Sazonais temporários Portugueses
Tentativa duma avaliação das evoluções em França
1) Evolução nestes últimos anos da imigração portuguesa em França.
· Perfil das pessoas : Os imigrantes sazonais de hoje, são de uma idade mais jovem, e do mundo rural. Para as temporadas curtas há também alguns estudantes. Há sempre homens sozinhos, mas há cada vez mais a presença de casais porque, homens e mulheres podem trabalhar com igualdade de salário. Encontramos também casais com filhos, nascidos em França ou em Portugal.
Quando vêm pela primeira vez eles têm um projecto a realizar pelo qual eles querem
ganhar dinheiro. Raros são os que vêm sem projecto. Só por curiosidade.
· Tempo da estadia: Varia segundo o tipo de trabalho: de 1 a 10 meses. Quando o tempo do contrato é curto eles procuram fazer vários contratos seguidos, com patrões diferentes, por vezes em várias regiões.
· Condições de trabalho: O primeiro trabalho é quase sempre um trabalho de manobra, de colheita. Estes trabalhos são físicos, cansativos e comportam duras relações, com os patrões e entre eles. Os patrões querem o máximo de rendimento: “Há patrões que tratam-nos como cães.”
De alguns anos para cá os horários quotidianos passaram de 10 -12h à 9 -10h, isto faz com que alguns sazonais não venham mais.
Segundo o tipo de trabalho, a remuneração é feita à empreitada ou rendimento e mesmo por hora(o trabalho por empreitada favorece a comportamentos mais individuais e isolados.) Na maior parte do tempo os sazonais só defendem os seus direitos quando a situação torna-se insuportável.
· Condições de vida: Sem generalizar, os alojamentos, muitas vezes são mal adaptados à uma vida de família. Certos são mesmos insalubres. Os sazonais aceitam o provisório que dura. A princípio eles aceitam o alojamento que o empregador propõe. Ele pode ser gratuito ou bastante barato, mas também indecente. Isolado no meio das estufas ele cria uma grande dependência frente ao patrão. Em seguida para adquirir mais independência os sazonais procuram um alojamento fora do lugar de trabalho.
Os sábados à tarde é quase sempre consagrado às compras e os domingos à visita aos outros sazonais. As compras são bem estudadas para fazer o máximo de economia mesmo se actualmente facilita-se um pouco mais. Os contactos com a população local são poucos.
· Como faz-se o recrutamento? As relações são a base do recrutamento. As vezes o empregador pede a um de seus operários para recrutar ou ainda o trabalhador encarrega alguém da sua família ou a um conhecido de o fazer. Alguns fazem-se pagar por fazer este trabalho. Por vezes há muita concorrência, inveja entre famílias portuguesas, sem que nós saibamos o porquê.
Alguns sazonais têm também um trabalho em Portugal: eles deixam este trabalho por um período de 1,2,3 meses e depois voltam a retomá-lo. Constatamos a presença de agências espanholas que fornecem às empresas sazonais provenientes da América do Sul.
· Regiões de origem: Norte e centro de Portugal, são muito poucos os sazonais que vêm do sul do país
2) Evolução do número dos sazonais de origem portuguesa.
Estável, ainda que observa-se uma pequena baixa em certas regiões ou em certos trabalhos, por exemplo: nos morangos na região de Lot et Garonne(47).
As razões dos sazonais não mais voltarem, seriam:
– Há trabalho em Portugal e o nível de vida melhorou.
– Menos horas de trabalho faz abaixar o salário mensal.
– Parece que os jovens não aceitam tão bem o trabalho na agricultura
– …
Sazonais de outras nacionalidades estão presentes e fazem concorrência: Malgrebinos, países do leste europeu e mesmo da América do sul via agências espanholas.
3.1- Nossas procurações e o que nos impressiona na vida dos sazonais.
3.1.1- A vida de família: os casais, por vezes, esperam muito tempo antes de ter o
primeiro filho, alguns vivem sem os seus filhos; os contactos com a família em Portugal tornam-se difíceis devido à distância. As condições de trabalho, do alojamento nem sempre favorecem o respeito da pessoa humana.
3.1.2- A vida, muitas vezes, está centralizada no ganhar dinheiro. Uma vez construída a casa em Portugal por vezes pensa-se em comprar uma em França. É o quanto mais se tem mais se deseja.
3.1.3- A fraca integração social provoca um certo aborrecimento, mas também um hábito de não fazer parte de um grupo social.
3.1.4- A aquisição de uma mentalidade de passagem, voltada para um futuro idealizado.
3.1.5- Por vezes a violência faz-se presente no casal.
3.2- Os sazonais portugueses conseguem viver, desabrochar toda sua riqueza em França?
– Eles têm necessidade da convivência, por isso deslocam-se e rendem visitas
mutuamente.
– Têm grande capacidade em adaptar-se a um novo trabalho, o que os ajuda no quadro profissional, provocando por vezes severas concorrências com seus colegas.
