No Luxemburgo para participar na peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima de Wiltz, D. António Vitalino, Bispo de Beja, está consciente dos riscos de “criar uma Igreja à parte”.
No Luxemburgo para participar na XXXVIII Peregrinação Nacional a Wiltz, o Bispo de Beja falou com o jornalista Domingos Martins, do Jornal local “CONTACTO” sobre o papel da Igreja lusa no estrangeiro, o aborto e o futuro da Europa.
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CONTACTO: Teve um encontro com o Arcebispo do Luxemburgo. Quais os temas discutidos nessa reunião?
D. António Vitalino: Não vim aqui para resolver problemas difíceis, vim convidado por ele para presidir à peregrinação anual ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Wiltz. Convidou-me também para estar presente, este ano, na festa da cidade, mas não pude aceitar porque já estava comprometido com Paris. Falamos sobre as missões portuguesas, se estão a correr bem, e agradecer a atenção que ele tem para com os portugueses e os agentes pastorais.
CONTACTO: E sobre as Missões Portuguesas, o que é que falaram?
D. António Vitalino: É um trabalho muito estruturado porque já existe há muitos anos, desde os anos 70. Hoje em dia, como não temos muito clero disponível e com carisma para trabalhar nas migrações, cada bispo, na sua diocese, é responsável pela pastoral, pelo acolhimento dos estrangeiros e por lhes dar a ajuda que eles precisam e a que têm direito, porque são baptizados e cristãos. O trabalho pastoral e a ajuda às comunidades portuguesas está muito bem estruturado. Nos locais onde há uma maior concentração de portugueses, aí há uma presença da pastoral de língua portuguesa que tem ajudado muito os emigrantes. Além disso, os missionários, e estas estruturas pastorais, não são estruturas pastorais no sentido paroquial, mas missionário, quer dizer que utilizam às vezes várias igrejas, deslocam-se e o povo também se desloca.
CONTACTO: E o Arcebispo do Luxemburgo, reconhece a importância desta pastoral?
D. António Vitalino: Ele está muito grato e até ficou muito contente por termos encontrado um padre português que viesse substituir o padre Belmiro que esteve doente e atingiu uma certa idade; e ter conseguido um padre que veio dar continuidade a este trabalho, porque se ele não quisesse poderia dizer: “Pronto, agora os portugueses estão aqui, muitos deles pelo menos em francês já se conseguem integrar na paróquia local e na diocese, então têm que se integrar nas comunidades em que residem”, e isso não aconteceu.
O PERIGO DE UMA IGREJA À PARTE
CONTACTO: Mas a ajuda aos emigrantes portugueses poderia ser feita pela Igreja do Luxemburgo?
D. António Vitalino: Sim, e muitas vezes é feito, mas eles também não têm agentes preparados para ajudar estas pessoas de origens diversas, de cultura diversa e de língua diversa, a exprimir a sua fé e a integrar-se.
CONTACTO: Há muitas missões no Luxemburgo e as comunidades vivem muito à volta das suas missões. Será que não se pode perder o sentido de Igreja?
D. António Vitalino: Hoje de manhã disse aos agentes pastorais que nós temos de dar passos para não ficarmos eternamente uma comunidade à parte. Somos uma comunidade de transição, temos a primeira e a segunda geração que precisa do nosso apoio, mas há uma segunda ou terceira geração, aqueles que já nasceram aqui, cujas famílias ainda estão muito ligadas à cultura e à língua portuguesa, mas eles mesmos já estão muito metidos na cultura e na língua do Luxemburgo. Aí, se os pais têm fé, tem de os ajudar, a eles, a exprimir a sua fé, na cultura em que estão inseridos. Há uma transição. Há o perigo, e eu tenho advertido muito para esse perigo, de que as comunidades tradicionais das missões se fechem em si mesmas, mas aqui pelo que vejo estão a desenvolver muitas acções de colaboração, quer ao nível dos agentes pastorais, quer a nível dos conselhos inter-comunitários, quer depois ao nível de algumas acções durante o ano, por exemplo os Crismas, que são em conjunto.
CONTACTO: Mas ainda vêm Bispos de Portugal para crismar os filhos dos portugueses?
