Espaço e comunidade de educação da consciência social

Pensar a Paróquia A acção em favor da justiça e a transformação do mundo fazem parte irrenunciável da missão da Igreja entendida como um serviço de redenção da humanidade e de libertação de toda a situação opressora. Esta afirmação tem a autoridade de Paulo VI e surge no contexto do Sínodo de 1971.

Este contexto denota a passagem de um ambiente de optimismo geral, típico de uma sociedade opulenta, a um outro em que se expande um crescente pessimismo e se acentuam desequilíbrios característicos de uma época de crise. Sirva de ilustração a turbulência ocorrida com o petróleo, os efeitos da cessação da Guerra Fria, a independência de novos países, as tensões surgidas na Igreja e na Acção Católica, o surgimento e a difusão da Teologia da Libertação, a série de importantes documentos publicados pelo Magistério eclesial, designadamente a “Octogesimo Adveniens”.

É nesta carta pessoal que Paulo VI sublinha a responsabilidade das comunidades cristãs em relação ao “apostolado social”, à acção a empreender contra as situações de pobreza. As comunidades devem analisar com objectividade as situações envolventes e iluminá-las com o Evangelho a fim de haurirem princípios de reflexão, normas de avaliação e directrizes de acção. Em Portugal, a Carta Pastoral comemorativa do 10º aniversá-rio da “Pacem in Terris”, em Junho de 1973, faz uma significativa aplicação destas orientações. Nessa altura, é já intensa a movimentação clandestina político-militar que conduz à Revolução do 25 de Abril.

A paróquia constitui uma destas comunidades, a par de outras integradas no seio da Igreja diocesana. A indicação pontifícia aplica-se directamente ao campo social, isto é, das realidades temporais, ou seja, à vida e à família, à cultura, à economia, ao trabalho, à educação, à política. A ela compete, neste enquadramento, estar consciente do que acontece e dos dinamismos que se entrecruzam na teia dos factos, a fim de encontrar o meio adequado à acção a realizar.

Por isso, examinar o fenómeno da pobreza exige que se analise o da riqueza, falar de pobres implica que se fale de ricos, tratar das relações de interdependência comporta necessariamente as relações sociais, políticas e económicas que configuram a cultura da nossa sociedade.

A originalidade da presença e da acção da Igreja na luta contra a pobreza e a exclusão social em benefício dos pobres e dos marginalizados não está tanto no que se faz, mas nas razões mais profundas da sua intervenção.

Como qualquer pessoa, sem mais “adjectivos”, o cristão actua por razões humanitárias. A ajuda nasce do impulso da consciência cívica e expressa-se nas formas aptas para satisfazer a necessidade e para dar um passo na promoção de quem é “assistido”. Nada nem ninguém pode razoavelmente impedir esta solidariedade primária.

A escala para atingir a autonomia pessoal tem níveis que formam uma unidade. Esta unidade expressa-se não só em a pessoa se bastar a si mesma, mas em poder prestar socorro a outros para que ousem sair da situação de miséria ou mesmo de pobreza em que se encontram.

No seu humanismo, o cristão-cidadão pode incluir, à maneira de seiva, uma energia religiosa. A realidade continua a mesma, mas a motivação adquire uma nova consistência. Os agentes sociais fazem os mesmos programas, mas a relação pessoal e comunitária sai reforçada pela crença ou pela religião que se professa. O beneficiário mantém o mesmo rosto humano, mas o brilho do olhar com que é visto adquire outra intensidade. O acto humano de bem-fazer identifica-se com o acto religioso de alcance transcendente.

Na sua religiosidade, o cristão-cidadão-católico “capta” não apenas uma energia oculta mas uma pessoa nova, aquela que se identifica com os pobres em qualquer nível de necessidades. Capta esta presença e deixa-se impelir pelo amor que dela brota. Sem descurar em nada o que faz, aperfeiçoa-o, se possível, personalizando a motivação. “O que fizestes a um destes Meus irmãos, a Mim o fizestes” – garante Jesus Cristo.

Em Jesus Cristo, a acção social cristã encontra o seu fundamento mais sólido. Ele, melhor que ninguém, sabe valorar a relação com o próximo na modalidade de dom, sabe relativizar a força da utilidade mercantil na forma de intercâmbio e reciprocidade, sabe medir o alcance das leis e situá-las no enquadramento do direito justo. Esta sabedoria que nos advém do proceder de Jesus deve inspirar o agir responsável dos seus discípulos-apóstolos.

O dom faz-se doação, alimenta laços de proximidade e cria vínculos comunitários. O pobre é o meu próximo a quem devo amar como a mim mesmo. O intercâmbio utilitário abre horizontes à posse e ao uso dos bens. O pobre – como qualquer pessoa – necessita dos bens indispensáveis a uma vida digna para si e para os seus. Não pode ser tratado apenas como cliente de um mercado livre, porque não tem posses para comprar, embora necessite absolutamente desses bens. A lei regula o funcionamento dos espaços sociais e das relações entre as pessoas, delimita a função da administração pública e estabelece o papel do Estado. Deve ser sempre o rosto do direito justo que dá harmonia e coesão ao todo da sociedade em ordem ao bem-estar de cada um. Por isso, os recursos disponíveis ou a produzir em qualquer sociedade estão ao serviço do Bem Comum, comportam uma entranhada função social e devem chegar a todos segundo a justiça e a equidade. A caridade impregna estas regras que são virtudes e, por vezes, suplanta-as de modo humanizante.

A paróquia tem uma função insubstituível a desempenhar: educar a consciência social dos cristãos, servir a causa dos pobres como “coração” da comunidade eclesial e “cerne” da sociedade, situar a pobreza no contexto de riqueza que a provoca, rever as obras de que é “gestora” à luz da ética social evangélica, celebrar em festa a solidariedade vivida e potenciada, estabelecer parcerias adequadas à urgência das respostas a implementar. A paróquia, pelo seu ser e agir, expressa e configura a solicitude da Igreja pelos pobres, sinal de que o Reino de Deus se vai implantando entre nós.