Ocorreu há dias mais um aniversário do falecimento de Santa Joana. A efeméride dá-me oportunidade de a evocar na realidade histórica, até porque tive conhecimento de certas opiniões explanadas publicamente sobre um determinado texto do cronista Rui de Pina e sobre um outro extraído do manuscrito seiscentista “Genealogias de Portugal”, arquivado na Academia das Ciências de Lisboa. Não me vou basear no “Memorial” redigido pela sua contemporânea e aia (?), Margarida Pinheiro ou pela prima desta, Catarina Pinheiro, guardado no Museu de Aveiro; apenas tomo a liberdade de transcrever o pedido da autora no parágrafo final: – «Por seu amor peço e de sua parte requeiro a quem ler e ouvir o que em este livro é escrito não julgue nem pense ser dito, ou crescentado falsamente, nem composto com afeição e lisonjaria; mas certifico e afirmo, ante o Senhor Deus e ante toda pessoa que o ler e ouvir, todo ser verdadeira verdade, e escrito per quem viu a maior parte, e ouviu à boca de pessoas de muita virtude, verdade e autoridade, que assim mesmo o viram e praticaram».
Em finais de Setembro de 1471, no regresso das vitórias no norte de África, el-rei D. Afonso V viu-se confrontado com o pedido da filha D. Joana, solicitando-lhe licença de se recolher em algum mosteiro ou convento. O monarca, não querendo contristá-la, anuiu à sua pretensão. Aliás, o “Africano” não teria o direito de se lamentar do desejo da Princesa, pois em 1462 havia declarado em Aveiro, ante a admiração dos circunstantes, «que poderia ser que ainda neste Mosteiro [de Jesus] teria e se meteria coisa sua»; e, em 1466, ele próprio a entusiasmara para a vida claustral, ao querer fazê-la assistir a uma profissão religiosa no mesmo Mosteiro. Então – como refere um manuscrito quinhentista denominado “Cadastro dos Bens do Mosteiro de Jesus de Aveiro”, hoje conservado no Museu – o monarca «provocou sua virtuosa filha, que muito amava, entrar nesta casa pela devoção que nela tinha».
D. Joana não demorou a realização do seu sonho; em Dezembro retirou-se para o Mosteiro de Odivelas. Apesar das reclamações dos procuradores do Reino, tanto junto do el-rei como à roda do cenóbio – conforme se vê no documento notarial arquivado na Torre do Tombo (“Cortes”) – ela continuou no seu propósito, mudando-se mesmo para Aveiro em Julho do ano seguinte, a fim de viver e morrer no Mosteiro de Jesus.
Conforme referem os cronistas Rui de Pina e Damião de Góis, por morte da jovem rainha D. Isabel, ocorrida em Dezembro de 1455, el-rei mandou expressamente que nada se mudasse no Paço da Rainha. Por isso, aí permanecendo D. Joana e, nos seus postos de trabalho, as donas, as donzelas, os oficiais e os restantes empregados, inevitavelmente continuariam a fazer-se grandes despesas com a administração da Casa… e não por culpa de D. Joana – como parece transparecer da crónica de Rui de Pina. Todavia, porque o Erário Público tinha de suportar as guerras em Marrocos e a manutenção das respectivas Praças, tornaram-se urgentes alguns cortes orçamentais, decidindo-se então o encerramento do dito Paço. Por coincidência providencial, seria este o momento propício para a Princesa concretizar o seu tão suspirado projecto de vida religiosa.
Rui de Pina, cuja “Crónica de D. Afonso V” é de 1504 (?), escreveu que fora o próprio pai quem tivera a iniciativa do enclausuramento da filha em Odivelas, não só para a contenção de gastos mas também «por se evitarem alguns escândalos e prejuízos que em sua Casa, por não ser casada, se podiam seguir». Em face destas palavras, mesmo se fossem verídicas, ninguém pode apoditicamente asseverar que elas se refiram a Santa Joana; é que – como se viu – com ela viviam dezenas de pessoas de ambos os sexos. Além do mais, o texto, manifestando o anseio de D. Afonso V em ver a filha liberta de toda e qualquer difamação, apenas contém uma hipótese futura e preventiva e não a certeza de deslizes morais, passados ou presentes. Qual é o documento histórico coevo que comprove que D. Joana recebia homens em sua casa – como agora levianamente se escreveu? É fácil romantizar, até para se justificarem certos comportamentos.
Contudo, recorde-se que o cronista, remunerado ao serviço do monarca, obviamente preocupava-se mais em amontoar motivos para engrandecer a pessoa de el-rei, do que numa linha imparcial de fidelidade nos diversos pormenores. Não admira, por isso, que aqui e ali a verdade possa sair minimizada ou maltratada pela sua pena; ele próprio, no prólogo da “Crónica de D. Duarte”, atreveu-se a definir a história como «mui liberal princesa de todo bem», obedecendo sobretudo a um serviço de exaltação e revelando-se como compêndio de ética.
