na rua; aumenta o “trabalho negro” ilegal, sem descontos para a segurança social e com salários abaixo dos 300 euros; as pessoas desempregadas passaram a aceitar qualquer “coisa”. Estamos a criar uma sociedade submissa, que aceita tudo, com medo de perder umas “migalhas” que ainda se consegue aqui e ali, que sobra da “mesa” dos ricos; aumentam as greves, principalmente daqueles trabalhadores que têm vínculos aparentemente mais estáveis. Estamos numa fase de mudança do conceito de trabalho.   2- Desemprego e trabalho precário Existe pouco conhecimento das leis de trabalho por parte dos trabalhadores e o não cumprimento das leis por parte de alguns empregadores, que só querem lucro. Nas relações de trabalho ainda há muito a mudar, devem ser baseadas no respeito mútuo, nas leis que as regem e no diálogo aberto e sincero. É necessário haver mudanças de mentalidade, nos trabalhadores e nos empregadores. Os trabalhadores não sabem, muitas vezes, para quem trabalham, nem sabem quem são os seus patrões. Funcionam como meros prestadores de serviços das empresas. Há contratos fraudulentos: os trabalhadores, dentro da mesma empresa, são obrigados a assinarem novos contratos, porque têm medo de perder os seus postos de trabalho e, desta forma, perdem os seus direitos. Os trabalhadores estão sob grande pressão nos seus locais de trabalho, devido às exigências que lhes são impostas, relativamente à sobrecarga de horários de trabalho, sentindo-se desmotivados e deprimidos, sendo esta realidade mais marcante nos jovens. O desemprego provoca uma instabilidade pessoal muito grande: gera egoísmo, revolta, um sentimento de impotência perante a vida, falta de autoestima e esperança no futuro. Continuam a germinar novas ideias para criar empregos em Portugal, mas são pouco divulgadas pela comunicação social, porque está dominada pelos grandes grupos económicos. Para além do aumento do desemprego, dos salários em atraso, da precariedade laboral, há ainda o problema do aumento da carga fiscal; descontos abusivos nas reformas e nos rendimentos sobre o trabalho; confisco dos salários por parte dos Bancos; aumento do custo dos bens de consumo de primeira necessidade e dos serviços públicos; desinvestimento na cultura; demissão do Estado das suas funções sociais primárias; injusta repartição da riqueza. Muita gente apenas consegue sobreviver através de pequenos trabalhos remunerados, por vezes publicitados através do facebook entre o círculo de amigos, trabalhos sem impostos e que por vezes constituem o extra necessário para completar o baixo salário, subsídio de desemprego ou rendimento mínimo. Muitos trabalhadores sentem a humilhação da procura constante de trabalho, dos carimbos exigidos e da resposta a todos os anúncios. Acaba o subsídio de desemprego e a maior parte dos desempregados não encontra trabalho. O direito ao trabalho é cada vez mais ameaçado. “Andámos tantos anos a lutar pela redução do horário de trabalho e aumento do salário mínimo e agora de um momento para o outro tiram-nos quase tudo”. Quando os trabalhadores denunciam atitudes incorretas e problemas, arriscam-se a perder o trabalho, a ficar no desemprego e com mais dificuldades em conseguir novo trabalho. Aumenta a solidão forçada por exclusão do meio laboral.    

3 – Organizações dos Trabalhadores

 

Os trabalhadores estão pouco organizados, não são solidários uns com os outros. Há trabalhadores que procuram as organizações sindicais para se sentirem acompanhados e exigirem os seus direitos. Outros há, que acreditam pouco nas associações de trabalhadores, recorrendo apenas a estas quando têm problemas. As estruturas sindicais vivem voltadas sobre si, desconhecedoras dos problemas concretos dos trabalhadores. Isto reflete-se numa quase total ausência de organização nos locais de trabalho, resultando num sindicalismo orientado das cúpulas para as bases e não ao invés. As mudanças, trazidas pelas tecnologias e a globalização, afetam o mundo do trabalho e exigem que todos nós, sobretudo as Organizações Sindicais, sejamos capazes de propor soluções genuínas, geradoras de unidade, esperança e confiança no futuro.

