Decorreu no dia 3 de março, um simpósio sobre a família, promovido pelo Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro (ISCRA). Tendo como fundo a pergunta “A família ainda tem futuro?”, seis conferencistas, em três painéis, traçaram retratos da família, apresentaram linhas de força do pensamento bíblico e cristão sobre esta comunidade e deixaram desafios políticos (aos cidadãos) e pastorais (aos cristãos). Jorge Pires Ferreira, na qualidade de professor do ISCRA, traçou no final sete “sublinhados e reptos” que de alguma forma resumem um simpósio de alto nível e grande pertinência, ainda que não correspondido no número de participantes. É esse texto, proferido na conclusão do simpósio, que, com algumas alterações, aqui se reproduz.
1. CRISE. Crise da família? A palavra “crise” pairou sobre o simpósio dedicado à família, mas o que se verifica é que há um grande desejo de querer ser família. A família exerce uma grande atratividade na cultura contemporânea: homossexuais que querem casar-se e adotar filhos; divorciados que se recasam e “refazem” a família; uniões de facto reconhecidas como famílias, e até “famílias monoparentais”, num contraditório caso linguístico, já que família remete para um grupo, e uma só pessoa não faz comunidade. Crise da família cristã? Talvez, a começar na definição da família cristã. Mas, família cristã, parafraseando a célebre carta de um cristão anónimo a Diogneto, não será aquela que não aborta, não repudia os seus filhos portadores de deficiência, não se separa perante as dificuldades, não delega a educação dos seus filhos noutras instâncias, desperta os “sensores espirituais”, isto é, promove, em primeiro lugar com as suas vivências, a educação cristã, reza, não afasta dos seu seio os idosos, é fiel no amor conjugal (marido e mulher), paternal (pais para filhos), filial (filhos para pais) e fraternal (entre irmãos), é sinal da Trindade na história? Talvez esta família esteja em crise. Mas, por outro lado, nunca como hoje esta família teve tantos meios para chegar à realização.
2. O ASSUNTO DO NOSSO TEMPO. A família é o assunto. É a questão do nosso tempo. É a que divide partidos, é onde se digladiam as ideologias e políticas e na própria Igreja se sente a tensão. Pense-se nas crescentes vozes que dizem que há uma situação eclesial não resolvida com os casados recasados, que não são admitidos à plena comunhão sacramental da Igreja católica. São cada vez mais. São uma interpelação pastoral.
3. PERFIL QUE MUDA. A História diz que a família também tem uma história. Limitando-nos ao nosso contexto europeu e ocidental, predominou até à Revolução Industrial um modelo patrimonial de família. As pessoas casavam-se por questões de património, numa combinação em que os pais decidiam pelos filhos. Depois, o amor podia vir ou não. Mas hoje não é assim. Casam-se por amor e depois, por vezes, é o património que separa. Ou a carreira profissional em que os dois estão empenhados. Ou a difícil gestão do dinheiro, da educação dos filhos, dos afetos. Ou o próprio amor-paixão que se esgota, ele, que fizera do casamento “o dia mais feliz da vida” e dos restantes, porque não se transformou num amor menos epidérmico, pela sua ausência, um inferno.
4. PLANO DIVINO. Há que voltar, sempre, à Bíblia, que, não sendo um edificativo catálogo de bons costumes familiares (Caim mata Abel; José é traído pela família; David é adúltero…), realça o plano divino através da exemplaridade humana, quer pela via negativa, já referida, quer por exemplos familiares positivos (Rute, Tobias, os conselhos do Eclesiástico, o amor do Cântico dos Cânticos, que até era cantado em tabernas). Ora, o plano divino, que tem como primeiro dos mandamentos do amor próximo “honrar pai e mãe” (que, destinando-se no contexto bíblico aos filhos adultos, poderia hoje ser traduzido por “escuta o que dizem os teus pais”, “reconhece o lugar deles na sociedade”), faz o matrimónio sair do simples contrato para a dádiva de amor recíproco, como Cristo se deu à Igreja. “É grande este mistério”. E belo.
5. IMAGEM DA TRINDADE. O pensamento cristão reconhece que uma boa família é o melhor dom que podemos ter, porque é o âmbito natural de promoção e educação de todos os seus membros, é o espaço de solidariedade entre gerações, é onde se vivem as situações humanas mais densas e felicitantes, onde cada um se torna pessoa. A família é o sacramento natural de Deus-família, da Trindade. O apelo de João Paulo II à família cristã, “torna-te aquilo que és”, quer dizer: Torna-te o que já és por natureza e o que és chamada a ser por vocação, imagem de Deus.
6. ATENÇÃO À POLÍTICA. Há bons princípios legislativos sobre a família na ONU, na Europa, na Constituição Portuguesa. Mas há também, claramente, em Portugal, uma política assistencial que é antifamília. Para alguns, a família é uma ameaça, pelo que há que baralhar e alargar o conceito de família, para, por via legislativa e fiscal, atingir a comunidade humana mais sagrada. Conhecer os princípios, a legislação, as estatísticas, as boas práticas de outros países é um primeiro passo para a exigência de uma política de família transversal, amiga da natalidade, amiga do presente e futuro do país.
7. TESTEMUNHO CRISTÃO. A família – não a ideal, mas a que existe – provoca a solicitude pastoral da Igreja. Mas é preciso notar que não é a Igreja que tem uma missão. É a missão que tem uma Igreja, pelo que esta, serva da uma proposta cristã global, tem de estar atenta à “família pós-familiar” (família em mudança, incerta, de parentescos eletivos, por vezes sem relação direta com o casamento). E deve repensar continuamente o seu testemunho.
O testemunho não deve ser light (só com aparências e aspetos escolhidos do cristianismo), muito menos deve ser “burguês” (“a minha salvação”, “o meu bem-estar”). Não se deve prender a uma única resposta verdadeira e certa, mas também não pode valorizar todas as propostas como válidas e construtivas. O testemunho cristão há de oferecer propostas dinâmicas de amor e sugerir vivências engrandecedoras da conjugalidade – talvez a lacuna maior na proposta cristã. O testemunho das pessoas da Igreja, por palavras e principalmente na vivência diária, em família ou noutras comunidades, há de deixar patente que a vida familiar torna visível Deus na história.
