Porquê, meu Deus?

Sou pai e avô. Tenho fé. E na fé busco a esperança. E na esperança, procuro o equilíbrio num mundo atordoado pelo mal, pela indiferença, pelo egoísmo, pela cultura da morte e da indignidade.

Nas entranhas da minha alma o desaparecimento daquela menina inglesa no Algarve, como antes de outros meninos e meninas que nos chegam pela imagens ou pela ausência delas, provocam-me uma mistura dolorosa de compaixão, de impotência, de medo, de absurdo absoluto.

Abstraindo-me da parafernália dos media, e imergindo silenciosamente na essência e não na circunstância, sinto-me dentro daquelas crianças na fragilidade e na memória do meu ser criança. E dentro dos seus sofridos pais na vulnerabilidade do meu ser impotente, na compaixão do meu ser sensível.

Nestas ocasiões, sentimos a injustiça de ver os nossos problemas como os maiores, ainda que significantes ou insignificantes. Para a maioria deles que nos ocupam e consomem, não somos nós que os resolvemos, mas os acontecimentos que os dissolvem.

Nestes casos, porém, no vazio da ausência esventrada, no absurdo de um mal infinito, nada se pode dissolver na mente e no coração daqueles pais. É um sofrimento que não tem medida por a ter demais. Porque é invasivo até à mais profunda e ínfima fracção da natureza e da dignidade de condição humana. Porque é corrosivo nos mais recônditos poros da alma e da sensibilidade. Porque não tem intervalos no imaginário da felicidade interrompida e da perfídia contra a inocência e a pureza. Porque é destrutivo entre a esperança que não desvanece e o luto que não acontece. Porque o futuro parece não ter lugar para além da memória do passado e da inquietude totalitária do presente.

Perante tudo isto, transporto-me para uma angústia solidária onde me apetece chorar mesmo que sem lágrimas. Em silêncio interior, que é a minha maneira de estar com eles todos. E de rezar. Em comunhão, porque é o meu modo de os ajudar.

E de reler o Evangelho para não perder a esperança: Jesus, chamando uma criança, pô-la no meio deles e disse: ‘Na verdade vos digo que, se não vos converterdes e vos tornardes como crianças, não entrareis no reino dos céus. Aquele, pois, que se fizer pequeno como esta criança, esse será o maior no reino dos céus. E quem receber em Meu nome uma criança como esta, é a Mim que recebe. Porém, quem escandalizar um destes pequeninos, que crêem em Mim, melhor fora que lhe pendurassem ao pescoço a mó de um moinho e que o lançassem ao fundo do mar (Mt, 18, 1-6).

Imagino, dolorosamente, o olhar de uma criança eleita de Deus, na ausência dos seus pais e do seu anjo da guarda. Mas será que tenho mesmo capacidade para imaginar essa dor tão infinita quanto injusta? Não, certamente que não…

E pergunto, inconformado, porquê, meu Deus?