10 factos do Vaticano pouco noticiados em 2011

Em 2011 houve notícias relativas à Igreja Católica e ao Vaticano que obtiveram amplo destaque na imprensa internacional. A beatificação de João Paulo II foi uma delas. Outras foram claramente “sobrenoticiadas” – como o são geralmente os escândalos com figuras da Igreja. Mas há ainda uma terceira categoria de notícias: as que, sendo importantes, não obtiveram o devido espaço na imprensa internacional. John L. Allen Jr., do semanário católico norte-americano “National Catholic Reporter” selecionou dez factos subnoticiados. Moisés Sbardelotto traduziu. J.P.F. adaptou.

1. Scola para Milão

O cardeal Angelo Scola, 70 anos, já era candidato papal antes da sua nomeação, no dia 28 de junho, para arcebispo de Milão. Durante o século XX, dois papas foram eleitos de Milão, Pio XI e Paulo VI, e vários outros arcebispos de Milão foram considerados formidáveis concorrentes. Scola, oriundo do movimento Comunhão e Libertação, é um feroz defensor da identidade católica, mas prefere pôr o acento “no que a Igreja é” em vez de “contra quem ela é”.

2. Átrio dos Gentios

O “Átrio dos Gentios” de 24 e 25 de março, em Paris, foi um grande sucesso no mundo de língua francesa. Organizado pelo Conselho Pontifício para a Cultura, presidido pelo hipererudito cardeal italiano Gianfranco Ravasi, o encontro levou cristãos, ateus e agnósticos a um sério diálogo. Um sinal do sucesso é que o reputado filósofo agnóstico francês Jean-Luc Ferry ficou tão impressionado que pediu uma reunião urgente com Ravasi para propor uma colaboração a dois sobre o Evangelho de João. O encontro de Paris foi o primeiro de uma série de “Átrio dos Gentios”.

3. Assis

O encontro de 300 líderes religiosos na cidade natal de São Francisco, promovido por Bento XVI, no dia 27 de outubro, não atraiu um interesse semelhante ao que cercou a primeira cúpula inter-religiosa promovida pelo Papa João Paulo II em 1986. No entanto, assinalar com um encontro inter-religioso o 25.º aniversário do evento de João Paulo II foi, sem dúvida, algo de extrema importância pelo que simboliza: a convocação dos líderes religiosos do mundo em prol da paz não era simplesmente um capricho pessoal de João Paulo II. Pelo contrário, tornou-se parte do trabalho do papado, algo que os futuros papas deverão repetir.

4. A viagem ao Benim

Na ausência de um novo tumulto em torno dos preservativos e da Sida, a viagem de Bento XVI ao Benim, nos dias 18 a 20 de novembro, não foi uma sensação mediática. No entanto, os papas votam com os pés, ou seja, as suas prioridades pastorais e geopolíticas são muitas vezes reveladas pelos locais que escolhem para visitar. África é o segundo continente mais visitado depois da Europa. Bento XVI apresentou um documento contendo as conclusões de um Sínodo dos Bispos para a África, de 2009, constituindo um plano papal para o continente onde o catolicismo cresceu quase 7.000% durante o século XX, alertou para a corrupção e desafiou os bispos a arrumarem a sua própria casa em termos de responsabilidade, transparência e bom governo.

5. Viganò para os Estados Unidos

A nomeação do dia 19 de outubro do arcebispo italiano Carlo Maria Viganò como o novo núncio ou embaixador papal para os Estados Unidos tem um significado negativo e outro positivo. Durante o seu período no governo da cidade do Vaticano, Viganò foi uma reformador financeiro, instaurando procedimentos eficientes de contabilidade entre os pequenos feudos independentes do Vaticano. No entanto, não terminou o que começou. O facto de estar agora nos EUA significa que está posicionado para ajudar os bispos norte-americanos a seguir em frente na boa gestão do dinheiro, num momento em que se teme que os escândalos financeiros possam tornar-se o segundo “round” da crise dos abusos sexuais enquanto fonte crónica de desordens.