 

4 – A situação nas Empresas

É notório, por parte de alguns empresários, o aproveitamento da situação para explorar os mais frágeis e vulneráveis, que perante as suas dificuldades vêem-se impotentes para se defenderem. Acontece com frequência o despedimento no fim do contrato por gravidez; o salário que não corresponde com o que está mencionado no respetivo contrato; a oferta de trabalho sem descontos para segurança social; a proposta de trabalho a um euro à hora. Há empresas que encerram de um dia para o outro sem respeito pela legalidade, levando muitos trabalhadores a esperar meses pela documentação para requererem o subsídio de desemprego. Vive-se nas empresas um clima de medo, falta a cultura do diálogo entre o patrão e o operário que leva à falta de solidariedade e ao egoísmo. Existe falta de humanidade nas relações humanas, no trabalho, mas também na vida em geral, não se respeita a dignidade humana e só se pensa no bem-estar próprio. No plano nacional houve e há desinvestimento na economia desenvolvida pelas micro, pequenas e médias empresas que continuam a registar falta de financiamento, enquanto o poder político deixar o poder financeiro investir na especulação não se investe nas pequenas empresas para criar emprego. Alterou-se o sistema bancário e tornou-se difícil o acesso ao empréstimo para as empresas; a gestão das empresas é mais difícil, devido à concorrência do mercado e à globalização. Há pouca responsabilidade social das empresas e falta a ética e a transparência na gestão das mesmas. Há necessidade da formação contínua, de modo a capacitar os trabalhadores para um melhor desempenho profissional e para a sua própria valorização.    

 

 

5 – O poder financeiro e económico sobreposto ao poder político

 

Estamos a viver a transição de uma sociedade para outro sistema de sociedade – de uma sociedade com uma forte preocupação social, para uma sociedade liberal ou ultraliberal, em que os mais poderosos decidem e os outros obedecem. Vive-se numa sociedade desestruturada, que não se preocupa nem se compadece com as situações do desemprego. Quem governa não pensa a sociedade baseada no ser humano, mas sim servindo forças que têm poder e interesse, para tirar proveito financeiro das pessoas e das sociedades. A governação de Portugal e da restante União Europeia é baseada em políticas profundamente prejudiciais para os trabalhadores, desempregados, precários, reformados e cidadãos de RSI ou sem qualquer rendimento. Não existe uma política de criação de emprego. As políticas dominantes são impulsionadas pelo mercado financeiro, que dá primazia à iniciativa privada e ao comércio global liberalizado e deslocalizado. A recessão económica e o ataque generalizado e rápido ao Estado Social são consequência dessas políticas. Há falta de investimento e fuga de capitais para o estrangeiro, mesmo nos países mais pobres. Os impostos sobre o trabalho prestado são muito elevados. Há, claramente, falta de ética.  

 

6 – Proteção social debilitada        

 

 

O empobrecimento da população, a diminuição da natalidade, a emigração jovem e o aumento das pessoas idosas faz com que no futuro haja menos pessoas a produzir e a contribuir para a Segurança Social, ficando esta instituição mais debilitada para poder desempenhar a sua verdadeira função: garantir o cumprimento de direitos dos contribuintes – direitos humanos e constitucionais-, como, por exemplo, o pagamento das reformas. Os mais pobres veem reduzidos o acesso à saúde, dado o brutal aumento nas taxas moderadoras para os fracos recursos económicos que possuem. A qualidade da saúde e educação públicas estão a ser postas em causa. Soma-se a este problema o das rendas de casa mais caras, que a nova lei do arrendamento veio introduzir. Há um acréscimo da economia paralela (os biscates) – Economia de Sobrevivência, de complemento do salário. Muitas destas pessoas estão a recorrer à ajuda das instituições eclesiais e civis de carácter social, como forma de minimizar as suas carências alimentares, escolares e de habitação.  

 

 

 

7 – Família

 

Surge um novo conceito de família mais alargada, em que avós e outros membros próximos se envolvem, partilhando saberes e bens. Há famílias cujos pais estão reformados, com reformas mínimas. Estão, também, a passar privações para poderem ajudar os filhos e netos que, sem trabalho, tiveram que lhes pedir ajuda para poderem sobreviver.  

Quando o problema de falta de trabalho surge em famílias pouco estruturadas e em pessoas com pouca formação, aí se torna mais grave e vive-se em pobreza absoluta.   

