666 – Um número que não assusta

Ontem foi o dia 6 de Junho do 2006. 6 do 6 do 6. Para alguns esta data é assustadora, porque reproduz o chamado “número do diabo”: 666.

As notícias, já no domingo, 4 de Junho (quando estas notas são escritas), davam conta da proximidade da data e do seu aproveitamento comercial (pelo cinema, por exemplo). Talvez valha a pena olhar para a origem e significado do número, que tem mais de humano do que de diabólico.

A origem do 666 é bíblica, como é sabido. No Livro do Apocalipse, o último da Bíblia, num trecho sobre a “Besta que subia da terra”, diz-se: “Aqui é preciso sabedoria: o que é inteligente decifre o número da besta, que é um número de homem; o seu número é seiscentos e sessenta e seis” (Ap 13,18).

O próprio texto bíblico sugere que descubramos quem é a Besta. Dá a entender que os destinatários originais deste escrito, as primeiras comunidades cristãs perseguidas pelos poderes imperiais, tinham elementos para identificar a Besta.

Muitos nomes se apontaram ao longo da história como sendo os da verdadeira Besta, desde os mais antigos aos mais recentes, e dos mais ponderados aos mais disparatados. As explicações mais lógicas e condizentes com o espírito do livro, que pretende consolar as comunidades perseguidas e fazer com que se mantenham íntegras na fé, relaciona a Besta com o poder imperial romano. Como qualquer poder, tornado absoluto, divinizado, torna-se diabólico.

Destacam-se duas explicações, ambas baseadas no mesmo princípio. Enquanto em português escrevemos os números com certos sinais (1,2,3…), em hebraico e grego, empregam-se as letras do alfabeto para escrever os números. Ao “A” hebraico corresponde o 1, ao “B” o 2, etc. Como ainda não havia o conceito de 0 (Zero), 10 era representado pela letra “J”; 100, pela letra” Q”; 200, pela letra “R”; 400, pela letra “T”, etc. Ora, uma das formas de obter o valor 666 é somando 400 (T) + 200 (R) + 10 (J) + 50 (N) + 6 (W), o que, em hebraico dá TRJNW, ou seja, Trajano (o hebraico só tem consoantes), o imperador que governou de 98 a 117 d.C. e sob o qual teve lugar o martírio do bispo Simão, sucessor de Tiago em Jerusalém. É provável que Ap 13,15 faça alusão a esta perseguição, enquanto Ap 13,12-14 recorda os serviços prestados por Trajano a Domiciano e a Nerva.

Outra forma de obter o mesmo número é somando o valor hebraico das letras de Nero César (NRWN QSR), o imperador que iniciou as perseguições aos cristãos e sob o qual terão sido martirizados os apóstolos Pedro e Paulo: 50 (N) + 200 (R) + 6 (W) + 50 (N) + 100 (Q) + 60 (S) + 200 (R) = 666.

Seja de que maneira for, o número fala de alguém do passado. Ir além disso é alimentar superstições e deturpar a mensagem bíblica.

J.P.F.