50.º aniversário da abertura do ConcílioVaticano II

D. CARLOS XIMENES BELO

Nobel da Paz em 1996

1. O que é

um Concílio?

No próximo dia 11 de outubro do corrente ano, ocorrerá o quinquagésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II.

A palavra Concílio significa convocação, congregação, reunião, assembleia. O Concílio é, portanto, uma assembleia de bispos que presidem às várias igrejas particulares para legislar e tomar decisões relativas à fé e à vida cristã.

Os concílios dividem-se em gerais ou ecuménicos, para toda a igreja universal, espalhada por cinco continentes do globo; e regionais, nacionais ou particulares, destinados a uma determinada zona geográfica, para uma ou mais igrejas particulares.

O Concílio Vaticano II foi um concílio ecuménico, pois realizou-se com a participação dos bispos de todo o mundo, sob a presidência do Papa João XXIII (1962-1963) e, depois, sob a presidência do Papa Paulo VI (1963-1965).

Até agora já houve 21 concílios ecuménicos: Concílio de Jerusalém (ano 51; cfr. Actos dos Apóstolos 15,19-21). Niceia (duas vezes: no ano 325 e no ano 787); Constantinopla (quatro vezes); Éfeso (431); Calcedónia; Latrão, em Roma, (cinco vezes); Lião (duas vezes); Constância, Basileia; Ferrara (Itália) e Florença; Trento (1545-1563); Vaticano I, no Vaticano, em (1869-1870), convocado pelo Papa Pio IX; Vaticano II, no Vaticano (1962-1965).

O Concílio Vaticano II: A ideia de convocar um concílio ecuménico já tinha sido ventilada pelo Papa Pio XI em 1923, e pelo Papa Pio XII, que para tal chegou a nomear uma comissão em 1948. Mas, razões de vária ordem levaram o Papa a deixar cair o projeto em 1951.

Foi o Papa João XXIII quem lançou a ideia da convocação de um concílio ecuménico, numa reunião com os Cardeais na Basílica de São Paulo Extramuros, no dia 25 de janeiro de 1958.

Em 1959, constituiu-se uma comissão antepreparatória, presidida pelo Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tardini (17 de maio de 1959). Tomou-se depois a iniciativa de fazer uma consulta por carta a todos os bispos do mundo, congregações romanas, gerais das ordens e congregações religiosas, universidades católicas, faculdades de Teologia e seminários maiores, pedindo sugestões e temas para o Concílio. Nesse mesmo ano o Papa João XXIII publicou a Encíclica Ad Petri cathedram dando as primeiras indicações sobre a finalidade do Concílio. Foram então formadas 12 comissões e três secretariados preparatórios do Concílio. A 25 de dezembro de 1961, pela Constituição Apostólica Humani salutis, o Papa convocou oficialmente o Concílio ecuménico para o ano de 1962.

A abertura do Concílio Vaticano II realizou-se no dia 11 de outubro de 1962.

2. A participação do Bispo de Díli (Timor Português)

no Concílio Vaticano II

Naturalmente, como todos os bispos residenciais, Dom Jaime Garcia Goulart, Bispo de Díli, desde 1945, viajou até Roma, para tomar parte nos trabalhos da primeira sessão do Concílio. Ao deixar a Diocese, Dom Jaime nomeou como governador do bispado o padre timorense Jorge Duarte Barros.

No dia 11 de outubro de 1962, no Largo de Lecidere, em Díli, pelas 16 horas, realizou-se uma celebração eucarística com a participação de sacerdotes, fiéis de Díli, alunos das escolas católicas de Balide (madres canossianas) e Lahane (padres salesianos), alunos do Colégio de São Francisco Xavier (Dare) e do Seminário de Nossa Senhora de Fátima (Dare). A missa foi rezada em latim pelo governador do bispado, Reverendo P.e Jorge Barros Duarte. Na homilia, em português, o celebrante explicou o que era um Concílio e quais as finalidades do Concílio do Vaticano II. Pedia ainda orações e sacrifícios para o bom resultado do mesmo. Recordo-me que nesse longínquo mês de Outubro, o P.e Jorge Barros Duarte havia publicado um livrinho expondo a história dos concílios ecuménicos.

D. Jaime Garcia Goulart, ao regressar da primeira sessão, falou-nos da alegria que teve em poder participar naquela magna assembleia de bispos de todo o mundo… e disse-nos a nós, seminaristas, que o Concílio iria trazer muitos frutos à Igreja e para os cristãos de Timor.

3. O sacrifício oferecido

pelo bom sucesso do Concílio

No ano de 1962, terminava eu o exame da 4.ª classe no Colégio de Santa Teresinha em Ossú (15 de julho). No dia 18 de setembro do mesmo ano, dava entrada no Colégio de São Francisco Xavier em Dare para depois entrar no Seminário.

Nós éramos 18 alunos do 1.º Ano. Na manhã do dia 11 de outubro, por causa da abertura do Concílio Vaticano II, os nossos superiores deram-nos feriado. Mas, a parte da manhã foi ocupada em limpezas dos jardins e dos cafezais da Missão. Com alguns colegas, entre os quais se contavam Rogério Lobato, Lucas da Costa, Henrique Magno, Jaime Lobo, Paulo dos Santos Amaral, Francisco Aparício Guterres, Paulino Magno e José Exposto, fomos limpar o quintal que circundava o edifício das aulas (2.º e 3.º ano) e da capela.

O trabalho consistia em juntar as folhas secas do cafeeiro e queimá-las, e arrancar as ervas daninhas. E eis que ao juntar as folhas, um esquivo escorpião (em Tetum, lacrau) escondido entre as folhas, deu-me tamanha picadela no dedo, o que me fez suar e gemer de dores… A picadela na mão esquerda provocou uma intensa dor que foi subindo do dedo para mão e, da mão para o braço, até se localizar no sovaco. Procurei não dar sinal de dor aos colegas. Mas, lembrando-me daquilo que o padre espiritual nos pedira na conferência do dia anterior (orações e sacrifícios pelo sucesso do Concílio Vaticano), apenas disse para comigo mesmo: “Vou oferecer este sacrifício pelo sucesso do Concílio Vaticano… e logo, à tarde, oferecerei também a missa, sacrifício de Cristo, pela mesma intenção”. Com este pensamento fui aguentando a dor durante todo o dia. Mas aquela situação só passou, depois de termos participado à Eucaristia e de termos regressado a Dare, pelas 19 horas.

A abertura do Concílio no dia 11 de Outubro de 1962 ficará, para mim pessoalmente, como um “farol de Díli” que jamais esquecerei. E foi há cinquenta anos!