 

Há famílias em que se deixou de conversar, se discute, e até há agressão verbal, desde que os seus membros perderam o emprego ou estão em risco de o perder. Existem famílias que deixam os seus idosos em lares sem se informarem devidamente das condições destes, se as instalações são adequadas, se o pessoal tem formação e se têm licença para funcionar. Existem cada vez mais casais desempregados com idades em que dificilmente se empregam, outros foram obrigados a reformarem-se, porque as suas empresas encerraram, e foram surpreendidos com reformas de miséria. Aumenta o endividamento; dificuldades de subsistência; dificuldade em continuar a dar formação aos filhos, comprometendo o seu futuro. Há famílias obrigadas a partilhar a mesma habitação (filhos que voltam à casa dos pais por não terem capacidade de se auto sustentar, sem privacidade na vida familiar). A instabilidade e mobilidade causam enormes sacrifícios na organização familiar, dificultam a constituição de família por parte dos jovens e provocam a redução da natalidade.    

8 – Emigração

 

São sobretudo os jovens e as pessoas com mais idade as mais atingidas. Não há trabalho para os jovens e quando aparece alguma coisa, não referem as habilitações para não serem recusados no trabalho que lhes apareceu e que é quase sempre temporário. São explorados, abusados e espezinhados nos seus direitos. A emigração parece ser a única porta. Os jovens, que são a esperança da sociedade, vivem presentemente com muitas dificuldades e com o seu futuro hipotecado. Muitos jovens deixam de estudar, porque não têm meios financeiros para pagarem alojamento, propinas, alimentação… “ainda não estou formada, e já estou a viver os problemas profundos da sociedade atual”. Temos também jovens que terminaram os seus estudos e que procuram emprego e não encontram, e não vêm outra solução se não emigrar. Depois do País e das famílias terem investido na sua formação, saem para o estrangeiro deixando o País mais pobres (de cérebros e de sangue novo), quando faziam falta para ajudar Portugal a sair da crise.    

9 – Bem comum e democracia

 

O Estado (os governos) e as instituições, em virtude das escolhas políticas que fazem, não garantem o princípio do Bem Comum, ou seja, o bem-estar das pessoas e das famílias. Há um aumento da exclusão social, défice democrático e incapacidade de se pensar o bem comum. Nota-se um condicionamento de liberdades e garantias no exercício de direitos constitucionais e civilizacionais; dificuldade reivindicativa e de reagir a estes constrangimentos; risco de convulsões sociais violentas e de conflitos internacionais, resultante da falta de solidariedade entre os povos em momentos de carência generalizada; risco de perda da soberania nacional e das referências culturais que constituem o património material e imaterial do país e do povo. Apesar das pessoas demonstrarem vontade de colaborar na partilha de bens alimentares e outros, através dos projetos sociais existentes na comunidade, continuam com tendência a isolar-se e com pouca disponibilidade para os outros, se estiver em causa a partilha do tempo para participar em iniciativas de luta contra as causas da pobreza, ou de assumir responsabilidades nas estruturas das organizações sociais, culturais e sindicais.  

 

10 – Centelhas de esperança

 

Assiste-se ao acordar das pessoas para olhar para o seu semelhante, combatendo o seu egoísmo, tomando consciência de que não estamos sós, que fazemos parte de um todo, que somos responsáveis pelos que estão ao nosso lado. Vai-se notando um maior sentido ético, insurgindo-se contra as injustiças e contra a corrupção. A crise tem levado as pessoas a serem mais solidárias; as manifestações de indignação, sem violência, são positivas; existe uma maior solidariedade familiar; tem aumentado o cultivo de pequenas hortas, para ajudar nas despesas e na alimentação. Quando se tem consciência da importância da unidade é mais fácil a defesa dos direitos.  


JULGAR 

 

11 – Direito ao trabalho para todos

 

Ao analisarmos as situações de desemprego, de injustiça e exploração, origem de grande sofrimento no seio dos trabalhadores e das famílias, verificamos que está em causa a dignidade humana.  

A mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz (1 de janeiro de 2013) declara que “Não só a dignidade do homem, mas também razões económicas, sociais e políticas, exigem que se continue a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao trabalho para todos, tendo como condição preliminar uma renovada apreciação do trabalho fundada em princípios éticos.”

