Entrevista a propósito do XXII Congresso Mundial do Apostolado do Mar Joaquim Simões, diácono, director diocesano da Obra do Apostolado do Mar (OAPM) – Stella Maris, deslocou-se à Polónia para participar no XXII Congresso Mundial do Apostolado do Mar. Em entrevista, o responsável pela instituição que tem sede na Gafanha da Nazaré relata as principais conclusões do Congresso e suas implicações no Stella Maris aveirense.
Correio do Vouga – Após ter participado no Congresso Mundial do Apostolado do Mar, de 24 a 29 de Julho, que conclusões retirou desse encontro?
Joaquim Simões – Posso resumir as conclusões mais importantes em poucas frases: o homem do mar (o marinheiro e o pescador) e suas famílias necessitam urgentemente de uma Evangelização específica na linha da espiritualidade e da esperança, feita pelos párocos, onde parte da sua comunidade paroquial é composta por pescadores, pelos capelães dos portos, etc.
Não se pode estar agarrado a equipamentos ultrapassados, na sua localização e no tempo. A oferta tem que ser onde o homem do mar está, no seu local de trabalho, onde vive. Numa altura em que tudo muda, se adapta e se moderniza, no nosso caso em concreto, do que estamos à espera?
A deslocação ao Congresso Mundial foi importante para pensar o futuro do Apostolado do Mar…
Desloquei-me a Gdynia na qualidade de Presidente da Direcção da OAPM – Stella Maris, da Gafanha da Nazaré. Aceitei convite, o qual já agradeci, quer a D. António Vitalino, quer a D. António Francisco. Fui no sentido de verificar qual o caminho que este Congresso Mundial, promovido pelo Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes, apontava para os próximos 10 anos, em termos de Pastoral Marítima e Piscatória e também o que se entendia sobre os próprios equipamentos de acolhimento e serviços de apoio, a todas estas pessoas e seus familiares, ligados a este Sector e cuja Pastoral específica deve merecer mais atenção na linha Espiritual, por parte de Bispos, Párocos, Capelães, e Leigos.
O que tirei de mais interessante do Congresso foi, à luz do mesmo, e no decorrer das 16 sessões, ir repensando o nosso Stella Maris, situado na paróquia da Gafanha da Nazaré, no que respeita aos seus objectivos, à sua localização; se o equipamento está a dar as respostas que as gentes do mar necessitam; a pastoral das praias, cujo dinamismo se vê em doze Stella Maris paroquiais (em 20 de Maio, em Sesimbra, 600 pessoas estiveram no encontro de pescadores e familiares) dos catorze existentes em Portugal. O de Leixões e o de Aveiro têm estatutos diferentes.
Quantos portugueses estiveram no Congresso? O diácono não era o único português entres os 350 participantes…
O Congresso reuniu 350 participantes, de 40 países, e teve como tema: “Em solidariedade com a Gente do Mar, testemunhos de esperança pela Palavra de Deus, a Liturgia e a Diakonia”.
De Portugal foram quatro pessoas ligadas à Obra do Apostolado do Mar, a saber: o Sr. D. António Vitalino Dantas, na qualidade de Presidente da Comissão da Mobilidade Humana e Bispo de Beja; o Sr. Pe. Armando Rodrigues, Pároco de S. Domingos e Presidente do Stella Maris Paroquial da Diocese de Viana do Castelo; eu, como convidado do Presidente da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana e do Director Nacional da OAPM; e a minha esposa, Maria Isabel Simões, a expensas próprias, fazendo parte da Direcção da OAPM-SM da Diocese de Aveiro.
Veio de lá mais exigente com o trabalho que tem de levar a cabo?
Pelo que me foi dado observar, trata-se de uma Pastoral mais complexa, mais séria e mais exigente do que aquela que me parecia ser e que eu, na nossa Diocese, constatei, de há cerca de um ano e meio para cá. Não basta termos uma OAPM – Stella Maris de âmbito diocesano. É preciso, sim, que as pessoas acima referidas façam o trabalho de Evangelização e de Espiritualidade, tendo em conta o perfil dos seus paroquianos e, em tempos de mudança, que estejamos todos abertos a essa mudança, reflectindo sobre o que é melhor, como resposta à Evangelização que todos nós – Igreja, esperamos uns dos outros, cujo orgulhoso, com o nosso trabalho, há-de ser, cada vez mais, Jesus Cristo.