6. Tagle para Manila

Assim como Milão na Itália, Manila nas Filipinas é mais uma daquelas megadioceses cujo líder se torna automaticamente um ponto de referência global e geralmente atrai pelo menos um olhar enquanto concorrente papal. Só isso já tornaria importante a nomeação do arcebispo D. Luis Antonio Tagle, 54 anos, no dia 13 de outubro. Tagle é conhecido como um talentoso teólogo, uma personalidade extremamente não clerical, um bom ouvinte e alguém totalmente desinteressado pela construção de impérios eclesiais – não muito diferente da reputação de Joseph Ratzinger antes se eleito. Com a tenra idade de 54 anos, está posicionado para ser durante um bom tempo um grande rosto e voz do catolicismo asiático.

7. A proeza de quatro volumes de Bento XVI

Bento XVI é um papa ensinante, um ponto que ficou muito claro nas suas 22 viagens ao exterior. Os observadores sabem que o grande momento de cada viagem provavelmente ocorrerá num discurso para o “mundo da cultura”, com dignitários políticos, intelectuais e espirituais. No dia 22 de setembro, no parlamento alemão, aconteceu mais um desses momentos. O papel dos grupos religiosos numa democracia, afirmou o papa, não é “propor uma lei revelada ao Estado e à sociedade”, mas sim sustentar a “natureza e a razão” como fontes confiáveis de escolhas morais – incluindo o respeito pelo pluralismo e pela diversidade. A revista “Der Spiegel” disse que o discurso foi “corajoso” e “brilhante”, enquanto o jornal londrino de esquerda “The Guardian” encorajou os “verdes” laicos a esquecer os estereótipos do papa como “um professor alemão puritano e reprimido”. Somado a discursos anteriores em Ratisbona (2006), no Collège des Bernardins, em Paris (2008), e no Westminster Hall, em Londres (2010), o discurso no Bundestag completa uma proeza de reflexão papal sobre a fé, a razão e a democracia em quatro volumes.

8. O “Papa dos agnósticos”

O grupo que mais sentiu o amor de Bento XVI durante 2011 foi a multidão secular agnóstica. Provavelmente, a maior manchete da sua viagem em setembro à Alemanha foi o elogio de Bento XVI aos “agnósticos que (…) sofrem por causa dos nossos pecados e desejam um coração puro”. Essas pessoas, disse o pontífice, estão, na verdade, “mais perto do Reino de Deus do que os fiéis de ‘rotina’, que só veem o aparato da Igreja, sem que o seu coração seja tocado pela fé”. Da mesma forma, o sinal inovador de Bento XVI durante o encontro de Assis foi a sua decisão de convidar não apenas líderes espirituais, mas também agnósticos. Quem poderia prever que um pontífice que se supunha ser o “Rottweiler de Deus” se tornaria o “Papa dos agnósticos”?

9. O caso do crucifixo

Num desdobramento impressionante e totalmente inesperado, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) reverteu em março a sua própria decisão de 2009 e sustentou o direito de a Itália exibir crucifixos em salas de aula públicas. A decisão significa que as expressões públicas de crença religiosa foram consideradas como não conflituantes com as normas europeias dos direitos humanos e da liberdade de consciência. A imagem do advogado Joseph Weiler, judeu ortodoxo, de pé, na grande sala do TEDH com a sua kipá, defendendo apaixonadamente o direito da Itália de manter o crucifixo na parede, encontra-se entre as partes mais memoráveis do imaginário inter-religioso do ano.

10. A guerra global contra os cristãos

O ano de 2011 começou com o bombardeamento de uma igreja cristã em Alexandria, no Egito, que matou 23 pessoas, e encerrou com os ataques no dia de Natal contra três igrejas na Nigéria, onde pelo menos 27 católicos morreram. Houve inúmeros ataques contra cristãos. Embora esses episódios tenham sido amplamente divulgados à medida que ocorriam, foram geralmente interpretados como eventos localizados e isolados. No entanto, o que surge dessas atrocidades é um retrato de uma guerra global contra os cristãos. Hoje, os cristãos são de longe o grupo religioso mais perseguido do planeta. Infelizmente, é uma aposta segura que esta guerra continuará a ser uma das principais histórias de 2012.