Comunidade No dia 12 de maio, vinha apressada, da Sé, da Eucaristia festiva em honra de Santa Joana. Quando a vi a meu lado, sim, a própria, a princesa Santa Joana, envergando o seu hábito de noviça, iniciámos uma animada conversa.
Falou-me da sua infância, da saudade da mãe, do que é crescer na corte, num ambiente palaciano, do desvelo e carinho das suas aias, mas também das intrigas e falsidades, dum ambiente, não diferente do nosso, onde o sucesso e o brilho justificam tudo!
Contou-me de como o desejo de descobrir o sentido da vida lhe foi ajudando a fazer escolhas, a tomar posições, da paixão por Cristo que cedo foi conquistando o seu afeto! Da luta interior que viveu: por um lado, o desejo de se consagrar a Deus, a alegria da descoberta vocacional, mas, por outro lado, as preocupações com o reino, o governo de sua casa, o pai, o irmão… Os tumultos e confusões que antecipava.
Partilhou a alegria que sentiu quando a sua amiga e confidente, D. Brites, se decide a ingressar na Ordem de S. Domingos, em Aveiro. Assim, foi sabendo notícias da vida neste convento. Falou-me do seu amor e carinho pelo “Nosso Pai S. Domingos”. No momento de entrar no Mosteiro de Jesus, Joana escolheu o dia 4 de Agosto, dia deste Santo, para aí ingressar.
Com o projeto traçado, ser irmã dominicana, a Infanta D. Joana só tinha de conseguir o mais difícil, convencer o pai. Como vencer a oposição da corte? Do irmão? Descreveu-me o cuidado com que escolheu o vestido verde, as joias, o tempo que esteve em oração, antes de receber o pai, que regressava vitorioso da guerra contra os mouros, em Arzila. Ofereceu-se para ser o presente que o seu generoso pai daria a Deus, em agradecimento pela vitória. Conseguiu desta maneira arrancar o consentimento, apesar do desagrado geral.
Mesmo com o sim do rei, D. Afonso V, só a fé e a persistência a trouxeram a Aveiro, após passar aquele período em Odivelas, onde queriam que permanecesse. Entretanto, falou-me de Aveiro, falámos da tomada de hábito”, da emoção que sentiu, da radicalidade e ousadia dela, que humildemente pediu à comunidade, “a misericórdia de Deus e a vossa”, e da coragem da comunidade que aceitou a sua vontade.
Do significado do termo “misericórdia”, a única coisa que pedimos, quando entramos numa congregação religiosa. Falou-me da caridade que a prioresa necessitou para manter a serenidade perante as diversas investidas contra a sua decisão de a receber, a ela, princesa do reino, no noviciado. Relatou a conversa com o irmão; o seu sofrimento, perante a pressão de tanta gente, que não queria que ela professasse; da doença que teve; do discernimento, em que encontrou a vontade de Deus na cedência a não professar, mas como isso nunca a impediu de procurar em tudo, servir e amar a Deus, nas irmãs e nos pobres.
Então, perguntei-lhe como via o futuro, as festas? Sorriu, lembrou-me que foi educada em ambiente palaciano, nenhumas honras a envaideciam. Mas que continuava com esperança: Viu as alterações do Mosteiro, viu épocas de grande fervor, assistiu a quando aquele edifício foi fechado em 1874, com a morte da última religiosa, em consequência da lei de 1834; reaberto por D. Leonor de Lemos, com outras antigas pupilas do Convento, para colégio; os esforços que os aveirenses e a irmandade fizeram para que o edifício se mantivesse. Depois chegou à parte da história que eu mais aguardava, 1884. Falou-me da chegada da Madre Inês Duff à cidade, de como foi difícil conservar aquele velho edificio, das dificuldades que as Irmãs passaram para tornar aquela casa num dos melhores Colégios do reino, onde tanto pobres como ricos tinham acesso à educação; da persistência e caridade desta prioresa, apoiada pela fundadora da Congregação, D. Teresa de Saldanha.
Eu referi as cartas que li, entre Teresa de Saldanha e o Bispo de Coimbra, D. Manuel de Bastos Pina [Aveiro pertencia à diocese conimbricense], onde se vê o zelo desta pedagoga em dotar o Colégio de condições. St.ª Joana manifestou alegria e simpatia pela fundadora das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena. Tal como ela, Teresa também teve de mostrar o seu caráter para poder viver a sua consagração religiosa. Teve de lutar contra a vontade da família, contra as correntes políticas da sua época. Ainda partilhou a tristeza que sentiu em 1910, quando as Ordens religiosas foram extintas…
E agora? Perguntei eu. Mas apenas o vento me respondeu… Olhei bem a estátua e pareceu-me que sorria, como que a dizer: Continuo a acreditar na juventude, em gente que quer ser radical, que quer seguir Cristo, continuo a acreditar “na minha pequena Lisboa”, como Santa Joana chamava Aveiro.
Flávia Lourenço, irmã da comunidade das Dominicanas de Santa Catarina de Sena, Aveiro
