Lembrando o “Anjo José”

Direitos Humanos Utilizo, diariamente, uma agenda que assinala uma efeméride importante no dia 3 de Junho, data em que me sento para iniciar estas linhas. Em tal dia como hoje, no ano de 1963, desaparecia do mundo dos vivos um homem bom.

Apesar do facto ter acontecido quase uma década antes do meu nascimento, não posso deixar de aludir a esse homem, que aprendi a admirar, quando, já na juventude, li uma biografia de Angelo Giuseppe, o “Anjo José”, Roncalli. Era um pequeno livro, da autoria de Sosio Piezzela, que consegui encontrar num alfarrabista coimbrão, após ter ouvido várias referências, bastante carinhosas, que os meus pais, frequentemente, faziam ao “Papa Bom”.

Será impossível, neste pequeno espaço, descrever tão grande alma como a de João XXIII. Prefiro, por isso, centrar-me em alguns aspectos que ilustram o modo de pensar e ser do Papa bonacheirão, que ajudou a transformar o mundo.

A Generosidade: Na sua Bérgamo natal, começou por fundar uma Casa de Estudantes, para que crianças com poucos recursos materiais pudessem ter instrução. Posteriormente, fundou também um orfanato.

A Esperança: O, então, Padre Roncalli deixou uma inesquecível palavra de esperança, quando afirmou, em plena I Guerra Mundial: “apesar de tudo continuo sendo optimista. É certo que o mal que existe no mundo é maior do que pensamos, mas existe também o bem, e este é muito maior do que pensamos”. E, homem de esperança, já Papa, a ele se deve a encíclica Pacem in Terris – um dos escritos mais extraordinários sobre o(s) caminho(s) da Paz.

O Carinho: Lembro o célebre discurso da Lua, proferido na abertura do Concílio Vaticano II. No final de tão grande momento, o “Papa Bom” mostrou o tamanho do seu coração e sugeriu aos fiéis presentes que, quando saíssem do Vaticano, ao encontrarem as suas crianças, lhes dessem um carinho especial e lhes dissessem que era um carinho “da parte do Papa”.

A Simplicidade: Sempre que podia, gostava de sair do Vaticano sem seguranças, vestido de simples sacerdote, para visitar os hospitais e as prisões de Roma e conversar com o povo.

A Boa-disposição: No tempo da “guerra fria”, sendo Núncio Apostólico em França, encontrou-se com o então embaixador soviético Borgomolov, homem austero e sisudo, e encetou com ele uma conversa que começou assim: “Sr. Embaixador, vossa Excelência deve pensar que militamos em campos opostos, mas não se esqueça que temos algo muito importante em comum: a barriga. Estamos ambos, de facto, muito barrigudos.”.

O Diálogo: Fazia da tolerância uma constante. Nas suas palavras, tornava-se “mais fácil” estar com “ateus e comunistas do que com ca-tólicos fanáticos”. Aos cristãos não-católicos, tidos como “separados” até então, começou a tratá-los simplesmente por “irmãos”.

Um Visionário: Num pontificado que nem chegou a 5 anos, impulsionou a maior renovação da história da Igreja, para a qual convidou, ousadamente, imensos observadores não-católicos. A este propósito, comentava um aluno meu, depois de um trabalho de investigação sobre o Concílio Vaticano II: “Ó prof., este Papa era mesmo um visionário!”. Humildemente, concordei com ele.

Não quero exagerar em nada do que diga respeito a João XXIII. Muitos fizeram-no de forma tão exacerbada que chegaram a creditar uma incorruptibilidade “miraculosa” do corpo do pontífice, o que, posteriormente, se veio a comprovar ser fruto da ciência.

Além do mais, muitos dos nossos leitores terão o privilégio de recordar a “sua contemporaneidade do Papa Bom”. Com maior propriedade, por isso, poderiam falar sobre as suas recordações e as suas memórias.

Eu pretendi, tão somente, declarar a minha admiração pelo homem extraordinário que, “abrindo as janelas da Igreja”, desafiou a Esposa de Cristo, para que fosse, por isso mesmo, mais Humana.

Na verdade, tocado, de modo inconfundível, pelo Espírito do Amor, o “Anjo José” foi o grande responsável pela actualização da Igreja nos “novos tempos” do séc. XX e por prepará-la para os grandes desafios do Terceiro Milénio.