Santa Joana na recordação da história

Ocorreu há dias mais um aniversário natalício de Santa Joana. A efeméride dá-me oportunidade de a evocar, até porque tive conhecimento de que foi distribuído aos alunos de uma certa Escola de Aveiro, sem qualquer interpretação ou explicação séria, o texto controverso e descuidado de Rui de Pina, alusivo à Princesa. Pessoalmente entendo que não é honesto um tal procedimento.

Em finais de Setembro de 1471, no regresso das suas vitórias no norte de África, el-rei D. Afonso V viu-se confrontado com o pedido da sua filha D. Joana, solicitando-lhe licença de se recolher em algum mosteiro ou convento, para melhor servir a Deus. O monarca, não a querendo contristar, anuiu à pretensão da Princesa. Aliás, o “Africano” não tinha o direito de se lamentar do desejo da filha, pois, em 1466, de certo modo a entusiasmara para a vida claustral, ao querer fazê-la assistir a uma profissão de votos religiosos no Mosteiro de Jesus, em Aveiro. Então, como refere um manuscrito quinhentista, “provocou sua virtuosa filha, que muito ama-va, entrar nesta casa pela devoção que nela tinha”. Ia ela nos catorze anos de idade, pois nascera em 6 de Fevereiro de 1452.

D. Joana não demorou na concretização do seu sonho; em Dezembro retirou-se para o mosteiro de Odivelas. Apesar dos sérios protestos e reclamações dos procuradores do Reino, tanto junto do monarca como no mosteiro — conforme se vê pelo documento notarial arquivado na Torre do Tombo — ela continuou no seu propósito até que, em 30 de Julho de 1472, chegou a Aveiro, para aqui viver e morrer.

Conforme referem os cronistas Rui de Pina e Damião de Góis, por morte da jovem rainha D. Isabel, ocorrida em Dezembro de 1455, el-rei mandou expressamente que nada se mudasse no “Paço da Rainha”, aí permanecendo, nos seus postos de trabalho com D. Joana, as donas, as donzelas, os oficiais e os restantes empregados; por isso, inevitavelmente eram grandes as despesas com a administração da Casa… e não por culpa de D. Joana — como parece transparecer da crónica de Rui de Pina. A razão seria outra: — Porque o Erário Público tinha de suportar as guerras em Marrocos e a manutenção das respectivas Praças, tornaram-se urgentes alguns cortes or-çamentais. Por coincidência, para tal iria contribuir avul-tadamente a tão suspirada concretização do sentimento da Princesa em seguir a vida religiosa.

Rui de Pina, cuja crónica é de 1504, escreveu que fora o próprio pai quem tivera a iniciativa do enclausuramento da filha em Odivelas, também “por se evitarem alguns escândalos e prejuízos que em sua Casa, por não ser casada, se podiam seguir”. Em face de semelhantes palavras, mesmo sendo verídicas, ninguém pode asseverar que elas se refiram a Santa Joana; é que com ela viviam dezenas de pessoas de ambos os sexos. Além do mais, o texto, manifestando o anseio de D. Afonso V em ver a filha liberta de toda e qualquer difamação, apenas contém uma hipótese futura e preventiva e não a certeza de deslizes morais, passados ou presentes.

Contudo, recorde-se que o cronista, remunerado ao serviço do monarca, preocu-pou-se mais em amontoar motivos para engrandecer a pessoa de el-rei, do que numa linha imparcial de fidelidade. Não admira, por isso, que a verdade possa sair minimizada ou maltratada pela sua pena, até porque ele próprio considerava a história como “mui liberal princesa”, feita sobretudo como compêndio de ética.

Aliás, Rui de Pina erra frequentemente na cronologia, no apuramento dos factos, na seriação dos acontecimentos, na correlação destes com a história geral, na documentação que descura, em certas ocasiões. Como afirmou o historiador dr. Domingos Maurício Gomes dos Santos ao reportar-se ao cronista — “o velho guarda-mor da Torre do Tombo nem foi, sequer, um medíocre conhecedor da história geral do seu século, nem se documentou suficientemente das fontes históricas nacionais, que tinha possibilidade e obrigação de manusear, nem, o que é mais grave, se serviu delas com probidade científica, aproveitando-as, por vezes, em detrimento de figuras cujo semblante e responsabilidades propositada ou inconscientemente deforma”. Ainda bem que ele, na referência à Princesa, termina por dizer, embora sendo inexacto na indicação da idade, que, em Aveiro, “sem casar com nome de honesta e mui virtuosa, acabou depois sua vida em idade de trinta e seis anos”. Aliás, outrossim Garcia de Resende, escrevendo em 1545, conta que, quando ela faleceu, D. João II experimentou forte abalo, porque “queria-lhe muito grande bem, e estimava muito por ser singular Princesa, de muitas virtudes, bondades e perfeições, muito católica, devota e amiga de Deus, e mui obediente a el-rei, seu irmão”. Algum tempo depois, em 1567, Damião de Góis que, tendo-a Deus chamado desta vida para a sempiterna, ela deixou “singular exemplo de virtudes, com nome de verdadeira e católica cristã”.

Perante esta como outras afirmações de historiadores ou cronistas, quem pretenda ser um crítico sensato ou um educador capaz terá de confrontar documentos, de examinar escritos, de interpretar manuscritos e de mesmo ajuizar sobre quem os produziu.