Painel Ilda Pires
Professora
Interrogo-me sobre esta questão da necessidade e sentido dos dias disto e daquilo. Trazem algo novo à sociedade numa época em que tudo se banaliza e perde a sua força tão rapidamente? Não tenho uma resposta fácil?
Concretamente, o Dia Internacional da Mulher faria sentido se nos ajudasse a refletir sobre a questão da mulher, o seu papel na sociedade, a sua especificidade, o seu valor e a sua dignidade. Se o continuarmos a celebrar, precisamos de o refundar, aprofundando o seu sentido e alcance. De outra forma será mais um dia assinalado no calendário, com uns jantares por aqui e por acolá, que mais ajudam o comércio, do que celebram, no verdadeiro sentido da palavra, a mulher e o seu papel imprescindível na sociedade.
Apesar de tudo, como mulher, gosto de me sentir celebrada e de celebrar este dia.
João César das Neves
Economista
Para comemorar a mulher não faz sentido, porque a mulher é como o homem. Ser mulher ou ser mulher é básico, como tal não deve ter comemoração porque só temos comemorações para coisas pequenas. Mas a razão porque isso acontece tem a ver com um movimento de longo prazo, de luta pelos direitos, com o qual estou de acordo, e que continua a chamar a atenção para certos aspetos. Temos dias para chamar a atenção para tudo. Sempre achei um bocadinho ridículo esse tipo de situações, mas é importante alertar para os valores inerentes.
É importante, sobretudo, conhecer a origem e história do Dia Internacional da Mulher [jornada de reivindicação de operárias, quer nos EUA quer na Rússia, no princípio do séc. XX], que é bonita. Tirado do contexto histórico, o Dia da Mulher não faz sentido.
Ana Seiça Neves
Advogada
Tem feito sentido. Apesar das divergências de opinião, continuo a achar que a mulher, ao longo dos tempos, foi considerada de uma forma completamente diferente do que deveria ter sido. A mulher não era uma máquina reprodutora; era uma parte essencial para a continuidade da espécie e para a organização da vida em família e na sociedade.
Neste momento, as mulheres impõem-se pela sua vivência, pela sua maneira de estar e não necessitam de um dia, pelo menos entre nós. Mas faz sentido assinalar o dia, na medida em que se comemora uma luta anterior aos dias em que vivemos.
As mulheres têm feito vingar a sua maneira de ser estar e na sociedade. Não sou feminista, mas entendo que têm de ter os mesmos direitos que o homem, salvaguardando as devidas diferenças de género.
Manuel Oliveira de Sousa
Professor
Concordo com o dia, claro. Mas sinto-o envergonhado por muitos motivos, quer fundacionais quer atuais, interligados à sua existência. Contudo, só por si revela que há razões para celebrar o caminho percorrido para tantas pessoas, mulheres e homens, sábias e, mais importante, a luta contra a torpeza do mundo – a começar aqui!
É momento propício para o encanto da pluralidade da vida. É na diferença que nos completamos. Também se assinalam, assim, entropias da história; indignidades cometidas – hoje! -, as vozes do simbólico e do real alcançado; a indigência do que falta fazer; a oportunidade deste vir a ser um anacronismo: o dia que já não é necessário ser (mas que queremos que seja para se saber a igualdade).
