Irmãos e Irmãs peregrinos
Irmãos e Irmãs Emigrantes
1. O texto do Evangelho, agora proclamado, descreve-nos o ambiente da hora da paixão de Jesus e narra-nos em pormenor o que Jesus, sua Mãe e João, o discípulo, ali viveram. Da palavra de Jesus depreendemos a importância daquele momento e aprendemos o significado daquele gesto. Jesus quis confiar sua Mãe a João, o discípulo sempre presente. É, assim, como filhos e irmãos, que aqui estamos, hoje, também nós, protagonistas desta hora, como se a cada um de nós Jesus confiasse sua Mãe e nos entregasse a nós ao seu cuidado e ao seu desvelo de Mãe.
Este é o sentido maior desta peregrinação: confiarmo-nos à bênção e à proteção da Mãe de Jesus e levar a partir daqui Nossa Senhora connosco para nossas casas. Recordo o que um emigrante, natural daqui bem perto, meu paroquiano, em Paris, que ali vivia sem a família, me contou, há muitos anos. Ele foi a salto para França no início dos anos setenta. Passou dias e semanas de ansiedade e de medo, numa longa e arriscada viagem, guiado pelo desejo de encontrar um país que o acolhesse e um trabalho que garantisse um futuro digno para os seus filhos e para a sua esposa. Quando chegou a França, ali mesmo às portas de Paris, encontrou amigos e conterrâneos que o receberam em sua casa e lhe procuraram trabalho. Ao abrir a mala, que levara de Portugal, descobriu, no meio da roupa, que a esposa preparara, uma imagem de Nossa Senhora com esta mensagem: “Guarda contigo esta imagem, porque onde Nossa Senhora estiver também aí estamos nós: os teus filhos e eu”. Esta certeza de fé, assim convictamente afirmada pela esposa, ajudara este homem bom a guardar íntegra a sua comunhão com a família e dava-lhe força diária para viver sereno, para estar confiante e para trabalhar com coragem, sabendo que da sua vida digna e do seu trabalho honesto dependiam a vida e o futuro da família.
2.Portugal é, desde há muitos séculos, nação de emigrantes e terra de imigrantes. Portugal deve assumir com alegria este desígnio da sua história e acolher com generosidade os novos imigrantes, que procuram o nosso país. Honra-nos este nosso passado, lido em chave de emigração. Recordamos hoje, na nossa oração, homens e mulheres emigrantes, protagonistas desta história. Não podemos ignorar nem deixar de lamentar as razões que levam hoje tantos portugueses, cheios de dons e de talentos, a sair de Portugal, porque aqui não encontram trabalho. A falta de trabalho desumaniza as pessoas e coloca em perigo o futuro de um País. Portugal não pode esquecer que sem os emigrantes de ontem não era o País que hoje é e sem os emigrantes de hoje não consegue vencer a crise que tem vivido. Recusar, por seu lado, a entrada a quem procura imigrar para viver em família com dignidade e para trabalhar com honestidade é um pecado! Ninguém pode roubar aos emigrantes o encanto do sonho e a alegria da esperança!
O primeiro passo da missão da Igreja no campo específico das migrações e da mobilidade humana consiste em perceber que este é um tempo novo e que habitamos uma terra nova, no coração de um mundo global (Is 11, 1-5). Queremos acreditar e devemos trabalhar para que esta seja também a hora da reconciliação entre as pessoas estrangeiras e da paz entre os povos desavindos, como nos dizia S. Paulo na segunda leitura (2 Cor 5, 17-21).
3. Ao olhar o enorme movimento migratório que caracteriza o nosso tempo e define o rumo da nossa história temos consciência de que o desejo de um futuro digno, justo e solidário esteve sempre presente no coração de quem emigra. Os emigrantes são embaixadores desta esperança e protagonistas da construção de um mundo melhor, com rosto humano, esculpido com as linhas cristãs da bondade, da hospitalidade, da universalidade e da fraternidade. Apesar das injustiças e das guerras que continuam a permitir ou mesmo a promover o tráfico das pessoas, a aniquilar os sonhos das crianças, a matar inocentes e a pôr em risco o futuro de tantos povos, os crentes são convidados, como nos exorta o Papa Francisco na Mensagem para a Jornada Mundial do Migrante de 2014 a “não perder a esperança de que lhe está reservado um futuro mais seguro e que nos caminhos da migração encontrarão sempre uma mão estendida que lhe fará experimentar a solidariedade fraterna e o calor da amizade” (cf. MJMM 2014). À Igreja não pertence decidir políticas de emigração mas incumbe-lhe alertar com coragem e determinação os governantes para as causas da justiça e para os valores do bem comum, em ordem a promover uma economia de rosto humano e solidário e um sistema financeiro assente na verdade. Esta solicitude pastoral concretiza-se na lucidez evangélica do magistério da Igreja e na disponibilidade dos sacerdotes e agentes de pastoral para partirem com os emigrantes para os países de destino. Esta solicitude pastoral manifesta-se igualmente na forma acolhedora das comunidades cristãs de origem neste tempo de férias e no regresso definitivo.
