CIDADE DO MÉXICO, sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009 (ZENIT. Org. El Observador).
– As numerosas famílias migrantes de países católicos que buscam em outras nações um futuro melhor constituem uma oportunidade missionária extraordinária para anunciar a mensagem do Evangelho em sociedades nas quais está ausente, considera um representante da Santa Sé.
O arcebispo Agostino Marchetto, secretário do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes, comenta em exclusiva para Zenit-El Observador, dentro do VI Encontro Mundial da Família que se realiza no México, a oportunidade histórica que se abre diante da Igreja no mundo globalizado.
Dom Marchetto, de 68 anos, fala por experiência, pois foi núncio em Madagáscar, Ilhas Maurício, Tanzânia (Belarus), e colaborou com o Papa na Secretaria de Estado. É também um dos maiores especialistas do mundo sobre o Concílio Vaticano II, ao qual dedicou um livro de referência.
Colaborou com João Paulo II e Bento XVI como secretário do conselho Vaticano desde 2001.
– Em sua conferência, o senhor mostrou como o migrante é um potencial missionário, capaz de compartilhar sua fé nos lugares onde chega. Isso não é algo utópico?
– Dom Agostino Marchetto: Os migrantes estão levando a um mundo secularizado um brotar de fé, esperança e caridade. Muitas Igrejas na Europa, por exemplo, se alegram com a presença dos migrantes, porque é vida que chega. Têm uma fé que na Europa não é tão forte, não tão calorosa e é verdade que o génio cultural dos migrantes ajuda nas celebrações. Eu sou testemunha desta capacidade que eles têm de dar vida às nossas comunidades, de ser testemunhas do Evangelho, testemunhas de Jesus Cristo.
– Contudo, o que para as comunidades receptoras, no âmbito da fé, é um lucro, para as famílias do migrante, as que ficam em seus povos, este movimento entranha uma perda. Inclusive no próprio campo da fé, muitos migrantes acabam renunciando a ela e adoptando outra.
– Dom Agostino Marchetto: É uma das grandes questões que a migração acarreta, a dissolução das famílias; em muitos casos, é uma grande lástima. Deve-se dizer que esta convicção de perda estava presente na Igreja desde o início do século passado, por isso a Igreja não animava a ir como migrantes ao exterior.
É verdade que a migração é um fenómeno estrutural e que não se pode anular este movimento, que é parte do mundo de hoje, das necessidades económicas dos países que têm uma velhice bastante notável. Há que fazer todo o possível para evitar o dano e aproveitar o que se possa por obter coisas boas deste fenómeno.
– No mundo das migrações, os Estados Unidos representam um paradigma. Como o senhor contempla esta realidade?
– Dom Agostino Marchetto: Devemos dizer que nos Estados Unidos a migração é um fenómeno muito grande e que o fenómeno também tem aspectos de irregularidade; por esta razão, compreendo que os governantes dos Estados Unidos têm dificuldades diante deste fenómeno. Espero vivamente que a entrada do novo presidente, pela maneira em que encarou este problema no passado, possa levar a uma compreensão da situação de milhões de migrantes irregulares e especialmente no trato que se deve ter com eles, no respeito de seus direitos humanos e também no que diz respeito aos lugares onde são detidos, a fim de que haja possibilidade de visitá-los. É necessário atenção pelos menores, que não podem ser tratados como os adultos, assim como pelas mães que têm filhos pequenos. Toda esta questão de direitos tem de ser pensada nos efeitos anti-humanos que acarreta.
– O que o senhor opina sobre a actuação dos bispos dos Estados Unidos e do México frente à migração?
– Dom Agostino Marchetto: Elogio os bispos dos Estados Unidos por suas atitudes muito valentes em relação a este fenómeno e também aos bispos mexicanos por todo o diálogo que promoveram entre eles para encarar esta realidade da melhor maneira, do ponto de vista eclesial.
Como comunidade cristã, temos a instrução Erga migrantes caritas Christi, que é uma guia que pode ajudar a compreender muitas coisas referentes à migração e a dar ânimo às igrejas locais para que façam o que devem fazer em relação à defesa dos migrantes e de seu cuidado pastoral.