Roteiro das Artes Tradicionais

Seguda Parte As sugestões para tempo de férias prosseguem com a segunda parte do roteiro das artes tradicionais

Por Aveiro

Na cidade de Aveiro, começamos por uma ida até ao típico bairro da Beira-mar (Rua D. Jorge Lencastre), para conhecer a casa de Silvina da Silva Raimundo, onde são produzidos os genuínos ovos moles de Aveiro. Esta artesã herdou da sogra, Maria da Apresentação da Cruz, a produção de ovos moles, a qual já tinha “herdado” essa antiga receita de uma tia. A receita está na família há mais de um século. Ainda que a receita dos ovos moles seja praticamente idêntica (gema de ovo, açúcar e água), há pequenas nuances e sabores de produtor para produtor, facto que se deve a factores como cozedura, tempo de preparação, temperatura do fogo, “segredos” próprios de cada produtor. Associadas aos ovos moles estão as tra-dicionais barricas, produzidas por Abílio Ferreira.

Junto aos “Arcos”, na Rua Mendes Leite, fica a “Verdesperto”, loja onde Helena Thadeu produz e comercializa artesanato urbano produzido à base de papel, de tecido e de outros materiais reciclados ou reutilizados, como cestos decorativos em que o vime é substituído por rolinhos de papel de jornal, carteiras feitas com sacos de café, entre outras peças, incluindo postais.

A etapa seguinte conduz-nos ao Bairro do Liceu, onde João Mateus pinta, de forma minuciosa, paisagens da região aveirense em pequenas conchas marinhas, trabalho considerado único no mundo. Com coleccionadores em todo o mundo, as “maravilhas do Mateus” são verdadeiras pinturas artísticas, em que as telas são substituídas pelas conchas. Para além das paisagens aveirenses, o artista reproduz temas como flores, pássaros e gentes. Cada pintura é única, porque, como diz, “é impossível pintar à mão duas coisas iguais”.

De Aveiro, seguimos para Esgueira, para uma paragem no nº 132 da Rua José Luciano de Castro, para apreciar os registos (arte sacra) produzidos por Maria Luísa Torres Teles Caxide. Com origem nos antigos conventos, os registos são peças artisticamente elaboradas, onde se guardam “relíquias” ou “registos”, que podem ser imagens (de santos ou de entes queridos) ou objectos diversos de valor sentimental.

Ainda em Esgueira, a viagem prossegue pela Rua Cabo Luís, onde se localiza a oficina de Carlos Sucena, artesão que produz peças artísticas em ferro forjado, nomeadamente as tradicionais camas de ferro, mobiliário de jardim, candeeiros, lanternas, lavatórios e gradeamentos, entre outros objectos decorativos ou utilitários.

Mais adiante, na Quinta do Simão, fica a Olaria Felica, oficina onde Fernando Lima Carvalho produz a típica louça utilitária de barro, incluindo as famosas “caçoilas” para a chanfana (tanto vermelhas como pretas), feitas na tradicional roda de oleiro e cozidas em forno a lenha. A par da confecção das peças, na Olaria Felica também são ministrados cursos de olaria, a maioria dos quais para gente citadina.

O percurso segue para Mataduços (Rua da Liberdade, 282), para uma visita à oficina de azulejaria e cerâmica de António Mourinho, artesão que tem na execução de artísticos painéis de azulejos a sua principal actividade. Os temas são os mais diversos, incluindo peças e séries temáticas únicas, de que são exemplos a colecção das Capelas de Aveiro e a série de painéis em relevo que retratam monumentos e paisagens de Aveiro.

A última etapa no concelho de Aveiro ocorre em São Bernardo (na rua principal), na oficina de Zé Augusto, um dos mais conhecidos “barristas” aveirenses, autor de alguns dos mais típicos e característicos “bonecos” que retratam gentes populares, do marnoto ao homem do ramo, passando pelo casal de “cagaréus” e de “ceboleiros”. Imagens que o artesão também “retrata” em pratos.

De Sever do Vouga

a Pardilhó

O circuito pelas terras do Vouga inicia-se na vila de Sever do Vouga, na oficina de Elmano Figueiredo Lima, situada junto à Escola Secundária. Este artesão produz artigos em cabedal, nomeadamente botas e chinelos feitos à medida, carteiras, bolsas e chapéus, peças com design moderno. Por encomenda, faz calçado “antigo” para ranchos folclóricos, recriações históricas e feiras medievais.

No lugar de Felgares, freguesia de Silva Escura, no concelho de Sever do Vouga, Ana Tavares dá continuidade à tradição do tecer o linho. Para além de ter uma pequena produção, onde executa todo o “ciclo do linho”, que culmina com a tecelagem, a artesã confecciona cortinas, panos, toalhas e colchas, incluindo o trabalho final do bordado e da franja, se necessário. No bordado e na bainha aberta, conta com a colaboração de uma outra artesã.

Este itinerário por alguns artesãos e artes tradicionais da região de Aveiro termina em Pardilhó, concelho de Estarreja, na oficina de Manuel Rufo. Numa terra que se tornou conhecida pelos estaleiros artesanais de barcos da ria, este artesão dedica-se a fazer miniaturas, à escala, dos barcos da ria, com destaque para os barcos moliceiros. Para além do rigor das miniaturas, estas peças, muito procuradas por coleccionadores, têm a particularidade de virem equipadas com todos os apetrechos usados na apanha do moliço, também feitos à escala.