Com assinatura de 5 de janeiro de 1965, o Papa Paulo VI confirmou num breve apostólico que Santa Joana é a “principal Padroeira junto de Deus para a Cidade e para toda a Diocese, com todas as honras anexas e privilégios litúrgicos que legalmente competem aos padroeiros principais dos lugares” (ver texto do breve nestas páginas). O Papa Montini, a pedido de D. Manuel de Almeida Trindade, confirmou o que já muitas pessoas sentiam e viviam, principalmente na cidade: a proteção da princesa Joana.
Influência involuntária de Napoleão
Pelo menos desde as invasões napoleónicas, na primeira década do séc. XIX, Joana era invocada como protetora de Aveiro. No dia 5 de agosto de 1808, o Bispo de Aveiro, que era então D. António José Cordeiro, refere-se pela primeira vez à “princesa Santa Joana como Protectora de Aveiro junto de Deus”. No documento que integra o “Livro das Pastorais dos Bispos de Aveiro”, que está no Museu de Aveiro, o prelado convocava os cristãos para uma procissão a realizar no dia 7 de agosto para “para rogar o auxílio divino em favor dos portuenses contra as tropas invasoras de Napoleão e também para desagravar os seus horríveis e sacrílegos desacatos e imoralidades”, segundo se lê no livro “Calendário Histórico de Aveiro”, de António Christo e João Gonçalves Gaspar (pág. 319). No dia 7 de agosto de 1808, a procissão decorreu com a imagem do “Ecce Homo” entre a Catedral (era então a Igreja da Misericórdia) e o Mosteiro de Jesus, onde se encontra o túmulo da princesa. O Bispo de Aveiro seguiu atrás do andor, caminhando descalço, sem as vestes pontificais, com uma corda ao pescoço.
No mês seguinte, no dia 8 de setembro, D. António José Cordeiro celebrou uma Missa Pontifical, seguida de procissão eucarística para a Igreja de Jesus, “onde se venera o corpo da Bem-aventurada Princesa de Portugal Santa Joana”, sendo aí cantado um solene Te-Deum em ação de graças a Deus pela derrota das tropas napoleónicas e pelo termo da primeira invasão francesa.
D. António José Cordeiro (segundo bispo de Aveiro, de 1800 a 1813) contribuiu para a devoção a Santa Joana mesmo antes da aflição das invasões francesas, pois no dia 29 de abril de 1807 ordenara que os eclesiásticos residentes em Aveiro tomassem parte na procissão anual. Tal decisão surgiu no seguimento de uma ordem do príncipe regente. D. João (futuro D. João VI), que em novembro de 1807 partiria para o Brasil com a família real para fugir à ameaça napoleónica, ordenara no dia 12 de fevereiro que a procissão de Santa Joana fosse considerada “real”, implicando a participação do Senado da Câmara de Aveiro.
Bispos impulsionadores da devoção
Após a restauração da Diocese, em 1938, os bispos de Aveiro promoveram a devoção a Santa Joana nas suas várias vertentes. Num artigo publicado no Correio do Vouga de 9 de abril de 1965, precisamente dando a notícia da confirmação papal de Santa Joana enquanto padroeira de Aveiro, D. Manuel de Almeida Trindade dá conta de algumas diligências dos seus antecessores: “D. João Evangelista de Lima Vidal (…) deu novo brilho à festa litúrgica da Santa Princesa, comemorando com luzimento, a que não só a Cidade mas, de algum modo, todo o país de associou, o V Centenário do nascimento da filha de D. Afonso V, ocorrido em maio de 1952” (…), e deu o nome da dominicana ao seminário inaugurado um ano antes. D. Domingos da Apresentação Fernandes tentou em 1959 que fosse concedido a Joana o título de padroeira de Aveiro e – prossegue D. Manuel – “deu novo impulso ao culto”, criando a “Associação de Pajens de Santa Joana” e retomando o processo de canonização.
Os restantes bispos continuaram a promoção do culto e do conhecimento de Santa Joana de diversos modos e em múltiplos momentos. D. Manuel de Almeida Trindade insistiu junto do Papa, em 1964, e conseguiu o título de padroeira, completam-se na segunda-feira 50 anos. Apoiou a investigação da sua vida, cujo principal fruto é o livro de monsenhor João Gonçalves Gaspar, “A Princesa Santa Joana e a sua época, 1452-1490”, publicado em 1981 (com Prefácio de D. Manuel) e republicado em 2012, e dedicou-lhe ele mesmo algumas páginas, como é o caso da “Carta da Princesa Santa Joana aos Jovens”, de 12 de maio de 1979.
D. António Marcelino incentivou o trabalho da Irmandade Santa Joana junto dos jovens e insistiu constantemente na atualidade e exemplaridade da vida da princesa. Na homilia de 12 de maio de 2005, para pegar apenas num exemplo, o bispo falecido em 2013 afirmou que Joana tinha um profundo amor à Eucaristia, tendo um dia imitado Jesus na Última Ceia ao pedir que lhe trouxessem 12 mulheres, “as mais estrangeiras, pobres e miseráveis”, a quem lavou os pés. “A nossa padroeira, uma jovem com ideal, com sabedoria para fazer opções de vida, com determinação na realização dos seus projetos, com profunda sensibilidade aos outros e às suas necessidades, deve ser modelo e estímulo para os jovens cristãos da cidade e da diocese”, afirmou.
D. António Francisco, entre outras ações, quis que a Missão Jubilar estivesse especialmente ligada a Santa Joana, criando o “Dia da Peregrinação”, a 11 e 12 de maio de 2013, e promovendo um concurso juvenil de desenho sobre a padroeira. Nos dois dias da peregrinação, terão visitado o túmulo de Santa Joana mais de seis mil pessoas. O agora Bispo do Porto deu à casa que acolhe padres em idade avançada ou fragilizados pela doença o nome de Casa Sacerdotal Janta Joana Princesa.
Início do múnus junto do túmulo
D. António Moiteiro quis começar a sua ação em Aveiro junto do túmulo de Santa Joana. Foi no Museu de Aveiro que, no dia 13 de setembro de 2014, perante o colégio de consultores, assinou a ata de tomada de posse. No dia 30 de novembro, na sua primeira carta pastoral, associou Santa Joana ao Ano da Viga Consagrada: “No próximo dia 5 de janeiro de 2015 vamos celebrar os cinquenta anos da declaração de Santa Joana Princesa como Padroeira especial da Diocese de Aveiro. A sua vida é um exemplo claro de como a vida consagrada é um caminho de perfeição e santidade. O estudo da sua vida e obra deve ser para cada um dos consagrados da nossa Diocese uma ocasião de maior compromisso por vivermos de um modo mais radical a nossa vocação”.
Estes e outros aspetos da relação dos bispos de Aveiro com Santa Joana serão certamente desenvolvidos no livro que monsenhor João Gonçalves Gaspar prevê publicar em 2015: “Encontros e Encantos – Bispos na vida e na memória da Princesa Santa Joana”.
J.P.F.

