50 anos da Canção de Aveiro

Praticamente desconhecida do público aveirense, a “Canção de Aveiro” comemora em 2009 os seus cinquenta anos. É do repertório original de Madalena Iglésias e tem autoria de dois aveirenses: Amadeu de Sousa, no poema, e Nóbrega e Sousa, na música.

A canção nasceu como tantas outras, dedicadas a localidades portuguesas. No caso de Aveiro, foi a Comissão de Propaganda das Festas do Milenário que fez oficialmente o pedido ao compositor para escrever uma canção dedicada à cidade. Presidia a esta comissão o dr. Humberto Leitão e faziam parte, entre outros, o então director do Correio do Vouga, padre Manuel Caetano Fidalgo, o dr. David Christo e Amadeu de Sousa. Embora já anteriormente tenha chegado ao Turismo de Aveiro a ideia de uma canção, terá sido germinada por Cabral Monteiro, recentemente falecido.

Se por um lado, no desejo da Comissão estava uma canção de sabor popular, na linha do Cancioneiro da cidade – onde reluzem as melodias das revistas do Clube dos Galitos e de musicólogos aveirenses –, por outro, Nóbrega e Sousa pretendia uma canção de projecção nacional e de âmbito turístico, de que a famosa Figueira da Foz é exemplar.

A canção fez-se e gravou-se. Tem orquestração de Edison Marinho e interpretação de Madalena Iglésias. Vem incluída num disco seu, um EP com mais três temas. A propósito disso, existem duas edições com “Canção de Aveiro”: uma de 1959, à esquerda na imagem, e de 1973, à direita. Quando Madalena Iglésias terminou a sua actividade artística em Portugal, no início da década de setenta, a etiqueta Alvorada lançou no mercado novas edições do muito que a cantora para lá gravara. Assim surge esta edição com uma belíssima fotografia de Madalena Iglésias. Nunca houve nenhuma edição em CD com esta canção.

O disco foi então apresentado em privado para elementos da Comissão e para o presidente da Câmara de Aveiro, dr. Alberto Souto, que não gostou da canção. Queria uma de sabor mais popular e que entrasse no ouvido das pessoas, que, em uníssono, a cantassem.

Mas com toda a razão a canção teria de ser de linha ligeira. Para a linha popular foi elaborada uma outra composição, a “Marcha do Milenário” e do bicentenário de Aveiro, da autoria da professora Maria Gabriela Viterbo, então a leccionar em Aveiro. Isto aconteceu em muitas cidades, onde, a par de uma canção ligeira, existem outras de sabor popular, que convivem e se complementam. No caso da Figueira da Foz, existe uma canção homónima, e a “Marcha do Vapor”, do início do século XX, de raiz nacionalista e empolgante. Ambas são apreciadas pelas entidades oficiais e pelo povo da praia da Figueira. E em muitas outras terras há canções ligeiras e populares. Que dizer das belíssimas melodias sobre Lisboa a par com as Marchas? Em Aveiro, infelizmente, assim não aconteceu.

Fugindo assim àquilo que era pensado, a “Canção de Aveiro” nunca esteve incluída no programa oficial das Festas do Milenário. Foi efectivamente apresentada em Aveiro, a 18 de Julho de 1959, no Baile de Gala do Milenário, no Teatro Aveirense, onde Madalena Iglésias a cantou para os presentes e para os ouvintes da Emissora Nacional, que transmitia o espectáculo. Nenhum jornal da época faz referência ao sucedido. O Correio do Vouga apresenta, pela primeira vez, cinquenta anos depois, uma fotografia de Madalena Iglésias numa mesa do antigo Teatro Aveirense. Não se conhecem, infelizmente, imagens da sua actuação.

Tivesse a Canção de Aveiro sido acarinhada e publicitada na altura, e talvez a cantora a tivesse interpretado mais e se ligasse a canção à cidade e a cidade à canção. Tantas canções fizeram publicidade a terras portuguesas: Coimbra, por Artur Ribeiro e Amália ou Alcobaça, por Maria de Lourdes Resende, demonstram isso mesmo. Não sucedeu assim com a “Canção de Aveiro”. Apenas por uma vez, ela foi considerada e valorizada: em 1994, no espectáculo de homenagem ao seu compositor. Os Corais Vera-Cruz, São Pedro de Aradas, representantes do antigo Grupo Cénico dos Galitos e Polífónico de Aveiro cantaram em uníssono a canção, como gostaria Alberto Souto, logo da primeira vez.

Nuno Gonçalo da Paula

NOTA: As fotografias são do espólio de Madalena Iglésias, que nos quis mostrá-las e cedê-las.

Canção de Aveiro

Aqui se relembram os versos.

Cidade linda,

terra de sonho e magia

Aveiro é um jardim à beira-mar

de barcos a vogar

na limpidez da Ria,

asas de luz num lago de luar.

Um céu sem par,

de bela cor,

de preces ao sol pôr

nos lábios das tricanas ao passar.

O sal cobre de branco

os caminhos p’ró mar.

Aveiro é toda encanto e sedução.

Aveiro dos murmúrios dos canais,

não esquecem mais,

tu és a mais bela canção.

No Youtube está um vídeo com a Canção de Aveiro, mas onde erradamente aparece Amadeu do Vale como autor da letra. http://www.youtube.com/watch?v=TpcOojLbKxM.