Irmãos e Irmãs Peregrinos
Irmãos e Irmãs Emigrantes
1.Vós, irmãos peregrinos e emigrantes, trazeis convosco a recordação de longos caminhos, feitos de sonho e de aventura na procura de uma vida digna e de um trabalho honesto.
Vós, irmãos peregrinos e emigrantes, sabeis valorizar os lugares de serenidade e de tranquilidade e os momentos de silêncio e de oração, necessários para a vida!
Quem caminha precisa de lugares de pausa no caminho.
Quem mais longe quer chegar, necessita de descansar para avançar. Quem deseja atingir a meta, agradece sempre os momentos de repouso que lhe dão forças novas para o caminho.
Quem já vê, no horizonte o Santuário, sente antecipadamente a bênção de aí chegar.
Venho aqui, também eu, como peregrino com alma de emigrante para rezar convosco e por vós!
Estamos no Santuário da Cova da Iria, neste chão sagrado onde Nossa Senhora se manifestou aos três pastorinhos: Lúcia, Jacinta e Francisco. Viemos de longe no tempo e percorremos demoradas distâncias desde as nossas terras de origem, donde partimos, e desde os países de emigração, onde viveis. Este Santuário é Casa que nos acolhe, independentemente da nossa origem, idade, cultura ou língua. Aqui está erguida a Mesa comum de família, transformada em altar do mundo. Por aqui passa todos os anos o caminho dos emigrantes que de Portugal partiram e dos imigrantes que a Portugal chegaram.
2.A primeira leitura do livro do Deuteronómio oferece-nos conselhos oportunos e dá-nos ordens imperativas da parte do Senhor, Deus de Israel. O autor deste texto recorda ao povo de Israel as leis que devem guiar a sua vida de povo com coração e de nação com memória. Israel foi povo emigrante no Egito. Foi estrangeiro e foi escravo, a quem Deus libertou. Nunca deve esquecer esta condição de vida que decidiu o seu caminho ao longo da história!
Não pode ignorar o dever de cuidar dos estrangeiros com justiça e de os acolher com largueza de coração (Dt 24, 17-22). S. Paulo na carta aos Romanos, que ouvimos na segunda leitura, concretiza esta forma de acolher o estrangeiro e convida os cristãos a uma hospitalidade fundada na caridade fraterna (Rom 12, 9-16).
À luz da fé e por mandato de Cristo não pode haver estrangeiros entre nós. Somos irmãos, à luz do mandamento novo do Evangelho, que nos manda “amar o Senhor, nosso Deus sobre todas as coisas, com todo o nosso coração, com toda a alma, com todas as forças e com todo o entendimento e ao próximo como a nós mesmos” (Lc 10, 25-37).
A exemplo do samaritano do Evangelho, devemos, também nós, ser acolhedores, hospitaleiros e cuidadores dos que vivem perto e dos que vêm de longe. Atentos aos vizinhos e aos de fora. O Evangelho de hoje convida-nos a olhar com o olhar de Deus o íntimo das pessoas e a ir ao encontro das novas periferias existenciais e sociais, habitadas por novos surtos de emigrantes que batem às portas, tantas vezes fechadas, da Europa e do Mundo.
O Evangelho diz-nos que a força do samaritano não está no conhecimento humano, não lhe vem da identidade pátria, não nasce do interesse momentâneo nem surge da expectativa de gratidão. A decisão do samaritano brota da inspiração divina e nasce da alma humana que se compadece diante de um irmão que sofre as agruras do caminho, porque foi vítima dos malfeitores. Esta é também a força da missão de cada um de nós. A força do cristão nasce de Jesus, que nos diz: “Vai e faz, tu também, o mesmo” ( Lc 10, 25-37).
3. Este desejo de viver assim motiva-nos e mobiliza-nos para a missão da Igreja. Foi assim que os pastorinhos entenderam a mensagem que Nossa Senhora lhes trouxe neste lugar. O Santuário de Fátima tem sido, ao longo destes 97 anos, escola do Evangelho, onde se aprende a hospitalidade, onde se vive a fraternidade, onde se experimenta a proximidade da fé, onde se afirma a força de Deus que anima tantas vidas, ajuda tantas famílias, alivia tantas dores e acalenta tantos sonhos.
Há horas na vida de emigração, em que só Deus nos pode ajudar e em que só Deus nos basta!
Há momentos na vida dos pobres em que mesmo aqueles que pensam estar a ajudar ofendem!
Compreendemos, por isso, que sejam os pobres aqueles que mais recorrem a Deus e mais precisam de encontrar verdadeiros irmãos.
Conheço, por experiência, o que é ser emigrante com os emigrantes. Sei o que significa ser filho e neto de emigrantes e perder o pai lá longe no Brasil, de onde nunca regressara, mas que nunca nos faltara à minha mãe e a mim com o carinho do seu amor, com a palavra escrita dos seus conselhos e com a ajuda imprescindível do fruto do seu trabalho, realizado em prolongadas horas de todos os dias, por amor da esposa e do filho. Hoje estamos aqui e trazemos connosco a história da nossa vida, para a colocarmos no Coração da Mãe, a Senhora vestida de branco, que inundou de luz o coração dos Pastorinhos.
Nesta noite santa, a chama das nossas velas transformou este Santuário num oceano imenso de luz, de bênção e de paz. Encontramos neste Santuário a graça da alegria e da paz e a bênção da hospitalidade e da fraternidade. Abrir-se-ão, a partir daqui, caminhos novos rumo a um mundo melhor, como nos propõe o lema desta 42.ª Semana Nacional das Migrações. A história do mundo nunca se fará à margem da emigração e sem os emigrantes, nem o futuro da Humanidade se poderá pensar contra os emigrantes. A Igreja tem, também, esta missão: lembrar ao mundo e a cada povo que trazemos em nós as marcas de povos estrangeiros e transportamos connosco as dores e os valores, as lágrimas e os êxitos, os testemunhos de vida e de trabalho e a memória da coragem e da fé dos emigrantes.
4. Rezemos todos juntos por esta missão da Igreja, para que seja sempre missão vivida e realizada a favor dos pobres, dos estrangeiros, dos exilados, dos refugiados, das vítimas de tráfico humano.
Rezemos pelos que vivem longe da paz e da pátria, pelos que procuram o bem e a justiça e pelos que anseiam pela liberdade e pela fraternidade. Pertence-nos fazer nossa, esta urgente missão da Igreja!
Estamos nestes dias particularmente unidos ao Papa Francisco, que amanhã vai iniciar a viagem apostólica à Coreia, noutro horizonte da mesma missão, para aí levar também a alegria do Evangelho.
Queremos e devemos rezar, aqui, pelos cristãos perseguidos do Iraque, da Nigéria e da Índia.
Queremos e devemos rezar com acrescida comunhão pela Palestina, pela Síria, pela Ucrânia e Israel e por todos os países e povos onde a paz demora tanto a chegar!
5. Que Nossa Senhora de Fátima e os Beatos Francisco e Jacinta nos ajudem nesta missão de fraternidade e de paz e nos acompanhem neste caminho de serviço aos emigrantes e neste sonho rumo a um mundo melhor! Ámen!
Santuário de Fátima, 12 de agosto de 2014 António Francisco dos Santos, bispo do Porto