Com 40 países participantes, houve partilha de experiências?
Constatei que nos outros países as realidades de alguns são idênticas às nossas – no México, por exemplo, onde os pescadores e barcos estão parados e em crise profunda, por causa das cotas, neste caso, não da pesca do bacalhau, mas sim da pesca do atum. Outros países apresentaram a máfia que existe nos pavilhões (bandeiras) de conveniência e no recrutamento dos marítimos e dos pescadores e as injustiças sociais, acabando por criar uma mais valia, muito significativa, para os empresários do Sector.
Lech Walesa relatou os acontecimentos que mudaram a Polónia
Correio do Vouga – Estando na Polónia, com certeza visitaram outras partes do país…
Joaquim Simões – O Congresso decorreu em Gdynia, cidade costeira do norte da Polónia, no Mar Báltico, com um belíssimo e moderno porto marítimo e de pesca (totalmente destruído aquando da Segunda Guerra Mundial), sendo também ladeada de boas praias. Ao passear junto ao porto, dá-se conta dos seus jardins bonitos, bem arranjados; e de ser uma cidade limpa. Tem bons parques, com actividades artísticas, quer de noite, quer de dia, com imensos jovens a divertirem-se em bares, nas praias, etc. Tem bons restaurantes e o Hotel onde nos instalaram – Hotel Orbis, com paisagem para o Báltico, foi qualquer coisa de espectacular.
A 25 km de Gdynia fica Gdansk…
…Cidade de estaleiros e do Solidariedade…
Sim, a cidade ficou muito conhecida pelos seus estaleiros, nos anos 80, por um sindicato, o Solidariedade, e, sobretudo, pelo seu Presidente Lech Walesa. Este homem marcou-me muito – e a muitos de nós –, na altura. Pela sua determinação e feitos, ainda hoje é tido como um verdadeiro herói.
Teve oportunidade de falar com Lech Walesa?
Tivemos oportunidade de o ver e ouvir. Nas instalações do Solidariedade, situadas numa praça da cidade medieval, Lech Walesa recebeu e ao longo de uma hora relatou – sem que estivéssemos a contar -, parte dos acontecimentos, aos cerca de 350 congressistas, sendo aplaudido por várias vezes, pelo seu entusiasmo e pela maneira agradável e alegre como descreveu os acontecimentos de então.
Com que outras impressões ficou deste país que recentemente aderiu à União Europeia?
A Polónia irá ser a curto prazo o celeiro da Europa, tanto quanto vi. Por várias vezes saímos em visitas guiadas, num raio de 100 Kms, quer para o lado de Gdansk, quer para o lado de Malborg, sede dos Teutões. Vale a pena uma ida à Polónia (parte norte, recomendo uma visita a esta cidade histórica). Nota-se muita organização e vontade de moderniizar, com muito potencial agrícola e florestal. Refiro-me apenas ao norte, pois não foi possível visitar a Polónia Central e Sul, onde se situam Varsóvia e Cracóvia e a terra onde nasceu e viveu o nosso querido e saudoso Papa João Paulo II, cuja estátua em bronze e de tamanho natural ficava num jardim, junto a uma Igreja e que era bem visível do nosso quarto.
Gostou, então, de visitar a terra do Papa João Paulo II
Fiquei ligado a esta terra, senti-me bem e foi uma semana mágica, cheia de coisas muito boas. Penso que na origem de tudo isto está a fascinação que tinha e continuo a ter pelo Papa João Paulo II e tudo quanto lhe diz respeito; e também não escondo, a admiração que continuo a ter pelo Sr. Lech Walesa. Logo que possa, irei visitar, sobretudo o Sul, por razões óbvias.
