Nos últimos meses temos sido confrontados com notícias de milhões e mais milhões. Os que hão-de vir da Europa, os do BES, os do Euromilhões, dos Vistos Gold, da Operação Marquês… Notícias que enchem jornais, ocupam televisões, entretêm comentadores e público.
No meio de todas estas movimentações de milhões, a comunicação social conseguiu encontrar uma pequena notícia que de forma simples se relata: Três trabalhadores, separadores do lixo de uma autarquia do país encontraram dinheiro dentro de um envelope e foram-no entregar porque, “não lhes pertencia”, disseram. E o Município distinguiu os funcionários com uma menção de louvor.
Nos relatos do nascimento de Cristo chamam a atenção os contrastes:
Na escuridão da noite, brilha uma luz (Lc 2,8-9).
O mundo de cima parece poisar sobre o mundo de baixo: glória a Deus nas alturas e paz aos homens na terra. (Lc 2,13)
A grandeza de Deus manifesta-se na debilidade de um menino (Lc 2,7)
A glória de Deus faz-se presente numa gruta de animais (Lc 2,6).
O medo dos anjos dá lugar à alegria (Lc 2,9-10).
Pessoas marginalizadas, excluídas são as primeiras a receber o convite (Lc 2,8)
Os pastores reconhecem Deus presente num menino (Lc 2,20).
 
Nazaré era uma pequena aldeia da periferia (Judeia e Jerusalém eram o centro). O Anjo Gabriel é o enviado de Deus à jovem virgem, Maria, que vivia na periferia. Jesus nasceu na periferia de Belém, sem casa para acolher a sua mãe, na hora do parto. Jesus anuncia que Deus é bom pai e ama a todos de graça, nas periferias (Galileia e Samaria) e morre na periferia de Jerusalém.
O papa Francisco convida-nos a ir às “periferias da existência”. Periferias dos doridos, dos injustiçados, dos ignorantes, dos miseráveis, dos pecadores. Periferias dos sem terra, dos sem trabalho, dos sem casa. Mas, certamente, também às periferias da vida simples e honrada de quem trabalha para ganhar o pão de cada dia e não quer o que não lhe pertence.
É nestas periferias que se revela a presença de Deus, a Boa Nova do Reino. Quando hoje Jesus Cristo é acolhido, especialmente pelos pobres e pequenos ou excluídos, algo de novo acontece pela força do Espírito Santo. Algo tão novo e tão surpreendente como um menino nascer de uma virgem, ou Isabel, uma senhora de idade, ter um filho (Cfr Lc. 1,26-45).
Acolher este Jesus que nos é dado nas periferias implica luta contra miragens de grandeza efémera, vivência de uma cidadania de responsabilidade pelos bens públicos e pelo bem comum, de respeito pelos que ganham o pão com frio ou suor e amparo daqueles que nem trabalho digno têm.
Não podemos perder a paz por causa do Joio, mesmo que este seja abundante!… Sabemos que o Reino de Deus nasce e cresce no meio de dificuldades. Há que cuidar do Trigo, fazê-lo crescer e saboreá-lo no pão da mesa, celebrá-lo na Eucaristia, festeja-lo na beleza do louvor de Deus na liturgia.
Renovados na Esperança, a todos um Feliz Natal.
Dezembro de 2014