Há transformações silenciosas que fazem o seu caminho em nós, que se infiltram, e deixam indeléveis marcas da sua passagem.
Assim é a passagem de Deus por nós. Deus acontece-nos na passagem, mostra-se ao nosso presente nos múltiplos trânsitos do existir.Há um poema de Alberto Caeiro que, creio, problematiza isso:
“Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!”
Caeiro cria uma espécie de dialéctica entre a ave e o animal que avança sobre a terra. O deixar rasto é prolongar uma marca no chão, um vestígio fixo, imóvel, que já não serve, porque só lembra o que foi; e, como ele explica, “a recordação é uma traição”. Prende-nos a um determinado momento do passado e impede-nos de perceber que a verdadeira compreensão é a dinâmica da ponte, o fluir permanente que não se interrompe, a vida de margem para margem.
O escritor Italo Calvino, nas suas “Seis propostas para o próximo milénio”, num conjunto de conferências que funcionam como o seu testamento cultural e espiritual, diz que o primeiro valor que teremos de redescobrir no próximo milénio (este precisamente em que estamos), é o valor da leveza.
E a leveza para ele é a possibilidade de deslocar-se, procurando outro ponto de observação.
É considerar o mundo sob outro ângulo, buscando meios alternativos de conhecimento. E Calvino cita Paul Válery num verso que traz muita luz:
“Ser leve como um pássaro, mas não leve como uma pluma”. Não se trata de ligeireza ou superficialidade. Este “viver entre” não é um truque para, no fundo, não estar em parte nenhuma, não ser de nenhum lado, nem se comprometer com nenhum aspecto da realidade. Ser leve não é ser pluma. Ser leve é ser como o pássaro que vive na passagem, que vive o esforço e a fadiga de ser, no próprio acto de passar.
Esta deslocação, para nós crentes, é a condição de peregrinos e buscadores. Deus só o acolhemos num viver que é ele próprio ‘passagem’.
artigo de opinião, in Página 1. Jornal online de 14/07/2011