Aliás, Rui de Pina erra frequentemente na cronologia, na datação de eventos, no apuramento de factos, na seriação de acontecimentos, na correlação destes com a história geral. Como em 1945 e em 1963 afirmou o historiador dr. Domingos Maurício Gomes dos Santos ao reportar-se ao cronista, «o velho guarda-mor da Torre do Tombo nem foi, sequer, um medíocre conhecedor da história geral do seu século, nem se documentou suficientemente das fontes históricas nacionais, que tinha possibilidade e obrigação de manusear, nem, o que é mais grave, se serviu delas com probidade científica, aproveitando-as, por vezes, em detrimento de figuras cujo semblante e responsabilidades propositada ou inconscientemente deforma». Também o dr. Manuel Lopes de Almeida, que foi presidente da Academia Portuguesa da História, escreveu em 1977: «Acusado e impugnado num largo processo histórico-literário, pesa no seu nome a amarga imputação de pouco escrupuloso, a desvalia da exactidão histórica, o mérito bastantemente relativo do estilista». Em 1536, o aveirense (não eixense!) Fernão de Oliveira no capítulo terceiro da sua “Gramática”, referindo-se a D. Afonso Henriques, diz que ele «por autoridade apostólica foi feito rei, não devendo nada a alguém, como com muita verdade afirma Rui de Pina». Convém dizer que esta opinião do gramático significa o seu juízo de valor limitado a um caso concreto, e não abrangendo toda a obra do cronista.
O autor anónimo das “Genealogias de Portugal” escreveu que um certo Duarte de Sousa foi mandado degolar por D. Afonso V, «por entrar no Paço de noite e lhe acharem um sapato que foi conhecido por seu». Numa brevíssima análise de um texto tão impreciso, surgem algumas interrogações: – Trata-se Paço do Rei ou do Paço da Rainha? Qual a intenção do fidalgo ao entrar no Paço? E, ainda que se trate do Paço da Rainha e de um fim amoroso, quem garante que a pessoa atingida fosse D. Joana, uma vez que, com ela, viviam mais de trinta donzelas e damas? Sobre isto nada diz o linhagista e, assim sendo, não se podem tirar conclusões desse texto. Por outro lado, que grau de crédito pode merecer o mesmo autor, pois que, logo a seguir, escreve ter tido D. Afonso V dois filhos bastardos? Aliás, Rui de Pina elogiou o mesmo rei, garantindo que ele foi «sobretudo de mui louvada continência» e «acerca de mulheres mui abstinente»; em consonância testemunha a autora do “Memorial” que depois da morte da rainha D. Isabel, manteve o «propósito de nunca mais casar e […] não ter mais filhos que esta senhora e seu irmão, o príncipe D. João».
Ainda bem que Rui Pina terminaria por dizer, embora sendo inexacto na indicação da idade, que em Aveiro D. Joana, «sem casar, com nome de honesta e mui virtuosa, acabou sua vida». Aliás, outrossim Garcia de Resende, escrevendo em 1545, conta que, quando ela faleceu, D. João II experimentou forte abalo, porque «queria-lhe muito grande bem, e estimava muito por ser singular Princesa, de muitas virtudes, bondades e perfeições, muito católica, devota e amiga de Deus, e mui obediente a el-rei, seu irmão». Algum tempo depois, em 1567, Damião de Góis anotou que, tendo-a Deus chamado desta vida para a sempiterna, ela deixou «de si singular exemplo de virtudes, com nome de verdadeira e católica cristã».
Aveiro jamais iria esquecer a filha de D. Afonso V, como eu sempre disse. Logo após a morte, começou a ser venerada, mesmo liturgicamente; de 1509 é a primeira pintura entre as quatro anteriores à sua beatificação, existentes no antigo Mosteiro de Jesus; de 1585 data a primeira biografia, escrita e publicada por Frei Nicolau Dias, prior do Convento de S. Domingos de Aveiro; em 1626 é iniciado o primeiro processo para a sua beatificação; e, finalmente, em 1808 foi considerada oficialmente como protectora de Aveiro, seguindo-se ao padroado de Santa Ana, mãe da Virgem Maria (e não da mártir Santa Luzia, como há dias alguém escreveu).
Nestas breves palavras, como em tantas outras, nunca esteve no meu horizonte ser “ardiloso”, mas um homem fiel à verdade. Nunca pretendendo ser um mero contador de estórias, tenho por dever imperioso investigar arquivos, confrontar documentos, examinar escritos, interpretar manuscritos e mesmo ajuizar sobre quem os produziu… se testemunhas, se transmissores, se comentadores, se romancistas…
Termino, reproduzindo algumas palavras laudatórias da protectora de Aveiro, escritas em 1852 por Francisco Joaquim Bingre – o “Cisne do Vouga”: «Joana santa, virginal Princesa… / Ela fugiu às pompas da realeza, / desprezando o real, térreo himeneu; / e entre a nossa humildade se escondeu, / sacrificando a Deus sua pureza».
João Gaspar