 

“O pleno emprego é, portanto, um objetivo obrigatório para todo o ordenamento económico orientado para a justiça e o bem comum”. (Centesimus Annus nº31 e nº 43). O direito ao trabalho é um dos direitos sociais atualmente mais ameaçados.  

Para isso muito tem contribuído a desregulamentação do trabalho, como podemos constatar na encíclica Caridade na Verdade de Bento XVI, no seu número 25 “a desregulamentação do mundo do trabalho implicou a redução das redes de Segurança Social acarretando grande perigo para os direitos dos trabalhadores, os direitos fundamentais do Homem e a solidariedade realizada pelas formas tradicionais do Estado social”.

 

Apesar de ser um meio que está ao serviço da pessoa, é um direito que a assiste e deve ser valorizado.O trabalho é um direito fundamental e é um bem para o homem um bem útil, digno dele porque apto a exprimir e a acrescer a dignidade humana. A Igreja ensina o valor do trabalho não só porque este é sempre pessoal, mas também pelo carácter de necessidade. O trabalho é necessário para formar e manter uma família humana… A consideração das implicações morais que a questão do trabalho comporta na vida social induz a Igreja a qualificar o desemprego como uma verdadeira calamidade social, sobretudo em relação às jovens gerações” (CDSI 287).  

Muita da pobreza existente é “o resultado da violação da dignidade do trabalho humano seja porque as suas possibilidades são limitadas (desemprego e subemprego), seja porque são desvalorizados os direitos que dele brotam, especialmente o direito ao justo salário, à segurança da pessoa do trabalhador e da sua família” (CV nº 63).

 

Olhando para a nossa realidade, não é possível ficar indiferente à situação de desemprego de muitos homens e mulheres. Este facto demonstra que alguma coisa não está bem no que diz respeito à organização do trabalho e do emprego, precisamente nos pontos mais críticos e mais importantes no aspeto social (Laborem Exercens nº18). “A economia tem necessidade da ética para o seu correto funcionamento; não de uma ética qualquer mas de uma ética amiga da pessoa” (CV nº 45). Neste momento o trabalho está a ser minimizado, para desregularizar direitos, o que provoca a precariedade. A individualização do trabalho desregula os direitos, e neste momento a relação de forças é desfavorável ao trabalho, havendo cada vez mais pressão para salários baixos. Pretende-se ver o trabalho como um custo, para acabar com os vínculos laborais, mas, existe na DSI, concretamente na Laborem Exercens, referências ao primado do trabalho sobre o capital, direito do e ao trabalho, e também ao valor das relações laborais.    

12 – Sociedade justa e sustentável, com partilha do trabalho

 

Temos que ter a coragem de apresentar propostas arrojadas, contra a corrente estabelecida: por exemplo, a redução dos tempos de trabalho e a idade das reformas, para que mais trabalhadores e trabalhadoras, principalmente jovens, possam ter trabalho. Todos temos de nos questionar, sobre o estilo de vida que levamos. E sobre a forma como utilizamos o dinheiro. Os recursos naturais que existem não chegam para todo o mundo viver com o nível de vida da Europa, apesar da crise. Que solidariedade defendemos e praticamos?  

É necessário ter como critério de vida os valores do evangelho “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo” (Lc 3,10).

 

“A crise obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho, a impor-nos novas regras e encontrar novas formas de empenhamento, a apostar em experiências positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasião de discernimento e elaboração de nova planificação” (CV nº21). “O lucro é útil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objetivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim último o bem comum arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza”. (CV nº21) Precisamos de pensar não só em valores monetários, mas pensar, igualmente, num mundo sustentável. Neste sentido somos interpelados a apostar num estilo de vida simples, com dignidade. Temos necessidade de criar novos empregos através da partilha do trabalho.  

13 – Compromisso social cristão

 

Somos chamados a ser apóstolos e profetas no mundo do trabalho.  

Sentimos a dificuldade da tarefa quando interpelados a assumir a nossa responsabilidade num mundo confuso e ruidoso, que nós acreditamos ser possível humanizar, sem contudo compreendermos na totalidade a exigência e a radicalidade daquilo que nos é pedido: “quem olha para trás depois de deitar a mão ao arado, não é apto para o Reino de Deus”( Lc.9,62).

