Olhamos à nossa volta e temos dificuldade em descobrir sinais que nos permitam vislumbrar esperança, alegria. Todos os dias batem à nossa porta notícias e imagens de homens e mulheres a quem é retirada a possibilidade de contribuir com o seu trabalho e a sua criatividade na obra da criação. Uma militante da LOC/MTC que se encontra já algum tempo na situação de desemprego partilhou o que está a viver: “Retirar o trabalho é retirar a hipótese de criar…é muito mais que tirar o sustento”.

O Papa Francisco reforça esta ideia ao afirmar que “o trabalho enche-nos de dignidade”. E continua, em outro momento, dizendo “onde não há trabalho, não há dignidade”.

Este é o drama que estamos a assistir, de trabalhadores e trabalhadoras a quem é fechada a porta do seu sustento e da sua dignidade. Toda a violação da dignidade pessoal e dos seus direitos é uma ofensa ao Criador e à humanidade
Faz muito tempo, anos até, que os nossos governantes não são capazes de tomar uma medida capaz de aliviar o sofrimento de milhares de famílias, pelo contrário, agravam ainda mais a sua já aflita situação de vida. É conhecida a altíssima taxa de desemprego entre nós, com a agravante de metade dos desempregados não terem direito ao subsídio de desemprego e mais de metade estarem em situação de desemprego de longa duração. Avizinham-se novos cortes nos salários e pensões e redução dos direitos sociais.

Entretanto aumenta o número de multimilionários no nosso país e estes estão mais ricos. As desigualdades crescem e representam uma “traição ao bem comum” (papa Francisco). 

Dá-se prioridade à estabilidade financeira, que vai permitir aos bancos sobreviver e aos ricos satisfazer-se: “Os efeitos e consequências das ditaduras neoliberais que governam as democracias fazem-nos esquecer dos direitos humanos, convencem-nos de que nada se pode fazer, de que não existe alternativa possível (Cardeal Maradiaga). Esta é a nossa história repetida à saciedade, que até nos faz cair na tentação da normalidade e da indiferença.
No meio de tantos sinais de morte, Deus convida-nos à surpresa da vida. Ele quer que a esperança continue a habitar-nos. "Eis que vou realizar uma obra nova, a qual já começa: Não a vedes? Vou abrir um caminho no deserto, e fazer correr rios na solidão" (Is 43,19-20). Esta obra nova onde a podemos ver: nos trabalhadores e trabalhadoras que são capazes de se unir para lutar pela justiça; nas famílias que exigem os seus direitos sociais para poderem cumprir a sua tarefa; nos vizinhos que se aproximam para se conhecerem e criarem laços de solidariedade; nos grupos que fazem Revisão de Vida; nos gestos de gratuidade; na voz profética de quem defende a dignidade e o bem comum; em quem aposta no desenvolvimento integral da pessoa e na sustentabilidade do emprego com direitos.

Esta esperança é-nos dada no presépio com o nascimento de Jesus. Belém é o lugar da novidade, acolhida por uns e rejeitada por outros. Não há indiferença perante a novidade de Deus. Jesus apresenta-se, encarnando a vida dos pobres, para denunciar as injustiças, reforçar a dignidade humana e acompanhar quem vive nas periferias: “Quem deseja viver com dignidade e em plenitude não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem” (Exortação Apostólica Alegria do Evangelho – papa Francisco).

Vem, Senhor Jesus! Acompanha-nos nesta hora para sermos firmes na rejeição da “economia da exclusão e da desigualdade social”; 

Vem, Senhor Jesus! Fortalece a esperança do teu povo e desperta a nossa humanidade para Te acolher com alegria;

Vem, Senhor Jesus! Revolve a nossa vida para nos deixarmos contagiar pela “revolução da ternura”. 

Vem, Senhor Jesus!

Dezembro 2013