4. Se assim vivermos e trabalharmos na Igreja em Portugal estamos a “envolver a todos no amor de Deus pelo mundo”, como nos propõe o Santuário de Fátima no tema escolhido para este ano pastoral. Muitas têm sido ao longo dos séculos as transgressões à lei de Deus e grandes os pecados cometidos contra os nossos irmãos neste campo específico do reconhecimento do próximo, da hospitalidade dada aos estrangeiros, da busca da fraternidade, do respeito pela dignidade humana, da construção do bem comum e da promoção da justiça social. Também aqui sentimos ser de cada um de nós o pecado da Humanidade. E dizemos: “Perdoai-me, porque pequei” (cf Sl 51). Peçamos perdão por todas as vezes em que nos acomodamos e nos fechamos no nosso bem-estar, por todas as vezes em que se anestesiou o nosso coração! Mas mais do que julgar os erros do passado importa “despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que de mal aconteceu até aqui”, assim nos dizia o Papa Francisco na Eucaristia que celebrou em Lampedusa, na Itália, frente ao mar onde morreram centenas de emigrantes. O Papa Francisco agradeceu, naquele momento de dor e de gratidão, à Comunidade cristã de habitantes de Lampedusa e Linosa, às suas associações e aos voluntários pela atenção dada aos emigrantes e às pessoas em viagem, dizendo-lhes: “Sois uma realidade pequena mas ofereceis-nos um belo exemplo de solidariedade” (Homilia do Papa Francisco em Lampedusa, 8 de julho de 2013).
Também a história da emigração em Portugal e a ação pastoral da Igreja com os emigrantes se faz de pequenos gestos proféticos e de sinais visíveis que serviram para abrir caminhos novos, rumo a um mundo melhor na vida dos emigrantes. Quero, também eu, ser voz da Igreja para agradecer aos sacerdotes, aos consagrados (as), aos agentes de pastoral, às famílias, às comunidades e às missões católicas dispersas pelo mundo o bem realizado na vanguarda desta missão ao serviço dos emigrantes. Agradeço e louvo, igualmente, o trabalho feito pela Obra Católica Portuguesa das Migrações, pelos Secretariados Diocesanos da Mobilidade Humana e pelas Associações de Migrantes.
Que Deus a todos recompense! Tem esta Peregrinação a sugestiva particularidade de testemunhar a generosidade dos agricultores de Leiria e de Portugal que, cumprindo uma bela tradição, oferecem trigo dos seus campos, fruto da bondade de Deus e do trabalho humano, para aqui ser transformado, na Eucaristia, em Pão da Vida e Corpo de Cristo para a vida do Mundo. Rezamos por vós, irmãos e irmãs, e agradecemo-vos este gesto tão magnânimo e tão eloquente da vossa generosidade!
5. E agora com o olhar do coração voltado para a Mãe de Jesus, Senhora de Fátima, rezai comigo, irmãos e irmãs: Senhora de Fátima, sentimos a vossa presença na viagem diária da nossa vida, como peregrinos e emigrantes que somos. Sempre estivestes e estais connosco, a inspirar a nossa oração, a alimentar a nossa esperança e a vencer os nossos medos. Hoje, vimos a este Santuário, para Vos agradecer e para levar daqui ânimo novo, vontade firme, serenidade confiante e bênção necessária para continuarmos o caminho rumo a um mundo melhor. Senhora do Rosário de Fátima, abençoai Portugal! Protegei os peregrinos e os emigrantes, reunidos neste Santuário! Iluminai os caminhos de todos os que procuram Deus! Aliviai as dores dos que sofrem! Acolhei as lágrimas dos que choram! Dai a paz ao Mundo! Beatos Francisco e Jacinta, intercedei por nós! Ámen!
Santuário de Fátima, 13 de agosto de 2014
António Francisco dos Santos, bispo do Porto