– No trabalho são muito estimados devido à seriedade com que o realizam.
– Segundo o seu temperamento eles mostram uma grande capacidade em adaptarem-se a novas situações.
– Eles apreendem uma nova língua, e conhecem um novo país.
– A conta no banco também aumenta.
– Manifestam uma grande solidariedade nos momentos de desgraça, infelicidade, desastre.
– O isolamento provoca facilmente o fechar-se em si mesmos.
– O ambiente social em que vivem (França) não favorece uma fácil integração.
4- Qual a sorte dos sazonais?
4.1- Alguns acabam por residir em França por quê?
– Há sempre uma preocupação frente ao futuro. O que vamos fazer e o que viremos a ser no dia do amanhã? Quando é que vamos deixar de trabalhar na França?
– Eles acabam por residir mais facilmente em França quando o trabalho é estável.
– Quando as crianças começaram ir à escola em França, torna-se mais difícil voltar a Portugal
– Quando o salário for melhor, como também as condições de vida.
– Quando o casamento se realiza em França
4.2- São eles membros activos na sociedade e na Igreja?
– Quando as crianças frequentam à escola eles seguem activamente a escolaridade.
– Há muitas associações portuguesas e muito activas.
– No trabalho assumem responsabilidades, tornam-se chefes de equipa e por vezes muito exigentes.
– Outros criam a sua própria empresa.
– Na Igreja pouco a pouco assumem responsabilidades.
– Assumem responsabilidades se alguém os estimulam. (integram)
– Os filhos frequentam o catecismo.
– Implicam-se muito para preparar a festa do 13 de maio. (Festa de Nossa Senhora de Fátima.)
– A comunidade cristã francesa não ajuda, não se preocupa perante a presença dos imigrantes e a forma de expressão não é tão viva como em Portugal.
– Uma grande questão é posta à Igreja em França, ela ainda não encontrou uma maneira de acolher e convidar os imigrantes.
4.3- Os residentes porque regressam a Portugal?
– São poucos os que voltam antes de ter a reforma.
– Regressam quando há grandes conflitos, grande decepção, algo que acontece na família.
4.4- Por quais razões os sazonais deixam de vir?
– Quando o objectivo foi alcançado.
– Quando as crianças alcançam a idade escolar.
– Outros dizem que não ganham o suficiente na França.
– Eles voltam para criar sua própria actividade em Portugal, outros para retomar o seu antigo trabalho.
5- Quais descobertas fazem eles na França?
– Conhecem um novo país.
– Encontram pessoas de outras nacionalidades
– Encontram-se com pessoas muçulmanas.
– O papel da mulher é diferente.
– Descobrem o sentimento de ser estrangeiro
– Aprendem uma outra maneira de trabalhar
– Tomam consciência de serem explorados
– Descobrem a legislação e os direitos sociais;
– “Consegui um futuro para mim que nunca tinha imaginado.”
– Uma Igreja que os desencaminha e também uma outra forma de Igreja.
5.1- O que desejaríamos, para eles em Portugal, a nível de sociedade?
– Uma pergunta: Na França eles adqueriram uma “mentalidade de passagem”, de retorno ao país eles retomam o seu lugar na sociedade? É possível fazê-lo?
– Que uma Europa social se concretiza pouco a pouco.
5.2- O que desejaríamos para eles, em Portugal, da parte da Igreja?
– Que a Igreja possa encontrá-los para que sejam membros activos, particularmente
naquilo que descobriram com a imigração.
– Que suas descobertas, mas também suas privações sejam valorizadas.
– Que haja encontros com outros sazonais para que possam falar e aprofundar aquilo que viveram. Os Sazonais vivem anos com a preocupação principal, de ganhar dinheiro, seria importante interrogarem-se junto a eles: O que é a pessoa humana? Qual o sentido da nossa vida?…
– As comunidades cristãs, em França não se preocupam com os sazonais. Se a situação é idêntica a Portugal, devemos interrogar-nos sobre a abertura da Igreja, das nossas comunidades, sobre aqueles que passam e que partem.
6.- Quais descobertas nós fizemos, ao estar próximos dos sazonais portugueses?
Trabalhadores que não estão preparados a viverem acções colectivas.
– Pessoas muito discretas.
– Nossa forma de Igreja é feita para pessoas estáveis, e não para pessoas que se movem.(imigrantes) E ainda mais, a passagem de Portugal, país cristão, para a França país leigo e secularizado não é nada fácil.
– Esta gente vive uma grande parte da sua vida secretamente: Não revela tudo aquilo que se pode viver de dificuldades, todas as questões complicadas que ocupam os espíritos. A imigração deve ser um êxito.
– É necessário muito tempo partilhado com eles para que se instalem boas relações e para que cresça a amizade.
– Nós temos uma dimensão Europeia de Igreja a descobrir, a inventar…
Paris 11/07/2002