 

Hoje, interrogamo-nos sobre o lugar e o respeito pelos direitos humanos e sociais dos trabalhadores e dos desempregados. Como cristãos não podemos ficar indiferentes, mas sentimo-nos impotentes perante a falta de trabalho para todos. Devemos sentir-nos indignados com as injustiças, mas sem ódio no coração; com ódio não se consegue ver nada de positivo, nem abrir-nos aos outros.  

Vendo a realidade com olhos de fé, tudo se torna menos dramático. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos” (Mt 11, 28);

 

Vós sois o sal da terra, Vós sois a luz do mundo” (Mt 5, 13-16). Ora, ser sal e luz é ajudar as pessoas a ver pequenas soluções para a sua vida, (um direito que elas não conheciam; uma associação que pode ajudar; transmitir confiança e auto-estima à pessoa; reconhecer-lhe valor…). Ser Sal e Luz, obriga-nos a ter atitudes pessoais que promovam a justiça; a recusarmos todas as formas de repressão; a não querermos para os outros o que não queremos para nós; a sermos justos, humanos e solidários. O texto da Gaudium et Spes nº 4, ajuda a situar a missão do cristão face às realidades vividas.  

(…) Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático (….).

 

Todos temos de nos empenhar na transformação do que está mal, o que faz sofrer as pessoas (L. G. 31) Os cristãos parecem ainda não estar suficientemente despertos para as causas do empobrecimento generalizado. Em geral, são solidários mas parecem alheios ou demasiado concentrados em si próprios, com dificuldade em pensar em conjunto os problemas e as suas causas, com dificuldade em doar o que lhes faz falta, por exemplo um pouco de tempo para si (para crescer na fé) e para os outros. Assim é mais difícil a Igreja desempenhar a missão de estar ao lado dos pobres: “Há um paradoxo que atravessa a relação da Igreja portuguesa com a pobreza: é inegável que a Igreja se preocupa com os pobres e está na primeira linha da ajuda direta aos pobres. Mas enquanto faz isso, tem um défice manifesto em tudo o que se refere à denúncia dos processos de empobrecimento, das situações de injustiça na génese da pobreza e na formação da consciência dos cristãos acerca dos mecanismos da desigualdade e da exclusão” (Manuela Silva em entrevista Jornal Público de 10 out. 1999). E constatamos que nas nossas igrejas locais estes problemas e as situações dramáticas de tanta gente e de tantas famílias encontram pouco eco. Falta a cultura de proximidade. A vida das pessoas e das comunidades – os seus problemas, os seus anseios e as suas inquietações, parece que não têm lugar dentro da Igreja, não se partilha nem se ouvem as angústias e lamentos do povo de Deus! Também, por isso, dificilmente as pessoas, ao sair da porta da igreja, se sentem interpeladas e comprometidas com os seus irmãos na fé em agir e unir esforços para, na medida das suas possibilidades, ajudar os outros e combater as injustiças.  

É necessário inventar novas formas de solidariedade: “As circunstâncias, geradoras de novas formas de pobreza, exigem respostas novas de solidariedade, respostas mais criativas e mais adequadas às reais necessidades das pessoas mas também à dignidade de quem vive situações novas de pobreza”(José Dias da Silva -Viver o Evangelho, servindo a Pessoa e a Sociedade, iniciação à DSI).

 

Nas reflexões dos pequenos grupos tentamos descobrir sinais de que Deus não abandona o Seu Povo, e aí encontrar motivação para sermos mensageiros da alegria e da esperança, dando razões do nosso acreditar, da nossa fé. A mensagem da Boa Nova do Evangelho convoca-nos para um mundo de Amor, de Justiça e de Paz. Temos de continuar a sonhar, continuar a acreditar que é possível outro tipo de vida e de sociedade, sem nos acomodarmos a um estilo de vida egoísta. A fé aliada à esperança é o “porto seguro” quando nos cruzamos com as dificuldades. Em muitos momentos da história as sociedades passaram por muitas crises e sempre as resolveram e no fim o mundo ficou melhor. Temos o dever de sermos pioneiros em implementar e experimentar uma nova vivência social, baseada nos valores cristãos, onde se possa testemunhar que uma outra organização económica e social é possível. As primeiras comunidades cristãs e o próprio projeto de Jesus Cristo, remetem-nos para a distribuição dos bens, para que todos vivam com dignidade (At 2,42-47). O direito à vida exige a justiça distributiva e está acima dos critérios do mercado.  

