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A Igreja coloca o princípio do seu ano sob o signo da esperança e do nascimento de uma criança na gruta de Belém, cujo nome é Jesus, que desde há dois mil anos tem sido invocado e aceite por milhões de pessoas como Salvador, mensageiro celestial da paz, do amor, da verdade, da justiça. Essa criança, cujo nascimento é o Natal, veio dar cumprimento àquilo que o povo judeu cantava desde há séculos no salmo 85: O amor e a fidelidade vão encontrar-se. Vão beijar-se a justiça e a paz. Da terra vai brotar a verdade e a justiça descerá do céu.


Esperanças e desordens da nossa sociedade


Estas esperanças cantadas no salmo são expressão do mais profundo anseio dos povos e de cada pessoa. Quem não deseja amor, justiça, verdade, paz? E no entanto constatamos em nós e à nossa volta grandes ódios, injustiças, mentiras e guerras! É caso para repetir com S. Paulo que fazemos o que não desejamos, pelo menos para nós. Que infelizes somos!


Esta constatação deve ser para nós um alerta, para estarmos vigilantes e atentos aos impulsos do nosso coração e aos sinais do nosso tempo, cultivando com todos os meios ao nosso alcance e com todas as nossas forças a mensagem cantada no Salmo, desejada por Deus e realizada na pessoa do Menino que nos foi dado, nascido em Belém e anunciado pelos anjos aos pastores.


Mensagem do acontecimento natalício


Mas será possível realizar a mensagem de Natal e vivê-la no nosso tempo?


Na pessoa de Jesus realizou-se, mas com o dom da sua vida, desde a mangedoura de Belém até à manhã de Páscoa. Através dos seus discípulos, alguns mais fiéis e corajosos que outros, continua a revelar-se possível, mas sempre através do amor, que é verdade, justiça, solidariedade, atenção e ajuda aos mais débeis, misericórdia, perdão, dom da vida.


Por isso, nós que acreditamos em Jesus Cristo e esperamos que o seu reino aconteça, não podemos adormecer, calar-nos e permitir que tantos irmãos nossos sejam vítimas do ódio e da injustiça. O nosso Papa Bento XVI acaba de brindar-nos com uma linda carta encíclica sobre a esperança (a sua leitura e a oferta aos amigos pode ser um bom presente de Natal). Nela afirma que o mundo sem Deus não consegue dar uma resposta ao anseio de felicidade da pessoa humana.


Embora a realização plena da felicidade seja na vida eterna, no entanto ela começa a ser exercitada no nosso peregrinar sobre a terra, segundo os dons e capacidades de cada pessoa e de cada povo.


 


Natal no mundo das migrações e dos deslocados


Neste sentido, em nome da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana (CEMH) de Portugal, quero pedir a todos os colaboradores empenhados na pastoral dos migrantes, refugiados, ciganos, gentes do mar e pessoas deslocadas dos seus países e famílias, pelos mais diversos motivos, para que estejam atentos às situações de marginalização, opressão e escravatura ainda hoje praticada em muitos lados contra os mais indefesos. A voz da Igreja continua a ser uma força profética para a construção de um mundo melhor. Não deixemos apenas aos interesses políticos e económicos as propostas de solução das desigualdades entre as pessoas, as sociedades, os povos e os continentes.


Aos nossos irmãos deslocados, sobretudo aos jovens inquietos à procura de melhores condições de vida, desejamos-lhes um Natal que celebre não apenas o nascimento de Jesus mas também o surgimento de uma esperança enraizada na construção de uma família humana mais fraterna, justa, verdadeira, na paz e no amor entre todos, qualquer que seja a sua proveniência.


Para todos, comprometidos com Deus e uns com os outros, Santo Natal e ano de 2008 repleto de êxitos na construção de uma sociedade sem atropelos aos direitos humanos e por isso também mais evangélica, mais de acordo com a família de Nazaré, cujos membros, Maria, José e o Menino Jesus, são as figuras centrais das festas que celebramos nesta quadra festiva!


 


† António Vitalino


Bispo de Beja e Presidente da CEMH