6º Domingo do Tempo Comum – Ano C

À Luz da Palavra A Palavra deste domingo diz-nos, com clareza e eloquência, que Deus existe e tem um projecto para nós. Existe mesmo para aqueles que O negam ou abstraem dele nas suas vidas, como se Deus tivesse morrido, em Jesus Cristo, segundo a crença da «teologia da morte de Deus». Encontramos um perfeito paralelismo entre a primeira leitura e o evangelho, o qual se completa com a carta de Paulo aos Coríntios.

Jeremias, na primeira leitura, apresenta-nos duas categorias de pessoas: as que são malditas, porque se afastam de Deus e põem toda a sua confiança nas outras pessoas, naquilo que elas sabem, fazem, inventem, como se a sua felicidade só delas dependesse e as que são benditas, porque colocam a sua esperança no Senhor. Dele lhes vem a segurança, a solidez, a paz, a fecundidade e a abundância de vida.

No evangelho, Lucas põe na boca de Jesus a proclamação de quatro bem-aventuranças para os pobres, seguidas de quatro maldições para os ricos. Aos primeiros, os que têm fome, os que choram e os que são perseguidos, isto é, a classe de pessoas privadas de bens e que vivem ao arbítrio dos ricos e poderosos, Jesus faz a proposta libertadora de Deus, porque sendo eles desprezados pelos seus semelhantes, afirma-lhes a sua total solidariedade e promete-lhes que está do seu lado, porque a salvação é, primariamente, para os simples e humildes, para aqueles que só em Deus põem a sua total esperança. Aos segundos, os instalados na vida, os auto-suficientes, aqueles que rebaixam e exploram os outros e que julgam não precisar das benesses divinas, Jesus adverte-os no sentido de que se eles prosseguirem nesta lógica não têm lugar no «Reino» que Jesus vem inaugurar.

Não se conclui daqui que Deus faz acepção de pessoas. Não faz, mas exige condições humanas e, portanto, livres para poder actuar em nós e connosco. Jesus aponta-nos o cami-nho, faz-nos uma proposta. Todos dependemos radicalmente de Deus e do seu amor benevolente. Porquê, então, nos julgamos superiores aos outros e fazemos distinção entre pessoas, favorecendo umas e aniquilando outras? Porquê pensamos que a felicidade consiste no ter e no poder? Porquê, mesmo que tenhamos riqueza e poder, não nos colocamos do lado dos desfavorecidos e oprimidos? A proposta libertadora de Jesus é uma boa nova, que enche de alegria os corações amargurados, os que sofrem e os que não têm nada, nem podem nada neste mundo. Será que nós já entendemos isto? Será que, através dos nossos gestos, já conseguimos passar esta proposta aos pobres, principais destinatários deste projecto, de modo que ele tenha impacto na nossa história humana? Onde está o nosso compromisso social cristão? Ou continuamos a ser cristãos e cristãs só de missas e de terços?

A certeza da ressurreição de Jesus e, da nossa, que nos é inculcada na terceira leitura, garante-nos que a nossa vida tem sentido e que a nossa busca de felicidade é um direito e um dever, mas que havemos de acreditar que ela só é plena e perfeita em Deus, e se vai efectivando na medida em que repetimos, criativamente, aqui e agora os gestos libertadores de Jesus Cristo.

Leituras do 6º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Jr 17,5-8; Sl 1; 1 Cor 15,12.16-20; Lc 6,17.20-26