D. António Vitalino: Vinham, e eu no ano 2000 vim, mas não foi de propósito para o Crisma. É certo que há países onde os padres não são pontífices, não são pontes com a Igreja local, ficam numa Igreja à parte.
CONTACTO: Mas, reconhece que há este perigo, de as missões se constituírem uma Igreja à parte?
D. António Vitalino: Reconheço que há, e existe, e em vários países, é uma realidade. No Luxemburgo, o peso das Missões é cada vez menor, dado que esta segunda e terceira geração já está a integrar-se nas comunidades locais, e esses, se nós estivermos atentos, os missionários portugueses, iremos ajudá-los a que eles realmente se integrem. O nosso objectivo não é ter uma Igreja de língua portuguesa no estrangeiro, mas ter uma Igreja Católica formada de povos de muitas procedências. Isso é que é o milagre do Pentecostes, não é? E é isso é que tem de acontecer, porque enquanto não acontecer, somos comunidades intermediárias e não podemos achar que somos a Jerusalém Celeste.
PROBLEMAS EM PARIS
CONTACTO: Mas há um pormenor que acaba por ser incompreensível: as crianças portuguesas vão à escola Luxemburguesa, aprendem o luxemburguês, mas depois vão à catequese da missão portuguesa.
D. António Vitalino: Penso que aí tem que ser feito alguma coisa. O normal é que a criança, se é crismada na comunidade local, tenha a sua preparação na comunidade local. Não há conflito nenhum com a Igreja do Luxemburgo, ao contrário do que existe aqui e acolá. Às vezes, há alguma incompreensão, quer da parte dos portugueses ou do Bispo, ou dos seus serviços, e então nestes casos é preciso fazer um trabalho de articulação entre a comunidade portuguesa emigrante e a Igreja local, como fiz agora em Paris.
CONTACTO: Quais são os problemas e Paris?
D. António Vitalino: Paris é a segunda cidade de Portugal, em tenção a isso os portugueses quase que exigem paróquias portuguesas. Num caso ou noutro, como foi o caso da comunidade de Gentilly, o próprio embaixador teve de intervir para que houvesse paz Neste caso, temos de dialogar com o Bispo, e é nesse sentido que a Comissão Episcopal se põe à disposição para arranjar uma soluções intermédia, porque soluções definitivas cada vez vai haver menos, como houve em tempos na América, em que fundaram paróquias portuguesas com estruturas paroquiais como se estivessem
EUROPA DE RAÍZES CRISTÃS
CONTACTO: Qual é a mensagem que quer deixar aos milhares de portugueses que vivem aqui no Luxemburgo? Como é que na sociedade actual se pode ainda ser testemunha da fé cristã?
D. António Vitalino: Se os cristãos se demitem do seu testemunho de fé na família, na sociedade, mesmo que sejam poucos, se cada um se demite, então voltamos ao paganismo, e com certeza sabemos que uma mentalidade pagã, em que o que interessa é o bem-estar, a economia e os prazeres do mundo, essa comunidade, a começar pela família, auto-destrói-se, e ao auto-destruir- se quer dizer que está a contribuir para a não construção do Reino de Jesus Cristo. Estamos a destruir a possibilidade de legar um futuro à sociedade e por isso estamos a ser uns traidores à nossa fé e à sociedade. O Papa toca muito nas raízes cristãs da Europa, mas não se trata de ter lá o nome de cristãos, mas trata-se de que as raízes estejam vivas.
CONTACTO: A chanceler alemã, Angela Merkel, já excluiu a possibilidade de o futuro tratado constitucional da União Européia ter qualquer referência a essas raízes…
D. António Vitalino: Mas a declaração de Robert Schuman não fala das raízes cristãs da Europa, mas fala dos valores cristãos, para que a guerra desapareça das relações entre as nações, para que se construa uma sociedade mais solidária. Tudo isso são princípios evangélicos, os princípios das Bem-Aventuranças. E isso é que nos interessa que seja afirmado, porque se trata de uma Constituição que não deve afirmar ideologias, mas valores e princípios operativos para a construção da Europa, de uma Europa mais unida, com diversas culturas, mas em que há coisas que unem as pessoas, que evitam a guerra, que tornam o progresso mais solidário. Isso é que interessa, na minha opinião.
