Parece… mas não é

O nosso poeta Aleixo versejou fortemente esta realidade: parecer não significa ser; ser nem sempre parece. Dizia ele: “Sei que pareço um ladrão; mas há muitos que eu conheço, que, sem parecer o que são, são aquilo que eu pareço”.

Vem isto a propósito de uma lei dita de despenalização do aborto, que, a cada dia, se revela mais uma verdadeira promoção do aborto, uma descarada liberalização dessa prática desumana, ou mais uma vulgar forma de controlo da natalidade.

Veja-se, por exemplo, como as consultas pré-aborto são, na realidade, pró-aborto. Basta pensar que está vedado mostrar à mulher em causa a ecografia do seu filho (para que se não deixe impressionar?…), que os médicos objectores de consciência não poderão fazer essas consultas (entretanto, os mesmos servem para encaminhar as mulheres que o solicitam para instituições e pessoas que realizam o aborto), que não se esgotam informações sérias e totais sobre outras saídas…

As garantias de assistência de saúde às candidatas tomam prioridade sobre muitas situações graves, que se arrastam indefinidamente no nosso sistema. E – pasme-se! – a remuneração, quando a recuperação o exigir, supera a das grávidas com necessidades de repouso ou das que fazem o acompanhamento dos recém-nascidos.

Afinal, a lei não parece promotora da cultura da morte, da liberalização do aborto; mas é. Afinal, a lei parece ser uma resposta possível a um problema social grave; mas, na realidade, não é.

A par com isto, vem a governação divulgar medidas que parecem de apoio à natalidade. Mas, de facto, embora signifiquem alguma melhoria na política de apoio à família, não promovem a inversão do decréscimo demográfico.

Para além de serem das mais insignificantes medidas, neste campo, dentro da União Europeia, não manifestam qualquer estratégia na correcção do défice demográfico. Isto, porque não enunciam estratégias nem prazos para inverter esta tendência de extinção da “espécie”. Afinal, parece ser uma resposta ao inverno demográfico que atravessamos; mas não é. São apenas medidas avulsas, certamente com o intuito de conquistar a simpatia da opinião pública; mas, de modo algum, medidas de fundo em busca do bem comum.

Poderíamos até pensar que estamos perante um pai cruel que, por um lado, veda o direito à vida a um seu filho nascituro; e, por outro, vai procurar compensar o remorso com um miminho sobre o filhote sobrevivente. Todavia, não resulta. Quem morreu, morreu; e ninguém o substitui!