Quem nos governa? – As forças contestatárias?

Questões Sociais As forças contestatárias detêm um poder enorme em Portugal e, em geral, nos demais países democráticos: põem em causa, mais ou menos sistematicamente, o Estado e outras instituições; consideram-se genuínos porta-vozes do povo, verdadeiras autoridades morais e garantes da liberdade e da democracia. Influenciam, limitam e corroem o Estado, põem em causa a sua legitimidade, e arrastam contra ele uma parte significativa da população. Parece que só condescenderiam em aceitá-lo, se ele fosse legalista em extremo, até ao ponto de nada fazer, eficacíssimo até ao ponto de fazer tudo o que é necessário, e sumamente bondoso até ao ponto de agradar a toda a gente. Reivindicam, assim, um Estado divino, totalmente perfeito, sem ser totalitário para elas.

A contestação é indispensável, evidentemente; deixa, porém, de ser saudável, quando as respectivas forças só contestam e não assumem responsabilidades, ou quando, infantilmente, lutam por ideais irrealistas, sem projectos consistentes, ou ainda quando «não olham a meios para atingir os seus fins».

No vasto leque de forças contestatárias, realçam-se porventura três conjuntos: as que se encontram instituídas como tais; as que se encontram inseridas no próprio Estado; e as que se caracterizam pelo pedantismo sobranceiro. No primeiro conjunto, incluem-se especialmente os partidos políticos da oposição (qualquer que seja o Governo), os sindicatos em geral e vários movimentos sociais.

No segundo conjunto, figuram as «corporações» profissionais dos grandes sistemas do Estado, tais como a saúde, a educação, a segurança social, a justiça, as forças armadas e de segurança. Este conjunto de forças dispõe de um ascendente mediático notório em relação, sobretudo, ao Governo: conhecem, melhor do que ele, os diferentes quadros normativos; participam na elaboração das leis; têm responsabilidades e poder específicos para a respectiva aplicação; permitem-se identificar o bem comum com os seus próprios interesses; e, para cúmulo, aproveitam bem, a seu favor, o facto de estarem dentro do Estado.

Nas forças caracterizadas pelo pedantismo sobranceiro, têm particular relevo os grandes meios de comunicação social, os intelectuais exibicionistas e a maledicência popular, conjugada com o anedotário difuso e com o humorismo dominante, mais ou menos estereotipado. Estas forças deturpam factos, substituem notícias por comentários, e estes por juízos inquisitoriais, fazem processos de intenção ofensivos da dignidade humana e, ao mesmo tempo, consideram-se proprietários da verdade, sentinelas da liberdade e lídimos expoentes de valores e de princípios. Assim, do alto do seu pedestal sobranceiro e de uma susceptibilidade extrema, reprovam quem se atreva a contactá-los (dizem «pressioná-los») para a correcção de alguma notícia. Reprovam, especialmente, qualquer interferência, ou informação alternativa, do poder político.