 

AGIR

 

Na sociedade
 

 

14 – Denunciar profeticamente as situações de injustiça laboral e social a nível local, nacional e internacional, apoiando as pessoas e levando-as a tomarem consciência das realidades.  

15 – Conhecer e divulgar os direitos dos trabalhadores e dos cidadãos no que diz respeito ao trabalho, à saúde, à educação, à habitação e à proteção social. Defender os direitos sociais para todos os que realmente precisam e incentivar os cidadãos a exercer o dever e a responsabilidade que advém da cidadania, participando ativamente na vida associativa, sindical, politica e eclesial.   

 

 

16 – Debater e aprofundar as mudanças que surgem no mundo do trabalho, distinguindo entre as que implicam mercantilização e injustiças sociais e as que promovem o bem-estar dos trabalhadores e uma sociedade sustentável. Que as alterações ou as mudanças sejam sempre precedidas de debate público, e que nelas prevaleça sempre o bem comum e a dignidade humana.   

 

17 – Defender o acesso ao trabalho digno e justamente remunerado para todos, no respeito pela capacidade e individualidade de cada um, combatendo o duplo emprego, os salários escandalosos, e o desvio do capital e dos lucros da empresa para investimentos especulativos, em vez de aplica-los na produção de bens úteis à sociedade. Defender a redução de horários e ritmos de trabalho. Exigir uma maior transparência na gestão financeira das empresas e uma melhor organização dos recursos humanos; valorizar a negociação nas relações de trabalho. Lutar pela redução de tempo de trabalho, para que este bem precioso possa ser distribuído por todos. 18 – Fomentar o diálogo social com o Estado, no interior das empresas, enquanto base da concertação entre parceiros sociais ao nível nacional e na UE. Afirmar os princípios da ética, da responsabilidade social, da transparência e da democracia, permitindo que as comunidades onde estão inseridas as empresas, o estado, os cidadãos em geral, e os seus trabalhadores, em particular, usufruam equitativamente dos rendimentos e dos lucros da sua produção, comercialização ou serviços. 19 – Afirmar o princípio da subsidiariedade. Incentivar os desempregados e os cidadãos a tomarem nas suas mãos o destino das suas vidas, tornando-se protagonistas na procura de soluções para os problemas individuais e da comunidade. 20 – Estimular o interesse pela formação profissional permanente e integral, para a vida como forma de adquirir e partilhar saberes.  

21 – Desenvolver uma cultura de proximidade; alertar para responsabilidade cívica e cristã.   

 

22 – Despertar para importância da educação financeira, do consumo responsável, do discernimento do que é essencial para viver com dignidade e qualidade, e do que é supérfluo, no respeito pelos recursos naturais e pelos bens universais que são de todos. 23 – Promover a interajuda familiar, tendo em conta as novas realidades (várias gerações na mesma casa), como uma oportunidade de se recriarem novas formas de viver, com estilos de vida mais sóbrios e coerentes, com os valores da fraternidade e da solidariedade intergeracional, prevenindo a agressividade e a violência doméstica, e transmitindo os valores humanos e cristãos, que sustentam o bem comum. 24 – Dar atenção aos novos fenómenos da emigração, que afeta jovens e adultos, os quais se obrigam a partir à procura de trabalho, de melhores condições de vida. Alertar para o empobrecimento do país, provocada pela emigração de jovens qualificados, necessários ao nosso desenvolvimento, o que isto implica e as consequências para a família. 25 – Continuar atentos e acolher os imigrantes que chegam até nós; que fogem da fome, da guerra, da perseguição política e religiosa, e da falta de condições básicas de sobrevivência. Ajudar a sua integração na sociedade portuguesa. 26 – Exigir dos governantes políticas de criação de emprego, sustentável e rentável, como base de sustentação da economia. 27 – Acreditar no protagonismo e na capacidade de cada um, como ator de mudança, para uma sociedade mais justa e fraterna, onde todos podem viver dignamente. Por isso, devemos ser mais pró-ativos, usarmos a internet e as redes sociais, para partilhar informação e as boas ideias. 28 – Intervir e levar outros a intervir e a comprometer-se mais ativamente nas associações locais, nas autarquias, nos sindicatos e nas organizações políticas. Apoiar um sindicalismo de base, livre de táticas e estratégias partidárias.  