CONTACTO: Percebo então que não fica chocado pelo facto de a futura constituição não fazer qualquer referência às raízes cristãs da Europa?
D. António Vitalino: Não, desde que refira esses valores que podem dar autenticidade à construção da Europa da reconciliação, da solidariedade, tudo isso, é o essencial.
PORTUGAL TERRA DE MISSÃO
CONTACTO: Portugal votou um referendo ao aborto, o “sim” ganhou. O que é que isto quer dizer?
D. António Vitalino: Portugal, como o resto da Europa e do Mundo, está a deixar-se levar por princípios que não são evangélicos, cristãos.
CONTACTO: Portugal já não é um país cristão?
D. António Vitalino: Pelo menos a nível social, e ao nível da chamada inteligência dominante, dos que fazem opinião nos meios de comunicação, em grande percentagem, não é. É um Mundo global que opta por determinadas linhas e que se esquece de valores que para nós são essenciais. A nossa missão como cristãos é saber viver nessa sociedade sem prescindir dos nossos valores, e mesmo aqueles que não os querem proteger através das leis, também a esses temos de fazer ver que a pouco e pouco estão a fazer mal a si mesmos. No caso do aborto, é uma família que se está a destruir. Na votação ainda houve quase metade da população que disse “não” e também houve muitos que ficaram indecisos e não votaram. A sociedade portuguesa não está perdida, embora a legislação portuguesa esteja a ir por caminhos que podem ser perigosos para o futuro.
CONTACTO: Como avalia os dois anos de pontificado do ex-cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI?
D. António Vitalino: Sou frade e sempre acreditei no Espírito Santo, e aquilo a que a gente chama a “graça de estado”. Quando na Igreja somos chamados a exercer uma missão, parece que antes não éramos capazes. No meu caso, quando fui ordenado padre, fiquei com medo de algumas coisas, e as que eu achava muito duras, mais difíceis e que me metiam medo, agora são aquelas que me dão mais alegria como padre e como Bispo. É isso que eu chamo “a graça de estado”. Penso que este Papa tem tido o Espírito Santo, a “graça de estado” para continuar a exercer a missão de Pedro na Igreja.
CONTACTO: É um Papa deste tempo?
D. António Vitalino: É um Papa que tem surpreendido muitas vezes pela positiva porque não se esperava que ele mantivesse a sua identidade e soubesse no momento oportuno dizer aquilo que a Igreja precisa. Eu estou gratamente surpreendido pela missão deste Papa. Não podemos compará-lo com João Paulo II, porque são pessoas diferentes, mas a muitos níveis este Papa tem tocado outras pessoas que o anterior Papa não tocava. Até mesmo os jovens, que pareciam mais fascinados pela personalidade de João Paulo II, continuam a correr atrás do Papa. E há aqui qualquer coisa que não é do cardeal Ratzinger, mas que é do Espírito Santo. E é nisso que eu acredito. O Papa não quer copiar ninguém mas deixa-se conduzir pelo Espírito Santo.
Acho que temos um grande Papa e apesar da idade que tem, está, a saber, tomar as atitudes, posições e a escrever, embora sem ser grandes tratados ex-catedra. O melhor exemplo é este seu último livro “Jesus de Nazaré”, é de uma reflexão espiritual muito profunda e que nos ajuda anos como bispos a seguir o nosso caminho.
CONTACTO: Já se sabe quando é que ele vai a Portugal?
D. António Vitalino: Este ano parece-me impossível. Vamos nós lá. Em Novembro, os bispos portugueses têm a visita ad-Limina com o Papa. Durante dez dias, vamos reunir com o Pontífice e com os vários dicastérios, conselhos da Santa Sé. Cada Bispo de Portugal terá um encontro individual com o Papa Bento. Vamos ter uma refeição com ele, uma celebração na capela privada, haverá uma assembléia final com o Papa , em que habitualmente ele nos entrega uma mensagem final. Haverá vários momentos que são muito importantes. E nessa altura vamos convidá-lo a visitar Portugal.
Entrevista de Domingos Martins
23.05.2007