Para este diálogo estão convocados os principais sindicatos do mundo e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Do Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (MMTC) participará sua co-presidenta, a portuguesa Fátima Almeida, e Abraham Canales, director da revista cristã Noticias Obreras, de Espanha.

O Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral,  do Cardeal Peter Turkson,  convoca, nos dias 22 e 23 de novembro, na Sala Nova do Sínodo da Cidade do Vaticano, este Encontro Internacional de Organizações Sindicais – histórico, pois não consta um precedente similar – com o slogan «De Populorum progressio a Laudato si´. O trabalho e o movimento dos trabalhadores no centro do desenvolvimento humano integral, sustentável e solidário. Porque é que o mundo do trabalho continua sendo a chave do desenvolvimento neste mundo global?». O Vaticano mais uma vez coloca em destaque o trabalho humano e a dignidade da pessoa.

A perspectiva deste encontro é muito significativa. A Doutrina Social da Igreja, em cujos princípios esta iniciativa é inspirada, aposta por «gerar acordos que promovam um desenvolvimento humano integral, sustentável e solidário». Na proposta e no documento preparatório, referem-se as encíclicas: Populorum Progressio, sobre o desenvolvimento dos povos; Sollicitudo rei Socialis, sobre a preocupação social da Igreja, Laborem Exercens, sobre o trabalho humano; Caritas in Veritate, sobre o desenvolvimento humano integral e Laudato Si´, sobre o cuidado da casa comum. A contribuição de cinco papas que valorizam o pensamento social da Igreja na relação com o trabalho e o desenvolvimento humano integral, sustentável e solidário.

O papa Francisco interpela-nos a «descobrir um novo diálogo sobre o modo como estamos a construir o futuro do nosso planeta», que tenha em conta as dimensões ambiental, económica, social, cultural e religiosa. «O mundo do trabalho é uma prioridade humana. Portanto, é uma prioridade cristã». Com este diálogo prioritário e urgente, pretende-se atender aos problemas e aos desafios do trabalho que, para a Igreja, «segue sendo a chave do desenvolvimento no mundo global». Uma constante irrenunciável nestes quatro intensos anos de pontificado, como manifesta de maneira explícita na encíclica Laudato Si´ (LS): situar o valor do trabalho como indispensável, irrenunciável e insubstituível para cobrir as necessidades das pessoas e atingir uma vida digna, uma vida boa. (LS 127:129).

O papa Francisco é particularmente insistente na importância do trabalho digno na luta contra a pobreza, uma das principais preocupações de seu pontificado, expressado em: «Ah, como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres!» e priorizando a atenção evangélica nas periferias, entre quem sofre «a cultura do descarte».

O trabalho digno é o fio condutor em suas recentes visitas pastorais; foi-o ante diversas instituições e organizações;  ou em suas diferentes mensagens. Foi-o, durante três anos consecutivos, mediante o diálogo mantido nos três encontros mundiais de movimentos populares, «um sinal de esperança» – segundo suas próprias palavras – para milhões de trabalhadoras e trabalhadores «descartados» que lutam pelos «direitos sagrados ao Teto, ao Trabalho e à Terra».

Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos

A convocação impulsionada pelo Papa Francisco está a ser bem recebida pelas instituições e entidades do mundo operário e do trabalho. A OIT, imersa num diálogo global em torno da iniciativa sobre o futuro do trabalho como resposta aos desafios em favor da justiça social, participa através de seu diretor geral, Guy Ryder.

O Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (MMTC), estará representado pela sua co-presidenta, Fátima Almeida, e por Abraham Canales, director de revista Noticias Obreras – especializada na visão cristã do trabalho humano e o bem comum -, que atenderá comunicativamente esta iniciativa.

Sobre esta convocatória, Fátima Almeida, valoriza que a Igreja «manifesta sua preocupação pelo desenvolvimento social e económico atual, que causa muitas situações de injustiça, de precariedade, de desregulamentação laboral e de descarte das pessoas. Realidades que provocam apatia, indiferença, falta de confiança e de esperança, desespero e desmotivação para a participação cívica; associativa, sindical e política». Sem dúvida, o Vaticano quer ajudar, com este diálogo, que os sindicatos continuem a defender os direitos laborais e a dignidade humana. Por outro lado, – continua Fátima Almeida – a Igreja «valoriza o papel dos sindicatos, como interlocutores insubstituíveis nos processos de negociação das condições de trabalho, dos direitos laborais e da negociação coletiva. E será também um tempo para refletir e interpelar o modo de atuar dos sindicatos nestes novos tempos onde predominam baixos salários, precariedade e desemprego; a lutar  pela diminuição do tempo de trabalho e pela criação de um salário social para quem não encontra o trabalho digno a que tem direito». Nesse sentido, apelar também a que os cristãos «se envolvam mais com esta causa. Precisa-se do testemunho de mais cristãos comprometidos com o mundo do trabalho, com os sindicatos e com a defesa do trabalho digno».

Fátima Almeida considera que a contribuição do MMTC para este encontro irá na perspectiva de apelar a «uma maior atenção e proximidade aos trabalhadores mais empobrecidos; uma atitude mais firme na denúncia da desigualdade e da insustentabilidade ambiental; em combater a desvalorização do trabalho humano, o desemprego, os baixos salários, o aumento dos horários de trabalho; ou da subordinação do trabalho humano à lei da competitividade e aos interesses do capital». Junto à defesa de um trabalho digno – livre, criativo e justamente remunerado – une-se «a necessidade de direitos laborais e sociais; de uma economia ao serviço das pessoas, de melhor qualidade de vida e de bem-estar coletivo; de um salário social que permita viver com dignidade a quem não tem trabalho. Assim como comprometer e envolver a Igreja no mundo do trabalho, através da solidariedade e do testemunho de vida dos cristãos», sublinha.

É uma ocasião para repensar novos modos de produzir bens sociais, solidários, próximos, integrais, democráticos «orientados para satisfazer as necessidades das pessoa»; novos modos de consumir responsavelmente «produtos respeitosos do meio ambiente e dos direitos sociais». Novos modos de repartir a riqueza que, entre outras questões, «respeite critérios de progressividade na tributação fiscal e assegure o papel redistributivo do Estado».

Finalmente, a co-presidenta do Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos, está convicta que o reflexo deste diálogo Igreja-sindicatos «é possível»  e deve-se realizar em  outros países, «tendo em conta toda a mensagem do Evangelho e do Ensino Social da Igreja. A riqueza do pensamento espiritual e eclesial da Igreja sobre o valor do trabalho e a dignidade de quem o executa, exigem uma resposta de maior proximidade e solidariedade ao mundo do trabalho, aos trabalhadores a aos sindicatos».

«Este tempo, – continua – é o tempo do desafio e da oportunidade para que a nossa Igreja viva a sua missão evangélica ao lado dos pobres, dos que sofrem as angústias de não ter trabalho ou de o ter precário e com baixos salários. De ser mais solidários e comprometidos nas mudanças estruturais que causam injustiças e pobreza. De dar uma resposta mais humana e fraterna às angústias e ao sofrimento dos pobres; do mundo do trabalho, dos que não têm terra e dos que não têm teto e, junto com eles, lutarem e construírem um mundo de justiça, de paz e de amor».

17 de novembro de 2017