A liturgia da Igreja, desde os tempos mais remotos, sempre treinou incansavelmente os seus fiéis para a “santificação” do amanhecer, do acontecer, do anoitecer, do adormecer, do morrer e do viver.
Chega até a chamar-lhe a “Liturgia das Horas”. Liturgia esta que é proposta de modo particular a todos aqueles que se consagram ao serviço do Reino nos muitos ministérios que co-existem na Igreja.
Fazer de cada hora, de cada estação do ano, de cada mudança louvor, adoração e súplica inquieta ao Deus Criador, ao Sol que põe a nú as trevas da noite, é continuar a tradição dos salmistas da Bíblia. É continuar o caminho de tantos peregrinos da oração, do trabalho e da caridade. Horas de alegria e de tristeza, horas de luta e de resignação, horas de luz e de obscuridade…
Na Bíblia o tempo histórico constrói-se como catedral do Deus da tenda e do exílio doloroso do seu povo. A cronologia torna-se tribulação e luta! A ilacção que colhemos é que Deus prefere o tempo ao espaço como lugar da sua teofania!
Neste mês de Dezembro anda tudo e todos numa grande azáfama. O “bug 2000” tornou-se a grande aventura e o grande negócio. O fim do mundo é identificado com o fim do milénio. Os astros entraram em rota de colisão e, se calhar, é desta vez que vai acontecer a chuva de estrelas, desde há muito prometida. A campanha mediática recorda-nos com insistência de que aqueles minutos podem tornar-se fatais. Na verdade, pode ser um fado difícil de cantar…
E eu interrogo-me: mas afinal chegou ou não a hora do novo milénio? Atravessamos ou não a fronteira do tempo? Ano 2000, princípio do fim ou fim do princípio?
Dizem, sobretudo, algumas agências turísticas, que a “passagem” está aí e trará algo de excitante, de cósmico, de mágico, de divino e que, por isso, quanto mais exótico e frenético fôr o lugar escolhido, mais o milénio marcará a nossa vida.
Outros, mais entendidos, dizem que não haverá nenhuma passagem pois já ultrapassamos o limiar do novo milénio, e a emoção ficou anónima. Poucos se aperceberam do primeiro minuto do milénio.
Enfim, para quem (eu e tu!) faz do tempo uma acção de graças ao Deus que Se incarnou no tempo e do tempo ressuscitou, todo o dia, ano, século, milénio é “sinal” e “lugar” do encontro com Ele. Para nós, cristãos, todos os adventos levam à pobreza e à simplicidade do mistério do Deus feito homem acontecido em Belém! Todos os êxodos, por mais trágicos que sejam, conduzem à libertação pascal do morto que ressuscita! Para nós, cristãos que nos inspiramos à dinâmica da Acção Católica, todos os minutos de ver, julgar e agir, quer a nível pessoal quer em grupo, à luz do Evangelho preparam na história dos homens, aquela “hora” em que Jesus virá na sua glória para julgar com o Amor do Pai toda a criação.
De facto, a sucessão do tempo e da história é mais uma Sua criatura porque nela Ele guia, ama, liberta e abraça o seu povo.
Na fé recordar é comemorar e comemorar é reviver. A memória é actualização da vivência onde a realidade comunga da utopia e o passado se enxerta no futuro. Somos o povo de Deus que anseia pela justiça social, pela paz, pela igualdade de oportunidades entre todos os povos e pessoas, por um mundo reconciliado, por uma economia de comunhão. Ser povo é sofrer com quem sofre, é alegrar-se com quem está alegre, é perder-se com quem está perdido. Será como consciência de um Povo peregrino e Povo liberto que terá sentido a celebração do Grande Jubileu que a Igreja muito timidamente tem vindo a preparar desde há três anos.
Grande Jubileu da Incarnação 2000, sim!, mas para sair dos adros das igrejas; para transpor as portas santas de dentro para fora proclamando Jesus Cristo; para cansar os pés em romarias aos “santuários” onde hoje os homens sofrem a violação dos seus direitos; para sermos indulgentes uns com os outros na comunidade; para purificarmos a memória pedindo perdão ao Mundo; para exaltarmos a memória de todos aqueles que fizeram do baptismo um estilo de vida liberta e libertadora para os seus irmãos no silêncio de um lar, de uma fábrica, de uma paróquia, de um leito.
Grande Jubileu 2000, sim! para continuarmos em Igreja a praticar a misericórdia, o ecumenismo e a reconciliação, como nos continua a repetir o Santo Padre, da maneira a apressarmos a vinda do Reino messiânico na vida do dia-a-dia e nas estruturas socio-políticas do nosso mundo.
Rui Pedro