 

 

No Movimento   29 – Estimular os militantes locistas, para que através da RVO, estejam ainda mais preparados e seguros das suas convicções, das razões da sua esperança, e das propostas e desafios que estes tempos exigem, do modelo de sociedade que procuram e defendem para o mundo do trabalho; a utilizar bem toda a formação proporcionada no interior do movimento; reuniões, encontros, seminários, Boletim de Militantes, Voz do Trabalho, Comunicados, Mensagem de Natal; a estar disponíveis para aproveitar o que se faz na comunidade paroquial, nas associações sociais, culturais e sindicais. 30 – Continuar a lutar e defender que a economia deve ter como objetivo central do desenvolvimento o ser humano, assente numa sociedade justa e sustentável. Desafiar a sociedade a ser promotora de uma solidariedade não assistencialista, mas de reconhecimento da dignidade da pessoa humana. 31Disponibilizar mais tempo para prestar serviço à comunidade onde estamos inseridos. Lutar contra o egoísmo, o consumismo que nos é imposto. Combater a corrupção. Exigir o respeito pelo ser humano, dando particular atenção aos mais frágeis. 32 – Divulgar mais o nosso pensamento e as ações individuais e coletivas, fundamentados nos nossos princípios cristãos. Devemos estar despertos para ouvir o que as pessoas têm para dizer, acolher as suas angústias, ajudando-as a descobrir respostas, despertando-as para a responsabilidade de se envolverem nessas mesmas respostas. Sermos realistas no olhar e na compreensão das situações que vivemos, conjuntamente com todos os homens e mulheres do mundo do trabalho, no discernimento e na definição dos desafios, mas, sempre, portadores da esperança que congrega, renova e interpela à mudança para a justiça e equidade sociais. 33 – Afirmar a nossa fé em Jesus Cristo, nosso libertador. Ele disse: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (Jo. 10, 10). Todos temos direito ao necessário para uma vida digna. 34 – Envolvermo-nos e comprometermo-nos na dinamização das organizações da sociedade civil e na democratização das instituições públicas, campos de evangelização, pois é neste domínio que se cresce em comunidade, que se decidem e discutem as políticas públicas. 35 – Rever a nossa presença e participação nas comunidades paroquiais: na catequese e noutras responsabilidades eclesiais na comunidade, como sejam os conselhos pastorais. Escutar, interpelar, propor ideias e ações que contribuam para uma Igreja mais atenta aos pobres, às injustiças e às realidades do mundo do trabalho. 36 – Afirmar a missão que está definida para os leigos na edificação da ordem temporal, o compromisso de evangelizar o mundo onde vivemos e estamos inseridos. Estar disposto à conversão e tomada de posições concretas. 37 – Fomentar locais de encontro, de debates, de tertúlias sobre tudo o que preocupa as pessoas das nossas comunidades, mas também sobre o que se passa no nosso país e no mundo. Procurar envolver sempre as pessoas que são afetadas pelas realidades que queremos denunciar: desemprego, trabalho precário, pobreza…Envolver, ainda, através de parcerias, outras organizações e movimentos, das paróquias e das dioceses, de forma especial os que se identificam com o compromisso social cristão: Pastoral Operária, Movimentos da Ação Católica e Pastoral Social. 38 – Criar no Movimento espaços específicos de reflexão e organização, tendo em conta a situação de vida de cada um: trabalhadores com trabalho precário, desempregados e reformados, comprometidos nos sindicatos, nas associações sociais, recreativas, políticas e eclesiais. Aprofundar o conceito e o espírito da concertação social no interior do Movimento, sobretudo com os militantes integrados nas estruturas sindicais. 39 – Adaptar à realidade local, as linhas orientadoras decididas nos Congressos dando à nossa ação evangelizadora de base, uma dimensão Diocesana, Nacional e Internacional do Movimento de Trabalhadores Cristãos, contribuindo assim para que a solidariedade, a justiça, a partilha de trabalho, a dignidade e a esperança se universalizem.