Nada de confusões

O “Diário de Notícias”, na sua edição de 30 de Junho passado, na secção das “Artes”, publicou uma entrevista de Isabel Lucas com o conhecido historiador Marsilio Cassotti, que estudou Ciências Políticas e Relações Internacionais na Universidade Católica de Buenos Aires e Línguas no Instituto Católico de Paris; foi director de uma colecção de História pertencente a uma editora de Barcelona e é autor de estudos sobre diversas mulheres, como a princesa Éboli, esposa do nosso Rui Gomes da Silva, membro da casa da imperatriz D. Isabel de Portugal, a princesa castelhana D. Joana, filha de el-rei D. Henrique IV, a duquesa de Alba, mecenas de Goya, e a rainha D. Maria Luísa de Parma, avó da infanta D. Maria Isabel de Bragança. Recentemente escreveu um trabalho histórico sob o título “Infantas de Portugal – Rainhas em Espanha”, traduzido em português por Francisco Paiva Boléo e publicado por “A Esfera dos Livros” (Lisboa).

Pessoalmente, li com interesse as diversas alíneas esclarecedoras da referida entrevista, onde se menciona D. Joana de Portugal, filha do rei D. Duarte e de sua esposa D. Leonor de Aragão, nascida em 1438 e falecida em 1475; foi rainha de Castela, por ter casado com D. Henrique IV, em 1455. Efectivamente, consta que a sua vida moral não terá sido recomendável, dadas as suas relações amorosas com D. Beltrán de la Cueva, marquês de Ledesma, duque de Albuquerque e grão-mestre da Ordem de S. Tiago. A princesa Santa Joana, nascida em 1452 e falecida em 1490, era sua sobrinha pelo lado do pai, D. Afonso V, e prima pelo lado da mãe, D. Isabel.

Restringindo-me apenas aos séculos XIV e XV, sabemos que muitas outras infantas e princesas, com o nome de Joana, nasceram e viveram ao longo desses anos – o que pode confundir os menos atentos. Nomeio apenas as seguintes, que foram rainhas: – D. Joana de Borgonha (nascida nos finais do século XIII e falecida em 1325), que casou com D. Filipe V, rei de França; – D. Joana de Navarra (1273-1365), rainha de França e de Navarra, filha de D. Henrique, o “Gordo”, que casou com D. Filipe, o “Belo”, rei de França; – D. Joana de Bourbon (1338-1378), que foi esposa do imperador D. Carlos V; – D. Joana I (1326-1382), filha de D. Carlos, duque da Calábria, que foi rainha de Nápoles; – D. Joana Henriquez (1425-1468), que casou com D. João de Aragão, rei de Navarra, sendo mãe de D. Fernando, o “Católico”; – D. Joana, a “Beltraneja” ou a “Excelente Senhora” (1462-1530), princesa castelhana, considerada filha adulterina dos acima referidos D. Joana de Portugal e de D. Beltrán de la Cueva; – D. Joana, a “Louca” (1479-1555), rainha de Castela e de Aragão, segunda filha dos Reis Católicos de Espanha, D. Fernando e D. Isabel, a qual casou com D. Filipe, o “Belo”, filho e herdeiro do imperador Maximiliano da Alemanha.

Saindo das fronteiras nobiliárquicas, não esqueço a camponesa e pastora Santa Joana d’Arc (1412-1431), heroína francesa apelidada a “Donzela de Orleães” e canonizada pela Igreja Católica em 1920.

Ao ver a página nº 46 do citado diário, depara-se imediatamente com a reprodução do quadro quatrocentista da princesa Santa Joana, coevo da retratada, que se encontra no Museu Nacional de Aveiro. Mas… que tem a ver esta gravura com a rainha D. Joana, mencionada na entrevista e na legenda? Aliás, no livro, por baixo da ilustração, encontra-se escrito: – “A fúria dos nobres depois de a rainha Joana, mulher de Henrique IV de Castela, ter tido dois filhos de um amante, não só arruinou definitivamente os direitos dinásticos da filha, a “Excelente Senhora”, como terá sido talvez o motivo por que não se conheçam hoje retratos de uma mulher cuja rara beleza foi cantada pelos melhores poetas castelhanos. A sobrinha, e homónima, a princesa Santa Joana, talvez se assemelhasse a ela fisicamente”.

Não acredito que houvesse má fé, mas apenas uma distracção. Entre as pessoas que me escreveram e contactaram, alguém classificou o acto de “ultraje feito às gentes de Aveiro com o infame atentado à nossa Padroeira e à história de Portugal”. Julgo que isso não terá sido consciente.