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Saúdo os ouvintes da Rádio Pax neste início de dia e de semana e peço-lhes uns minutos para me ouvirem falar de alguns assuntos que ocuparam a mente do bispo de Beja nos últimos dias. Talvez não sejam os mesmos que preocupam a grande maioria das pessoas, mas é sempre bom partilharmos uns com os outros, para aliviarmos um pouco do peso das nossas aflições.


Irei tocar o tema da semana de oração pela unidade dos cristãos, que, de 18 a 25 de Janeiro, todos os anos se faz pelo mundo fora e que, ontem, dia 25, festa da conversão de S. Paulo, encerrou.


Desde há 101 anos que as igrejas cristãs evangélicas ou protestantes, actualmente associadas no Conselho Mundial das Igrejas, organizam uma semana ou oitavário de oração pela unidade dos cristãos, seguidores de Jesus Cristo e do Evangelho, mas divididos em comunidades e Igrejas diferentes, por vezes até rivais. Em 1968, na sequência do Concílio Vaticano II, também a Igreja Católica se associou a este oitavário de oração pela unidade e, desde então, elaboram em conjunto um guião para todos os dias desta semana e, em algumas partes, realizam encontros de reflexão e de oração com representantes de outras Igrejas cristãs ligadas ao movimento ecuménico, isto é, ao movimento de diálgo intereclesial em ordem a promover o conhecimento, a colaboração e a união entre os cristãos.


Na realidade, os cristãos sabem que a vontade de Cristo é que sejamos e vivamos unidos, para que o mundo acredite que há um só Deus e um só Jesus Cristo, que deseja salvar a todos. Foi assim que Cristo, na oração da última ceia, quando se despedia dos seus apóstolos, disse e rezou a Deus Pai. Antevendo as divisões entre os seus discípulos, pelos mais diversos motivos, Cristo rezou para que todos fossem unidos como Ele o era com o Pai.


Ao longo da história dos seguidores de Cristo foram surgindo divergências entre pessoas e grupos e algumas delas cristalizaram em comunidades e Igrejas separadas. Algumas divisões, logo nos primeiros séculos, foram ultrapassadas com o tempo ou através de diálogo, normalmente atingindo um consenso em decisões de concílios ecuménicos, a começar pelo primeiro em Jerusalém, no início da segunda metade do século I.


Uma grande divisão, que perdura ainda hoje, foi a da separação da Igreja oriental e latina, no início do segundo milénio. A assim chamada Igreja Ortodoxa, presente sobretudo nos países eslavos, manteve-se viva mesmo debaixo do comunismo ateu e conta muitos milhões de membros.


No século XVI deu-se na Igreja do Ocidente a chamada reforma protestante, a partir de Martinho Lutero e outros, que, pela sua maneira de ler a Bíblia e de se organizar, deu origem a muitas outras Igrejas denominadas evangélicas, espalhadas por todo o mundo ocidental e com muita expressão nos países anglo-saxónicos, mesmo na vida pública. Por isso não é de admirar que a Rainha da Inglaterra e o Presidente dos Estados Unidos tomem possem com um juramento sobre a Bíblia e com uma oração formulada por um ministro da Igreja a que pertence o empossado, como aconteceu no dia 20, na tomada de posse de Barack Obama.


Mas, com certeza, esta divisão não é vontade de Cristo e não há vários Cristos, mas sim diferentes visões da sua pessoa e mensagem. Isto reconhecem todos e por isso se juntam para rezar pela unidade, sem querer impô-la aos outros, como se a culpa fosse deles e não também nossa. Todos temos experiência que a unidade, a comunhão e o amor só podem surgir na liberdade das pessoas e a verdadeira liberdade tem de ser interior e exterior. Cristo só quer adoradores em espírito e verdade. É a verdade que nos liberta e libertará. Neste sentido, temos de implorar o reconhecimento da verdade e a vontade de a acolher e seguir, para construirmos a comunhão e a unidade de todos os que acreditam em Cristo.


A Igreja é necessária, pois precisamos da comunidade para nos formarmos e construirmos a comunhão. A divisão em várias Igrejas não favorece a comunhão. Por isso temos de continuar a orar, para que nos seja concedido o dom da comunhão e da unidade, para que o mundo acredite n’Aquele que veio para salvar e não para condenar. É de perdão, de reconciliação e de amor que a humanidade precisa, para enfrentar os graves problemas da luta pela vida e ajudar os menos capacitados, para que ninguém fique para trás ou alguém julgue ser o senhor da criação. Se todos os que se dizem cristãos seguissem unidos o Evangelho, o mundo seria muito diferente. Os grandes problemas encontrariam rápida solução, pois quase metade da humanidade diz-se cristã.


Com estas reflexões me despeço dos ouvintes da Rádio Pax, pedindo-lhes para nos seus locais de trabalho e na família serem fautores de comunhão e de paz, pois aí começa o caminho para a unidade. Até para a semana, se Deus quiser.


António Vitalino, Bispo de Beja